Vou abordar este tema a partir de um texto de
Winnicott de 1968 que foi catalogado pela editora Martins Fontes, em 2011, no
livro “Tudo começa em casa”[i].
A relevância deste tema para pais e educadores está
no conflito existente no ato de ensinar no sistema educacional e na dificuldade
dos pais de acompanharem o desenvolvimento escolar dos filhos. Para os pais, este
é um campo pouco dominável - por não serem profissionais da educação - e por
sua vez, para os educadores, exige um domínio da psicologia do desenvolvimento
afetivo das crianças, que na sua quase totalidade não foram preparados para
tal.
A importância da relação entre aluno e professor(a)
Winnicott nos aborda “Acho que é bem conhecida a
importância vital da relação professor-aluno. É assim que os psiquiatras
começam, quando se referem a problemas de ensino. A não- confiabilidade do
professor faz com que quase toda criança se desintegre. Quando uma criança
relata sua dificuldade em fazer somas ( ou em História, ou em Inglês), a
primeira coisa em que se pensa é: Talvez este professor não sirva. Não poucas
crianças tiveram obstruído o desenvolvimento de sua aprendizagem em função do
sarcasmo do professor.” ( WINNICOTT, 1968, 2011- p. 50).
Eu mesmo passei por mãos de professores sarcásticos
que me atribuíam chacotas pela manifestação de meus limites na educação.
Primeiro quando cheguei para estudar a primeira série em uma grande escola
estadual na cidade de São José do Rio Pardo - SP, onde estudei até a oitava
série. Nesta cena, estava em uma longa fila para esperar a chegada da
professora e havia três filas de quase 40 crianças. Perguntei a uma senhora
super estressada e brava, a pedagoga, sobre o porquê estava na fila C. Ela me
disse que eu era fraquinho, por isso estava ali. Nossa, eles não me conheciam,
como ela poderia saber se eu era fraquinho? E olha que isso aconteceu em uma
época em que a educação era bem melhor que a de hoje.
Outro episódio foi com uma professora de português,
já no ensino fundamental dois, no sexto ano. Ela usava uma técnica de cada
aluno ler em voz alta um texto coletivo, e no primeiro erro de leitura ela
batia um lápis sobre a mesa dela e sabíamos que era para parar e o de trás
continuar a leitura. Sempre na minha vez, eu só de abrir a boca ela já batia o
seu lápis na mesa, e ainda falava: “desencalha seu gaguinho...”. Lógico que
sempre quis “enforcar” aquela professora de português.
Educar além da técnica!
Winnicott nos alerta “Acho que vocês não deveriam
esperar que uma criança que não alcançou o estado de unidade possa apreciar
pedaços. Eles são aterradores para a criança e representam o caos. E o que
vocês podem fazer? Em tais casos deixem de lado a aritmética e tentem propiciar
um ambiente estável, que possibilite (ainda que tardia e tediosamente) que
algum grau de integração pessoal se instale na criança imatura.” (WINNICOTT,
1968, 2011- p. 48). Aqui Winnicott traz uma clara indicação que, ao travar na
criança o processo de aprendizado de uma disciplina específica, é melhor recuar
e dar vazão a relação de acolhida afetiva e aguardar o tempo da criança para,
assim, poder introduzir, conforme o seu limite, o conteúdo de forma lúdica,
acolhendo o jeito de ser dela. Isto requer, sim, uma habilidade de vínculo
afetivo que vai para além do saber ensinar conteúdos, outra habilidade que
requer do professor é a paciência, para respeitar o ritmo das crianças. Mas
esta posição também serve aos pais, que devem saber dos limites de seus filhos,
acolher este limite sem comparar os diferentes ritmos de aprendizado de cada
filho e, assim, estimular positivamente. Hoje, devo meu potencial de escrever à
minha mãe Aurora, que com paciência me ajudava a ler os textos da escola, mesmo
que eu levasse uma vida inteira.
Para concluir esta breve reflexão, segue uma quase
síntese de Winnicott sobre este tema “A palavra-chave no que tange ao lado
ambiental (corresponde à palavra “dependência”) é “confiabilidade” –
confiabilidade humana e não mecânica.” (WINNICOTT, 1968, 2011 – p. 49).
Educação não é conteúdo em si sistematizado. É vínculo afetivo que, de forma
lúdica, pode levar as crianças ao desejo de aprender. Escolas em que as
crianças ficam na expectativa de chegar a hora de irem estudar e que ao término
das aulas elas adoram ficar na escola, é sinal de que lá é um ambiente que
atrai a criança para ali estar. Já quando apresenta resistência em ir para a
escola e ao se falar de algum professor entra em pânico, aí tem um sintoma de
resistência ao processo educacional, que deve ser verificado.
Felizmente, para ser professor de crianças é preciso
um potencial de interação afetiva muito definido e uma habilidade para
introduzir conceitos que nunca foram vistos pela criança. Por este motivo que
escola boa não é aquela que tem mais recursos, mas sim aquela que tem
profissionais com conteúdo, conhecedores da psicologia do desenvolvimento
infantil e capazes de estabelecer vínculo afetivo com os alunos.
Aos pais, quando a criança adentra no processo de
aprendizado sistematizado, é necessário ter um ambiente familiar que
proporcione à criança o brincar livremente e também a capacidade de acompanhar
o processo educacional dos filhos na escola, sendo parceiros e amigos da “comunidade
escolar”. É indicado que nunca ataquem os professores na frente do filho e
quando precisarem ver algum procedimento na escola, que façam diretamente junto
ao corpo pedagógico.
[i]
[i]
WINNICOTT, Donald Woods. Tudo
começa em casa. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2011.