Quem são os evangélicos no Brasil?Publicado em 11/06/2025 A recente divulgação do IBGE sobre o comportamento dos brasileiros em relação à prática religiosa traz informações que nos impedem de entendermos a realidade dos fatos. Principalmente, quando colocam os evangélicos como membros de uma mesma prática religiosa, em uma junção que se dá dentro de um comparativo com os católicos, num foco de “estes em queda, aqueles em crescimento”.
Outros problemas na pesquisa e sistematização dos dados deste levantamento do IBGE dizem respeito aos praticantes de religiões de matriz africana e/ou espírita. Também não há especificações ao se coletar estas informações do povo brasileiro, sugerindo que se denominar espírita e/ou de práticas de matriz africana é algo tido como proibido em um país colonizado com a tarja cristã. Muitos dos que estão em cultos católicos ou de outras denominações cristãs frequentam terreiros e centros espíritas, mas, se interrogados, dirão apenas que são católicos ou evangélicos.
Fragmentação dos Cristãos Não-Católicos
Neste momento, quero apenas pontuar que, ao falar que se é evangélico, entende-se que não se é católico, mas cristão. Porém, o crescimento dos cristãos não-católicos é fragmentado, pois não podemos vê-los com a força que os números sugerem por não pertencerem a uma única instituição que, de fato, os represente. Hoje, no Brasil, aqueles tidos evangélicos que os dados do IBGE apontam como se estivessem crescendo, são vinculados a um perfil pentecostal que se configuram em pequenos grupos fragmentados, seguindo regras e normas específicas conforme cada líder religioso. Lembrando que católicos e evangélicos são cristãos.
Já pude entrar em cultos de igrejas cristãs não-católicas em um mesmo dia, em diferentes lugares e observei que, em cada congregação ou célula com um pregador tido como pastor ou pastora, as condutas, regras e normas eram diferentes. Há ruas e avenidas em muitas cidades no Brasil em que vamos encontrar dezenas de diferentes igrejas cristãs não-católicas. Institucionalidade versus Proliferação
Desta forma, ao dizer que os “evangélicos” crescem - um enunciado que sugere estarmos diante de uma religião centralizada que se fortalece - caímos no erro de não percebermos que esta crescente não se sustenta enquanto força e contraponto, por exemplo, ao catolicismo, que segue sendo a religião da maioria do povo brasileiro. Porém, aqui sabe-se que há uma instituição definida, com normas e critérios bem-estabelecidos e com a possibilidade de ter diferentes formas de praticar o catolicismo, conforme os carismas das diferentes correntes espirituais com um eixo condutor a partir de um papa, cardeais, arcebispos e padres. Já nos grupos tidos como evangélicos, esta referência se perde. Eis que surge a dúvida: Esta norma vem do grau de igreja quarta, ou quinta, ou sexta, ou décima do quadrado de Jesus? Outro fator que não aparece na apresentação dos números do IBGE é a perda de fieis por parte de congregações cristãs não-católicas diretamente provenientes da Reforma Protestante, como, por exemplo, a Igreja Luterana e a Igreja Presbiteriana.
O que está em alta na prática religiosa brasileira, ao que me parece, são os grupos que prometem soluções, curas e prosperidade. Diante de um povo sedento e cheio de perdas estruturais, sociais e emocionais, a promessa é o que causa, inclusive, uma evasão de fiéis em busca constante por outras denominações religiosas que prometem soluções (até materiais) no aqui e no agora. “Se não obtenho o que oferecem, mudo para outra até achar.” E nunca acha.
A Promessa Religiosa e seus Impactos Psíquicos e Sociais
Esta complexidade e falta de dados para entender a prática religiosa do povo brasileiro traz uma enorme lacuna para a estrutura psíquica dos cristãos brasileiros, pois a prática religiosa está diretamente ligada às estruturas psíquicas internas de uma pessoa. E, se nesta busca religiosa o campo da busca é diverso e indefinido, teremos uma fragmentação social da população e uma fragilidade cultural. Um país dividido pela Fé é campo aberto para a exploração dos privilegiados economicamente e de grupos políticos em busca de poder. Fatores que Freud já apontava em seus textos, como Totem e Tabu. |
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