Adolescentes aliciados digitalmente para a misoginiaPublicado em 27/03/2026 O tema da adolescência retorna como destaque, principalmente com o aumento de episódios envolvendo tramas de ataques às meninas adolescentes no ambiente escolar e também nas redes sociais. O conteúdo dos ataques geralmente está associado a ameaças misóginas e/ou apelativos sexuais. Reacende no imaginário dos adolescentes meninos o machismo arcaico e obsessivo de controle e destruição da figura feminina. Origem e influência: tecnologia, política e ideologia Mas de onde vem esta produção? Não emerge do nada, mas sim das facilidades que a tecnologia de informação potencializa, permitindo que grupos sabedores da tendência dos adolescentes a atuarem por oposição e do desejo de anteciparem a vida adulta cooptem o público adolescente masculino a partir da imagem da força e do poder. Assim, o elemento opositor colocado por estes grupos se torna a ascensão das mulheres no mercado de trabalho, sua autonomia financeira, participação na política das mesmas e o aumento de ações feministas contra o feminicídio e violência à mulher. Somando este fator, está a crescente onda mundial de avanço de ideologias de extrema direita com perfil neofascista e neonazista, que de alguma forma financia plataformas digitais para influenciar adolescentes. No entanto, sabemos que esta cooptação está sendo engendrada também para as meninas adolescentes, dando ênfase na estética, sensualidade e retorno ao discurso da mulher submissa com uma forte conotação de religião tradicional que enfatiza a família sob o auspício dos homens. Nos adolescentes, as plataformas digitais conseguem apresentar um leque enorme de possibilidades para fomento de grupos pela tendência de fortalecimento em grupos de iguais, indo desde programadores de ação pública para depredar patrimônios até grupos de extrema descontextualização da realidade. E o apelativo conceito de machos destruidores de mulheres parece ser uma projeção que tem encontrado muitos adeptos. Ausência de regulação e o papel da família e do Estado Há uma ausência do Estado Brasileiro sobre o controle das plataformas digitais, por serem elas na sua quase totalidade de grupos corporativos internacionais sem vínculo direto com a legislação brasileira. O atual Governo Federal trouxe o ECA digital - que pode, sim, auxiliar as famílias no controle do acesso às plataformas - mas a regularização deste processo vai levar tempo e precisará de um posicionamento determinante do Governo para valer este mecanismo de proteção. Por sua vez, os pais estão deixando seus adolescentes cada vez mais esquecidos e aficcionados em seus redutos digitais. Hoje, os dispositivos cumprem a função de uma babá eletrônica. A ascensão das alas conservadoras do cristianismo que ressaltam a mulher como ser submissa ao marido colocam a fé e religião no cenário político - como se o “deus” deles tivesse designado um enviado para governar a nação - e reservam o espaço dos direcionamentos espirituais aos homens. Esta prática não é de agora, e sempre foi usada a tática de aliciar adolescentes para fazer construção de pensamento ideológico e incorporação de hábitos. Adolescentes meninos e meninas sempre foram presas fáceis. E, se ontem o processo se dava pela interação e vivência sem conseguir mobilizar tantos e com tantas opções de grupos por identidade, hoje, na era digital, esta mobilização desmobilizante está na palma das mãos, atingindo de forma generalizada e sem limites de perfil ou classe social. Porém, o atrativo continua sendo o que dá ibope, que chama a atenção e mobiliza a vocação humana de propagar o mal pela fofoca. Freud já nos ensinou das forças que movem nossa estrutura psíquica, que transitam entre vida e morte e suas derivações de bem e mal. Há um lobo mau e um lobo bom dentro de todo indivíduo. Se alimentarmos o lobo mau, ele se torna forte e, caso contrário, não terá força para agir. Mas o fomento do lobo bom não provoca especulação, não vira notícia. Já viu algum jornal televisivo comercial que dá ênfase apenas às notícias boas? Filme bom é filme que faz sangrar. Não quero reproduzir aqui os conceitos que a mídia tem definido para as ações machistas dos adolescentes meninos, pois ficamos dependentes dessas padronizações. Prefiro então manter este entendimento de aliciamento adolescente como uma estratégia de manutenção de poder masculino na Sociedade que vem com o viés misógino, feminicida e pornográfico. Quem são os que acionam as guerras no planeta, mulheres ou homens? Qual referencial de identidade é mais atraente? Um homem parceiro e genuinamente bom ou um detentor de força e poder? Deter o crescimento das mulheres no mundo é uma arma poderosa de manutenção do domínio masculino e atingir os adolescentes em massa nas mais diversas formas de alienação é um mecanismo estratégico. Serão os poderosos de amanhã, ensaiando as crueldades no hoje. Caminhos possíveis: responsabilidade coletiva e ação educativa Agora, o que fazer? Aos adultos que ainda apresentam capacidade de ação, é preciso se unir em grupos, reivindicar postura nas instituições educacionais e provocar leis de proteção aos adolescentes, pois sozinhos não conseguem ter segurança para dar proteção aos seus filhos. Estar presente, fazer ações com os adolescentes e debater o machismo estrutural em família. Porém, diante do poderio influenciador das redes sociais e plataformas digitais, o melhor caminho aos pais e adultos que possuem alguma responsabilidade sobre adolescentes é de controlar drasticamente o uso das telas. Utilizar estritamente dentro de processos educacionais e/ou lazer criativo. Estabelecer hora de entrar e sair das telas todos os dias, independente do dia, com número reduzido de tempo. Mas, e se os adultos responsáveis pelos adolescentes forem mais dependentes de telas do que os próprios adolescentes? Nesse caso, a solução é assistir e esperar para ver o que vai dar e refletir. Quer ver seu filho adolescente cometendo crime de violência contra mulheres? Vê-lo olhando para as mulheres como objeto de cama, mesa e banho? Não quer nada disso para seu filho, amigo, parente, aluno, adolescente menino? Então o que podemos oferecer por enquanto é a sugestão de monitorar seus adolescentes e estar lado a lado deles potencializando a convivência afetiva. A propósito, mais um detalhe: Se os adultos mantiverem viva a estrutura machista tanto entre homens e mulheres, aí é que o aliciamento dos adolescentes meninos para odiarem mulheres tomará força vertiginosa. No caso das meninas adolescentes, vale uma outra reflexão, como já destaquei acima, pois são aliciadas pelos mesmos mecanismos, porém, para que sigam alienadas, preocupadas com estética e sonhando com príncipes encantados que chegarão para protegê-las. Veja artigos meus, neste site, que falo sobre adolescência: A pré-adolescência – 12 e 13 anos Gerson Abarca Psicólogo A adolescência normal - 14 a 16 anos Gerson Abarca Psicólogo Adolescência adulta – 17 aos 22 anos Gerson Abarca Psicólogo Adolescência e Psicanálise: O tempo de conflitar Gerson Abarca Psicólogo Adolescência não é um padrão Gerson Abarca Psicólogo |
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