Casamento longo, é possível?Publicado em 02/04/2026 Estamos vivendo um cenário no qual a instituição casamento está fadada a uma vida curta. Segundo o IBGE, o tempo médio de duração dos casamentos oficializados no Brasil é de 13 anos. Um dado que surpreende muitos, pois temos a noção de que casamento é para sempre ou até que a morte os separe. Há duas décadas, esta média figurava na casa dos 20 anos. Uma queda vertiginosa em poucos anos, e, pelo visto, se tornará menor ainda nos próximos anos. A expectativa do “para sempre” versus a realidade Aqui, é levado em conta os casamentos realizados oficialmente em cartório, com ou sem celebração religiosa. Se perguntarmos aos noivos no dia do casamento, qual a perspectiva de viverem juntos, lógico que dirão que é para sempre. Tirando os casos de casamentos forjados ou forçados, as pessoas escolhem casar para a vida toda. Sendo assim, por que esta queda vertiginosa na duração dos casamentos oficializados? Traço aqui a percepção de alguns elementos básicos, decorrentes da minha experiência com atendimento de psicoterapia para casais e minha pesquisa em torno dos motivos para tal evento. Autonomia, independência e ruptura de padrões Aponto em primeiro lugar que, atualmente, com o aumento do nível educacional da população e a busca de autonomia no campo profissional também para as mulheres, as pessoas já não sustentam um casamento apenas por uma exigência institucional (tanto jurídica quanto religiosa), pois se posicionam com mais independência de decisão caso um casamento não esteja se mostrando satisfatório, independente da oposição de terceiros ou complicadores jurídicos (principalmente no campo patrimonial). Antes, seguia-se a orientação dos líderes religiosos de orar para que Deus apontasse um caminho para a não-separação, ou mantinha-se a relação matrimonial por conveniência, principalmente para evitar o desgaste da divisão de bens. A segunda questão que pontuo aqui, é que as pessoas já não suportam mais um vínculo conjugal no qual o sentimento amoroso não prevalece, e/ou demonstra desavenças resultantes de um relacionamento tóxico. Antes, havia uma tendência de suportar com o pensamento de que “o outro é assim mesmo”. Esta posição foi amplamente sustentada pelas mulheres que acabavam seguindo a normativa de suportar seus parceiros, até por uma dependência econômica. Porém, hoje, 49,1% das casas são sustentadas por mulheres no Brasil (dado do IBGE de 2022). Então, para quê estar casada com um homem que, além de ser agressor, não sustenta a própria casa? Estamos vivendo um estado mais laico, mesmo com forças conservadoras representadas por grupos neopentecostais que apregoam o casamento como o bem mais sagrado e a própria Igreja Católica insistindo na consagração “...do que Deus uniu, o Homem não separa...”, as pessoas estão seguindo suas próprias orientações. A diferença é que, no espaço religioso, defendem e vendem uma imagem do casal perfeito e da família imaculada, mas, no cotidiano e privacidade destas mesmas famílias, a realidade é outra. Por isso, a temática crítica social da “família de conserva”, onde passam um enlatado perfeito para um produto interno podre. A tal da hipocrisia. Caminhos para um casamento duradouro na contemporaneidade Diante deste cenário, como levar um casamento com possibilidade de vida longa e quebrar este atual cenário de vida curta ao casamento? Em primeiro lugar, escolher casar com quem se conhece na sua essência, ou pelo menos o estrutural da pessoa. Porém, isso requer tempo. E isso se contrapõe ao fruto da modernidade que é o conceito do “namorido”, em que as partes nem bem se conectaram e já partem para habitar um mesmo lar num encontro tocado pela efervescência do sentimento pulsional. Na segunda perspectiva, uma vez conhecendo, não querer fazer do outro o que você gostaria dentro de um ideal. Muitas vezes, um dos cônjuges acaba querendo moldar o outro conforme sua necessidade e, daí, é como se estivesse querendo uma outra pessoa que não aquela com quem escolheu casar, levando a uma eterna insatisfação. O terceiro elemento de estruturação conjugal é a ideia de que um não pode viver na dependência emocional do outro. Ressalto a questão emocional porque há casos em que um dos parceiros depende economicamente do outro, mas que não terá impacto na vida conjugal se não houver dependência emocional. A dependência emocional do outro gera uma relação de poder para aquele que está com a força emocional, tornando o casamento uma muleta. Um quarto aspecto estruturante que pontuo aqui também é a ideia da parceria na vida conjugal, com a partilha de sonhos e um caminho trilhado pelo casal. Fazer a dinâmica das conquistas juntos. Destacaria ainda um último ponto, que é a autonomia do casal enquanto entidade, mantendo a “porteira fechada” para intrometidos variados (seja família, amigos e até lideranças religiosas). Veja que há casais regidos por terceiros até em sua vida sexual. Assim, fica a ausência de um posicionamento firmado nesta parceria conjugal e uma dinâmica mediada por outros alheios ao casal. Lógico que há centenas de outros itens a discorrer aqui. Porém, entendo que estes que aqui apresento podem configurar bases estruturantes para a longevidade conjugal. O desafio do amor em uma cultura narcisista O melhor casamento é aquele no qual duas pessoas envolvidas por sentimento, conhecimento um do outro, se escolhem para juntos fazerem um caminho conjugal e, para isso, a relação de não precisar do outro, mas sim ter no outro uma parceria. No entanto, só há troca entre pessoas que têm o que trocar e comunhão entre aqueles que têm o que compartilhar. Do contrário, a perspectiva de vida longa do casamento fica numa órbita fantasiosa de uma Sociedade regida pelo consumo e pela necessidade das satisfações pessoais. E aqui surge uma questão final: Como sustentar um casamento de vida longa em uma estrutura cultural narcisista? Onde o outro precisa ser meu espelho. |
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