Exagero nos laudos de TDAH e os tratamentos equivocadosPublicado em 15/08/2025 O Transtorno de Déficit de Atenção não é uma doença e, por isso, não pode ser tratado como se fosse. Coloca-se no quadro de transtorno, porém, não pode ser caracterizado como uma estrutura patológica, devendo ser visto como uma forma de ser. O índice de pessoas com TDAH atinge em torno de 4% da população. No entanto, se descrevêssemos nossos sintomas diários de perda de atenção, seríamos enquadrados no TDAH. É incrível o número de laudos que atualmente aparecem caracterizando este transtorno.
A mais recente moda proveniente de imagens e postagens, principalmente no TikTok, é a de usar chupeta para conseguir “segurar” a TDAH. Porém, o uso de medicações para melhorar a concentração é altíssimo e, inclusive, sem prescrição médica. Concurseiros e estudantes do ensino médio estão apelando para as medicações de controle e foco. O verdadeiro foco do processo terapêutico
O processo terapêutico para o tratamento de TDAH não visa eliminar o quadro em si, mas potencializar o sujeito diagnosticado com este quadro a aprender a lidar com seu comportamento, que tem como base a hiperatividade e a consequente desatenção. Isso porque os portadores de TDAH possuem geralmente muitas habilidades e potencial de ação que, por conta dessa “sobra” de energia e habilidades, acabam se “atropelando” ao fazer, concentrar-se e desenvolver essas potencialidades.
Após um diagnóstico bem estruturado que, na sua maioria, perpassa uma intervenção interdisciplinar — psicólogo, neurologista, psiquiatra — dar-se-á o processo terapêutico. Geralmente, em um primeiro momento, há a necessidade de um auxílio medicamentoso com ênfase no processo de concentração que precisa ser monitorado por um médico neurologista ou psiquiatra. Isso decorre do fato de que, geralmente, há dificuldade de adaptação a uma ou outra fórmula e/ou princípio medicamentoso, inclusive, com efeitos colaterais comportamentais, como processo obsessivo ou ansiedade generalizada. A importância da criatividade e da família no tratamento No campo clínico psicológico, o objetivo é colaborar para que o portador de TDAH evolua na sua potencialidade múltipla, procurando ver e conduzir sua energia psíquica e habilidades cognitivas para o processo de focar em atividades que possam dar sentido e que tenham começo, meio e fim.
Aqui, neste processo psicoterapêutico, cabem, sim, intervenções dirigidas dentro da psicopedagogia, a qual os psicólogos podem exercer com muita clareza. Porém, não basta o estímulo psicopedagógico, sendo necessário também haver uma escuta deste paciente para que ele possa ser entendido na sua estrutura e possa, a partir de sua autopercepção, direcionar escolhas e ações. O despertar criativo nestes quadros é um elemento essencial para a reinterpretação do TDAH a favor do seu portador. Por isso, nestes casos, o profissional psicólogo precisa ter uma potencialidade criativa e recursos disponíveis no consultório para tal empreendimento.
A contínua intervenção junto à família do portador de TDAH é fator preponderante no resultado favorável da intervenção, pois geralmente as famílias estão usando o recurso das telas para amenizar o perfil de “muita energia” do TDAH. Porém, este tipo de ação na família colabora para que o portador torne-se mais confuso e sem estimular suas múltiplas habilidades e potencial cognitivo. Com a intervenção adequada, que se dá com um diagnóstico real, uma intervenção interdisciplinar e um processo terapêutico contínuo em parceria com a família, vemos casos em que o TDAH não necessita, inclusive, de uso medicamentoso, por já conseguir utilizar o TDAH como recurso, ou melhor, utilizando o comportamento hiperativo a seu favor. O perigo dos diagnósticos apressados
O problema atual no processo de avaliação está em confundir a perda de foco, o hiperfoco ou o hipofoco, sem identificar o fator preponderante que desencadeia estes sintomas. A depressão, a ansiedade e qualquer outro transtorno emocional levam a sintomas de perda de concentração. Confundir uma ansiedade com hiperatividade é um caminho tênue, um olhar quase que de “golpe de vista” ou, como precisaríamos usar no futebol, o “VAR”: é quase uma linha de impedimento por um braço.
Cotidianamente passamos por situações adversas que podem nos colocar em uma perda de concentração. Contudo, não podemos, a partir de um sintoma isolado, caracterizar que existe um sujeito com o perfil de TDAH. Como o diagnóstico detalhado não é feito a toque de caixa ou em uma consulta apenas — e, pior ainda, em consultas relâmpago nas quais o sujeito sai “laudado” —, requerendo um processo diagnóstico que precisa ser construído, muitas vezes, a várias mãos, seguimos vendo diagnósticos relâmpago de TDAH e consequente prejuízo ao paciente, pois será vítima de intervenções medicamentosas equivocadas, receberá uma tarja para seu processo de aprendizado e, pior ainda, poderá bloquear, pela prescrição indevida, todo o potencial criativo e de desenvolvimento cognitivo.
A partir do que trouxe, a pergunta que deixo é: Quer ser mais um nessa massa? Repetir o mesmo de todos na busca por respostas e se autodenominando mais um doente emocional?
Se sim, continue escravo de respostas, medicações e laudos superficiais. Caso contrário, procure uma melhor investigação dos sintomas pelos quais esteja passando — ou que alguém de sua família esteja passando — para fazer um procedimento transparente e sem criar dependências, tanto de medicações quanto de hábitos que lhe tirem a autonomia. |
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