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Um professor a ser espelhado – Ode ao professor Marcos Correia

Publicado em 05/03/2026

Olá, Marcos! De onde estiver, olhai por nós.


Dia 03 de Fevereiro de 2026. Logo pela manhã, vejo notícias da cidade de Ourinhos (SP), anunciando a morte do Professor de Geografia Marcos Correia, o Professor Marcão.


Nossa!


Há mais de 1200 km de distância entre Vitória (ES) e Ribeirão do Sul (SP), onde Marcos vivia em seu sítio com sua esposa, Marilda, e filhos. Como ter contato? Com quem falar? Notícia verdadeira?


Falar e memorar pessoas após a morte parece uma injustiça. Por que não homenagear em vida? Mas Marcos não anunciou sua morte. Chegou de supetão, em uma parada cardíaca. A vida é o existir contínuo para a morte. Marcos estava com vitalidade, altas expectativas, amante da vida e da construção da tão sonhada justiça social. Estávamos planejando algumas viagens. Ele que chegara ao processo de aposentadoria como professor, carreira que escolheu por vocação junto da sua parceira Marilda, compartilhava projetos na pequena propriedade rural em Ribeirão do Sul-SP, tendo filhos já adultos e livres para liberarem-se e provocarem liberações e liberdades. Como homenagear Marcos em vida, sendo que havia longa vida a trilhar?


Marcos, você nos pegou de surpresa. A morte te chamou antes de seu desejo e de nossos combinados. Hoje, minha alma dói por sua perda. E a dor na alma é reservada para os amigos eternos, que amamos profundamente e que estão “guardados a sete chaves no coração”(Milton Nascimento). Agora estou chorando e sangrando, mas colocando sentido em todo este momento. Tenho certeza que a cidade de Ribeirão do Sul-SP parou, pois Marcos sempre esteve envolvido e emaranhado naquela cidade. Um cidadão do bem, mas do bem ao coletivo. Tenho certeza que muitos pararam na região de Ourinhos-SP, onde era sua base de trabalho, tanto na escola estadual de segundo grau como na Escola Técnica Estadual.


Também sei que alguns falsos cristãos de Ribeirão do Sul pararam para soltar fogos de alegria. Não porque amavam o Marcos, mas porque ele, sendo um defensor dos direitos humanos, preconizador da sociedade igualitária e desejoso de uma cidade onde os benefícios fossem estendidos a todas e todos, passou a ser visto como comunista e representante do diabo naquela faixa de planeta. Em nome de um cristo com letra minúscula - esse tal cristianismo de “conserva” - é preconizada até a morte daqueles que não querem o bem só para si. Porém, pelas muitas vezes que já estive em Ribeirão do Sul, posso afirmar que a maioria absoluta daquela cidade o amava e ainda ama indistintamente. O cara é muito gente boa e vocês, que não o conhecem, não fazem ideia. Com ele, a vida sempre era força, pulsão, desejo e utopia a ser conquistada. Marcos conjugou bem o dizer de Che Guevara “É preciso endurecer, mas sem jamais perder a ternura”.


E por que escolher Marcos, como Professor, a espelhar?


Atuo como Psicólogo Educacional há 35 anos, tendo passado cinco anos de graduação muito envolvido em escolas. Foi exatamente em Assis (SP) onde conheci Marcos Correia, pois me graduei pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-ASSIS/SP) entre 1986 e 1990. Atuava como coordenador da Comissão dos Cristão Leigos da Diocese de Assis, ligado à Igreja Católica. Tinha um programa de rádio semanal chamado “Questões sociais à luz do Evangelho” e fazíamos visitas em todas as cidades vinculadas a esta Diocese. Na época, o Bispo era Dom Antônio de Souza (já falecido), o qual tinha um apego muito forte aos cristãos mais enriquecidos da região. Porém, nos deixava livres para atuar no social - no que creio que era uma compensação por culpa de viver um episcopado oposto à Verdade do Evangelho de Cristo - e foi nesta realidade que Marcos entrou em minha vida e ganhei um amigo e irmão. Mas, e daí? Onde está o professor? Pois bem, falar de alguém sem base histórica e contexto é correr o risco de falar no vazio e ou em uma ilusão.


Marcos é espelho para a categoria professor porque escolheu ser professor como vocação - e infeliz do professor que está na educação apenas por demanda financeira, sem ter escolhido de fato estar neste lugar. Marcos é espelho porque assumiu a carreira como professor e não como “tio”, não confundindo seu papel de professor em sala de aula e/ou na comunidade escolar que vai além da sala de aula, tentando fazer a lei do mínimo esforço porque ganhava muito mal. Foi para o Sindicato lutar pelo fortalecimento da categoria e, assim, foi um grande associado e liderança pela APOESP (Sindicato dos Professores Estaduais de São Paulo). Enquanto muitos professores atacam sindicatos falando que são comunistas e, em momento de greves, vão passar o tempo em uma praia, Marcos encampava, suava, sofria e até apanhava. Mas, depois, os benefícios conquistados chegavam para todas e todos os professores.


Marcos é espelho porque seus alunos no ensino médio nunca mais esqueceram dele no resto de suas vidas, mesmo aqueles adversários a ele. Pois com sua ternura e amor, revelava aos alunos, como se fossem seus filhos, que com suavidade ou rigidez, havia uma manifestação de amor e cuidado que os projetava para o futuro pela noção de que a educação liberta.


E, só para não me alongar ainda mais, uso Marcos como referência para os professores nas minhas intervenções em Psicologia Educacional, visto que seu método de trabalho elimina os problemas de indisciplina em sala de aula. Imagine um professor de Geografia que consegue levar dezenas de turmas de Ensino Médio a atuarem em sala de aula com produção e o mínimo de disrupção. Ele me ensinou como fazer o contrato participativo com os alunos na sua disciplina.


Marcos, de onde estiver, olhai por nós. Eu preciso de seu olhar para o meu existir. Quem sabe daqui esteja saindo um livro sobre o querido Professor Marcão. Te amo e sempre te amarei. Um dia a gente se encontra por aí.


Marilda, você é uma mulher maravilhosa. Te desejo coragem para continuar a luta que você e o Marcos sempre trilharam. E como vocês formaram uma parceria linda, real, sem enlatamentos, sem rótulos. Estamos juntos, mesmo à distância, nesta etapa da ausência do nosso querido Professor Marcos Correia.


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