Adolescência e Psicanálise: O tempo de conflitarPublicado em 20/03/2026 A entrada na fase da “adolescência propriamente dita” é o momento de criar conflitos. Neste tempo, o perfil “normal” é aquele que provoca e confronta. E é aí que o bicho pega, pois os adultos, em sua grande maioria, não conseguem (ou não querem) entender os motivos pelos quais este comportamento aparece com recorrência esmagadora dentre os adolescentes. No caso daqueles que não querem entender, isso se dá principalmente porque já passaram pela adolescência e conheceram muitas das coisas que geram conflitos com os adolescentes em seus meios de convivência (familiar, educacional e social). Interpretam como uma ideia que passou, foi uma fase e já não vale a pena lembrar. No entanto, os adolescentes presentes no aqui e agora vivenciam estas mesmas fases em novos contextos, cenários, condições sociais e realidades culturais, geográficas e territoriais. E é aí que surge a pergunta: Por que então dos conflitos e da necessidade de conflitar? A construção da identidade e o rompimento com a infância Exatamente porque chegou o tempo de construir uma identidade que, até então, estava sobre o auspício dos adultos. Lembram de quando levavam os filhos ainda criança para lá ou para cá, e eles apenas iam? Agora, tchau, “vai que eu não vou...”. Como passamos doze anos de nossas vidas na infância e mais dez a doze na adolescência até chegarmos na vida adulta, este processo de transição e busca da própria identidade é mais do que necessário. Desconfio dos adolescentes que não passam por esta fase sem confrontos, pois podem estar desconectados de sua idade e contexto, ou atuam com medos por repressão familiar, religiosa, etc. Sempre digo aos pais e professores que fiquem atentos aos adolescentes silenciosos, que não dão trabalho e ficam isolados, pois daí sim pode emergir um sujeito destituído de identidade no futuro, quem sabe já revelando um processo depressivo. Este fator atualmente tem se tornado bem recorrente com a imersão dos adolescentes no universo digital e no aumento de tentativas de suicídio nesta faixa etária. A influência dos grupos e os riscos das escolhas Mas, para sustentar esta posição do “há governo, sou contra”, é preciso se aliar a grupos que se vinculam por aproximação de desejos e de identidades. Tribos urbanas, amigos de escola, de conexões online, k-pop, até a identificação religiosa, política e de marginalidade. É preciso sustentar uma posição e os grupos passam a ser uma tendência natural conforme os laços estabelecidos na adolescência poderão seguir próximos e conectados para toda a vida adulta. Na busca por identificação e proteção em um coletivo, a nova família do adolescente passa a ser o grupo que se faz seu. Lembro que, na minha adolescência, vivia em função dos grupos dos quais participava na dimensão religiosa através da Pastoral da Juventude. Minha mãe dizia que minha mochila tinha asas, pois não parava em casa. Desta forma, a configuração de rebelar-se e associar-se em grupos pode trazer consequências tanto favoráveis quanto catastróficas, pois mesmo um adolescente com boa estrutura de apoio familiar, independentemente das condições sociais - pois o apoio emocional não diz respeito apenas à condição financeira - pode entrar em uma trama na qual nunca imaginaria. Lembro-me de uma mãe que me liga desesperada relatando que o filho tinha dito que estava passando o final de semana na casa de um amigo mas, na verdade, estava envolvido com uma trama de roubo em uma casa da cidade. Na segunda-feira pela manhã, a polícia bateu à porta desta mãe para notificar que seu filho havia se envolvido com um grupo de criminosos. E isto pode acontecer em qualquer família de qualquer realidade social. Este é o maior dilema, pois com a posição de conflitar, poderá surgir surpresas. Geralmente os adolescentes nesta fase são muito assediados por adultos que, sabedores deste perfil, os atraem para se aproveitarem de seu espírito aventureiro e corajoso. Grupos políticos também acabam cooptando adolescentes. Tanto que muitos políticos de carreira são resultado desta etapa adolescente, principalmente aqueles com demandas políticas mais extremistas, assim como grupos religiosos que apelam para o emocional e exploram culpas, levando os adolescentes a serem lapidados para uma subserviência a uma prática religiosa. Nas comunidades periféricas, os traficantes usam a estratégia de cooptar adolescentes para o esquema do tráfico com a promessa financeira movida pela emoção. Por fim, muitas meninas são aliciadas para a pornografia com promessa de riqueza explorando a força estética das adolescentes. Atualmente, há um aumento do número de adolescentes que buscam grupos por identificação online, através dos jogos e de identificações por séries, fã clubes, etc. Porém esta tendência tem levado muitos adolescentes ao afastamento social com a ilusão de que estão cheios de amigos pela falta de conexão no mundo real. Como o estar junto, o fazer junto, contactar, o tato, são elementos estruturantes na vida do adolescente, a realidade virtual tem trazido transtornos emocionais diversos aos adolescentes, que acabam entrando num mundo da fantasia e potencializando delírios, com evolução para estado psicótico. Pois este corpo adolescente precisa sentir, pulsar e gastar energias. Online, estas energias ficam contidas, estourando sempre em algum sintoma patológico. O papel dos adultos na orientação dos adolescentes Para os adultos que convivem com adolescentes, o primeiro passo é entender esta fase e estar junto. Não criticar, mas potencializar estas energias. Dar abertura para o fazer e o acontecer, respeitando a privacidade, respeitando os amigos sem preconceitos e, principalmente, dando voz aos adolescentes e toda a potencialidade que trazem ao mesmo passo em que mantém os limites conforme as diretrizes que cada família estipula para si. Se houver uma conotação religiosa, que seja um vínculo de menor repressão possível, mas sim por construção de consciência. Se for no campo educacional, dar voz aos adolescentes tendo sempre a perspectiva das regras a serem seguidas, mas construídas também por consciência. Assim, conflitar, defender-se em grupos e ir se desligando da família, são fatores que, tendo entendimento e acolhimento por parte dos adultos, leva a adolescência a ter enorme chance de evoluir para uma vida adulta potente. Aqui, cabe aos pais saírem de uma posição rígida e se relacionarem com seus filhos numa perspectiva mais amiga. Os professores, de saírem da posição de baluartes do saber para estarem juntos aprendendo, parceiros. À Sociedade, ter a clareza que a força da adolescência está exatamente no seu poder de questionar, executar e seguir sem temer, onde a educação seja encontro e ação em conjunto. Uma Sociedade que não abandone ou expulse, mas que acolha, proteja e projete perspectivas. |
|||
|
| |||
|
|
Visualizações: 3