A adultização de crianças e seus efeitos catastróficosPublicado em 22/08/2025 A adultização de crianças atualmente figura como o tema da moda, aqui com o conceito de moda se referindo à ideia do evento picante do momento. Convivemos semanalmente com este tipo de notícias bombásticas, que se enquadram dentro de um modelo de noticiário estrategicamente planejado para manter a audiência dos telejornais e das múltiplas redes em suas diferentes plataformas de transmissão. O Felca é a bola da vez, pois apresentou questões sérias que até comprometem a segurança pessoal do mesmo ao denunciar um influenciador digital que se utiliza de imagens de crianças num esquema de expansão da exploração de imagens de crianças cooptadas pelas redes sociais em um processo entre pedófilos e familiares das vítimas. Mídia, escândalos e o debate social
Esta notícia bombástica está, pelo menos, gerando um amplo debate na Sociedade Civil, chegando ao ponto do Congresso Nacional elaborar uma regulamentação mais criteriosa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes e pelo maior controle das empresas responsáveis pelas plataformas digitais no país. No entanto, pensar a transformação da criança em adulto - o que estão denominando adultização - já é um processo que acontece na própria configuração civilizatória. Trazemos este modelo, inclusive, dos países colonizadores europeus, os quais sempre colocaram as crianças na condição de adultos-miniatura, fato que podemos constatar nas telas de grandes artistas daquela estrutura social. Raízes históricas da adultização
Desde a Revolução Industrial, que se deu entre 1760 e 1840, a nucleação familiar se traduz no eixo “Pai, Mãe e Filhos” em um modelo cultural que, fechado em si e sem suporte de apoio dentro de uma rede comunicativa, se tornou fator decisivo para a transformação de crianças em em pequenos adultos - processo também agravado pelo avanço da pobreza, que forçava a necessidade de colocá-las como força de trabalho. E, se pensarmos historicamente na relação das crianças com o brincar livremente e com a atividade de interagir ludicamente com os pais, veremos que não houve muita diferença na demanda de vínculo com estes últimos, pois segue o foco no trabalho e nas tarefas de casa como necessidades operacionais. A perda do brincar e a influência da tecnologia Uma diferença está no conceito de que, até 30 anos atrás, as crianças tinham as ruas como espaço privilegiado: Saíam, encontravam outras crianças e só retornavam para casa quase à noite. Mesmo em cidades grandes, a rua era lugar de brincar, mas, hoje, as crianças já não podem estar garantidamente livres e seguras fora de suas residências, encontrando-se, em vez disso, nas redes sociais e plataformas online.
Com o advento da TV após o período das aulas, as crianças começaram a se apegar à televisão. Em 1995, lancei meu livro O poder da TV no mundo da criança e adolescente, pela Editora Paulus, no qual apontava que as estatísticas do uso da TV pelas crianças chegavam a quase 5 horas e 30 minutos fora do horário da escola, assistindo conteúdos com caráter de adultização. Hoje, a TV está na palma da mão: é o celular, com a diferença das crianças estarem sendo exploradas por pedófilos na cooptação de imagens espalhadas pela internet. Pior: Com a inoperância dos pais e adultos responsáveis pelas crianças dentro das casas, pois, como ocorria antigamente, os adultos da atualidade, em quase sua maioria absoluta, também não brincam com as crianças e empregam os celulares como babás eletrônicas sem nenhum controle de tempo ou acesso no uso. Redes sociais, monetização e exploração infantil
Com o processo de monetização das plataformas digitais, em que pessoas podem ganhar dinheiro com vídeos que viralizam na rede a partir da cooptação de muitos seguidores, pais começaram a utilizar as crianças de casa para conseguirem uma fonte de renda na internet. As crianças começaram a adentrar canais de influenciadores digitais e desenvolver uma fantasia de que também poderiam ter suas próprias carreiras de influenciadores como um meio de vida. Ficou muito comum ouvirmos crianças dizendo que já estavam se preparando para serem apresentadores de canais no YouTube ou terem um Instagram de finalidade profissional. Já atendi crianças fixadas neste modelo de ganhar dinheiro e adolescentes que estavam abandonando os estudos para seguir o sonho de investir e prosperar em um canal próprio.
Como o número de visualizações é o objetivo primário e a banalização do Outro associada à sexualização libidinosa como forma de atração se tornaram meras ferramentas, crianças e adolescentes passaram a ser vítimas das redes de pedófilos. De forma ingênua, entram nesta armadilha, seduzidas pela ideia de sucesso — e o sucesso aqui é um espelho refletido dos adultos que vivem por conta de, um dia, terem sucesso na vida, ou com o foco em ganhar dinheiro pela força de trabalho. Mas todo adulto foge do trabalho árduo, que dificilmente o colocará na condição de bem-sucedido economicamente.
Daí, vemos uma cultura que fomenta a dependência dos pais conectados, os quais influenciadores de sucesso e, consequentemente, se alienam na forma de educar seus filhos, chegando ao ponto de incentivá-los a criarem conteúdos atrativos com fins monetários. Hoje, podemos encontrar vídeos de crianças dando aula sobre como pais podem educar seus filhos, meninas influenciando produtos de maquiagem e cosméticos, canais de podcast com crianças desenvolvendo temas de autoajuda. Pais que usam seus filhos, até bebês, para venderem produtos, ou monetizar a partir de marcas de vestuário infantil. Consequências psicológicas e o papel da família e do Estado
A adultização é a morte da criança em sua essência. É a epítome da infância roubada. Quando as crianças são impedidas de viverem a infância enquanto infância, sendo negado a elas o potencial de fantasiar, estarão sendo conduzidas à morte da sua psique. Pois as crianças vivem imersas mais no mundo da fantasia do que na realidade, e, já na vida adulta, esta realidade é o fator de maior vivência. Quando uma criança vive plenamente o seu potencial fantasioso - que se dá pela capacidade de brincar livremente - conseguirá passar para a vida adulta com uma utilidade transformadora, onde o que era fantasioso se multiplica em sonhos, desejos e projetos.
Um adulto, ao chegar na vida adulta tendo sido negada a potencialidade fantasiosa de criança, terá sua estrutura emocional predisposta a doenças como depressão, ansiedade e a morte do existir. Como a criança é imersa na fantasia, sua predisposição para ser vítima da sedução é enorme, pois não possui a estrutura de um adulto para saber discernir o que é certo ou errado e não possui autonomia de ação, o que a torna uma presa fácil para adultos predadores. A exposição das crianças às redes midiáticas na internet é um campo aberto para a morte da infância e exposição das mesmas a possíveis abusadores. A decisão de como conduzir o processo educacional das crianças deverá ser dos pais e familiares. Porém, seria um grande benefício para os familiares adultos se tivéssemos leis mais definidas sobre o uso da internet e de maior controle das empresas responsáveis pelas plataformas digitais no Brasil. Assim, o Estado presente estaria fortalecendo a educação de suas crianças dando mais respaldo e proteção às mesmas, mais suporte aos familiares. Basta notar como a lei que proíbe o uso de celulares nas escolas já ajudou (e muito) as instituições no desenvolvimento educacional.
Diante desta noção, felizes são as crianças
cujos pais monitoram
e controlam o tempo e conteúdo por elas consumidos na
internet, pois estarão sendo educadas
para uma vida adulta feliz e uma infância
divertida. |
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