Comportamento Adolescente - Entre o “Normal” e o PatológicoPublicado em 27/08/2025 A adolescência, enquanto estrutura, perpassa por diferentes épocas e culturas, nos permitindo observar que temos elementos que se mantêm estruturantes para entendermos esta etapa dentro do processo do desenvolvimento da psicologia da personalidade. E uma das escolas psicanalíticas que, a meu ver, melhor elaborou as etapas de desenvolvimento psíquico do adolescente foi a argentina a partir dos psicanalistas Arminda Aberastury e Maurício Knobel1. Etapas do desenvolvimento e os lutos da adolescência
Aberastury e Knobel destrincharam a adolescência em três etapas: pré-adolescência, adolescência propriamente dita e adolescência adulta. A primeira etapa é pautada pelas transformações fisiológicas e movida pela alteração hormonal, com traços de forte transformação sexual. A segunda etapa é pautada pelos conflitos de identidade e pela subjetividade do ser, de ser ou não ser. E a terceira etapa, por final, é pautada nas buscas futuras e na melhor definição de suas escolhas. Neste processo, entre os 11 e 22 anos, há uma transição que também passa por três tipos de luto específicos: do corpo de criança, da identidade de criança e dos pais de criança. Neste terceiro, o luto é vivenciado tanto pelos adolescentes como pelos pais. O dilema entre o “normal” e o patológico
O grande dilema para quem estuda, educa e trabalha com adolescentes é saber identificar o que é um comportamento “normal” (entre aspas, pois está associado a uma ideia de comportamento não-patológico) e o que é, de fato, um comportamento “patológico” (que sugere um transtorno emocional). Para a escola argentina, desde as décadas de 70 e 80, apresenta-se o conceito de psicopatologia normal da adolescência, no qual os jovens exibem comportamentos ambivalentes que vão desde a agitação total à paralisia de ação, ou da transgressão e violência até o excesso de moralidade e passividade. O que chega à clínica psicológica são as queixas, tanto da escola quanto dos pais, de um sujeito em profundo sofrimento emocional e/ou com alta potencialidade sociopática perversa. Porém, ao analisarmos um adolescente, precisamos estar atentos ao que constitui uma conduta psicopatológica normal e ao que corresponde a uma posição psicopática ou de perversão real. Diferenças entre adolescência normal e sociopatia
No caso de um comportamento sociopático, há, por parte do adolescente, uma estratégia de manutenção do equilíbrio, utilizando formas de iludir a depressão com posicionamentos de culpa para esconder-se de sua necessidade de criminalidade. Já no adolescente normal, haverá transitoriedade comportamental por períodos que são percebidos na sua espontaneidade. Por exemplo, um quadro depressivo que esteja de fato configurado no traço da sua forma de ser e que não vai se modificar conforme um interesse estrategicamente planejado.
Na linguagem, o adolescente normal tem a sua linguagem como base da comunicação; já no sociopata, a linguagem é abstraída, dando lugar à ação. Na adolescência normal, há uma interação com as alternâncias comportamentais, principalmente de humor. Nela, a espera acontece e a recomposição do ato permite o reencontro com a regra pré-estabelecida. Já no psicopata, não há espera. A ação é imediata pois não se suporta a transitoriedade. Na adolescência normal, há uma ação que vira reflexão, recuo e autopercepção. No sociopata, não há autopercepção de erro, há total negação de regras e/ou quase nenhuma percepção das mesmas. No adolescente, com seus comportamentos de suspeita que atingem até os mais próximos, há a evolução para a aceitação do luto — que passa por acolhida e entendimento desta transitoriedade pelos adultos que estão por perto — permite atravessar os diferentes lutos da adolescência para, enfim, chegar à vida adulta. Já na adolescência que caracteriza um perfil de sociopatia e/ou transtorno real, não há elaboração do luto, pois negam-se as transformações inerentes da adolescência e, com isso, não ocorre a entrada no mundo adulto. O papel da linguagem, do luto e da autonomia
Aqui, vale observar que, na adolescência normal, o conflito vai se desfazer pela linguagem, que faz emergir uma erupção de emoções e vai se estabelecendo conforme o ambiente acolhe, orienta e impõe regras e limites de forma afetiva. Com a construção da consciência, emerge, já no final da adolescência, um desejo muito forte por conquistas e por uma busca de autonomia futura. Já na adolescência que perpassa pela sociopatia e perversidade comportamental — que cabe na ordem do patológico — o comportamento é de adultização e autonomia simulada, porém sempre associado a alguém e/ou alguma dependência, não conseguindo, de fato, evoluir para uma autonomia real. As alterações da psicopatologia normal da adolescência têm transitoriedade e tempo de manifestação. Já na psicopatologia propriamente dita no adolescente, os processos são contínuos e a dificuldade de alcançar o jovem neste estado é quase insuperável. Riscos sociais e vulnerabilidades na atualidade
Neste sentido, entendo que a adolescência é uma etapa de muitos riscos, pois uma situação na qual o adolescente busca aventura e identificação em grupos pode levá-lo a um risco sem retorno. A preocupação dos familiares com os adolescentes é um elemento favorável para a sua educação e reforçada à medida em que o Estado também acolhe e protege este grupo. Por exemplo: quando há controle social sobre a vida noturna, o consumo de bebidas alcoólicas e a frequência a eventos noturnos como shows, boates e bailes, com critérios de interdição a menores de 16 e/ou 18 anos, isso colabora muito no processo de monitoramento educativo do adolescente pela família. E aqui vale ressaltar que o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê formas de proteção que, em muitos municípios, não são colocadas em prática.
Na atualidade, em centros urbanos e cidades próximas a capitais ou regiões metropolitanas, o crime organizado, o narcotráfico e as milícias se aproveitam da vulnerabilidade dos adolescentes e seu desejo de vivenciar aventuras para utilizá-los em ações criminosas cheias de adrenalina. E, numa viagem dessas, esses adolescentes podem não conseguir voltar, pois uma psicopatologia normal transitória pode evoluir para uma psicopatologia propriamente dita e transformar-se em sociopatia diante dos estímulos errados. 1 ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal. Porto Alegre: Artes Médicas. |
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