Mulheres e homens na luta contra o machismoPublicado em 15/04/2026 O machismo mostra a sua cara na atualidade brasileira pela faceta do feminicídio, com um aumento assustador de casos. Este fato se dá como sintoma pulsante de uma estrutura social machista na qual homens, ao se deparar com a ascensão das mulheres na Sociedade, precisam atacar para impedir que estas cresçam em direitos iguais. Masculinidades em revisão: o papel dos homens na transformação social Porém, a luta para mudar este quadro não se dá sem a participação dos homens, daqueles que se colocam com H maiúsculo. Assim, é preciso pensar as masculinidades, revendo a forma de se colocar nesta estrutura machista e, a cada homem, perceber-se nas suas muitas manifestações do machismo estrutural. Esta revisão das masculinidades tem sido proposta por grupos de homens que estão se encontrando e debatendo esta temática, mas, a meu ver, o caminho de formação de nichos de homens para pensarem essas masculinidades acaba por manter o distanciamento destes com as mulheres. Sendo esta pauta de todas e todos, vejo que o melhor caminho é unir forças às vozes das mulheres já nesta jornada. Os traços do machismo estão explícitos no avanço das tendências políticas de extrema direita, que pauta todo o poder aos homens e os serviços subalternos às mulheres. Está no estímulo às guerras, que a cada dia aumenta a fúria de homens dirigentes para o domínio, levando ao sofrimento de mulheres e crianças em todo o planeta. Está na crescente onda de religiões pautadas no domínio do masculino, deixando as migalhas para as mulheres no papel de submissas a seus maridos. Está nas plataformas digitais, cujos empresários homens usam as tecnologias de informação para semear discursos de ódio, xenofobia, machismo e racismo nas mentes das crianças e adolescentes em plataformas que representam a força do capital e do poder econômico, cuja estratégia continua sendo de todo o poder aos homens. Origens do machismo: fatores históricos, culturais e psicológicos Podemos pontuar vários motivos pelo crescimento do machismo, misoginia e feminicídio no Brasil. No entanto, aqui, irei focar em quatro elementos: O fracasso dos homens em diversos campos de desenvolvimento (cognitivo, intelectual, sexual, profissional, entre outros) que leva-os a interpretar a ascensão das mulheres como uma ameaça e, com isto, tendem a deter tal crescimento; A inveja que leva os homens a destruir nas mulheres o que elas possuem e eles não podem possuir - principalmente no potencial de gestar, gerar, cuidar - e a revolta divina masculina em não serem os baluartes da gestação; A colonização europeia que trouxe um traço de família nuclear baseado no poder do homem e a estrutura machista secular que dificulta a percepção histórica e a reconfiguração da mesma; A religião colonialista que dá respaldo à posição de um Deus masculino com a força ao pai e, mais especificamente no Brasil, o apagamento da ancestralidade indígena e afrodescendente cuja força estava na coletividade, no estar juntos, parceiros. Psicanálise e novas leituras das relações de gênero Dentro da Psicanálise, teoria e técnica que utilizo no meu dia a dia como Psicólogo, a construção da estrutura psíquica passa pelo viés da colonização, principalmente quando adentra nos laços de vínculo afetivo, em que a estrutura se molda com referência na pessoa do pai. Além disso, em muitos grupos psicanalíticos, há a ideia de que a mulher atua pela falta, restando a ela as manifestações histéricas. Porém, estas posições estão avançando para uma leitura que não perpassa as perspectivas do masculino e do feminino em si. Por este motivo, criei a “Psicanálise Contextualizada”, que você pode conhecer mais no perfil de instagram @psicanalisecontextualizada, onde estamos trilhando caminhos para um reelaborar a Psicanálise a partir da realidade brasileira e, quem sabe, propor novas formas de pensar vínculos afetivos na construção da estrutura psíquica. Desta forma, é preciso a integração entre mulheres e homens para que a luta pela construção de uma Sociedade anti machista aconteça. Para nós, homens, é necessário adentrarmos os muitos movimentos feministas para o fortalecimento de todas as pautas públicas que remetem à eliminação das estruturas machistas. Aqui, cabe o atual avanço da qualificação da misoginia como crime, fator que mexeu muito com os políticos de direita, com argumentos do tipo “agora qualquer discussão de idéias que um homem tiver com uma mulher será enquadrado em misoginia?” A senadora Damares chegou a verbalizar que, desta forma, não sobrariam políticos fora desta lista de criminosos. Deixamos de entrar nesta luta quando não entramos no processo de educação dos filhos em parceria com as mulheres, quando nos omitimos diante de cenas misóginas, quando contamos piadas depreciativas sobre mulheres ao estarmos em bandos de homens, quando somos agressores e atuamos com a força física no cenário familiar, no trabalho e nas instituições. Enfim, em muitas cenas do cotidiano nas quais não nos mantemos atentos ao nosso machismo estrutural. As mulheres têm, sim, um poder enorme em suas mãos de construção educacional nas gerações que chegam, pois detém quase que a exclusividade do cuidado e educação das crianças, tanto no seio familiar quanto no âmbito da educação institucional. E este poder de fazer uma educação anti machista vai desde as distribuições equitativas dos afazeres domésticos na casa até o processo de levar as crianças e adolescentes ao debate desta pauta nas escolas. As mulheres têm maiores possibilidades de resultados ao montarem estratégias para a conquista de direitos e a derrocada da sociedade machista, pois já possuem experiência organizativa no movimento social feminista. A entrada dos homens nesta causa ainda será efêmera, pois são poucos os que estão dispostos a estabelecer esta parceria com as mulheres. Mas, aos poucos que ainda querem esta pauta, cabe estar junto delas nesta luta. Duas estratégias importantes para as mulheres estão diretamente relacionadas ao potencial de estabelecer vínculo afetivo com crianças e adolescentes, o primeiro sendo a atenção em não cair na armadilha machista de ser só delas a demanda de colocar regras, pois com o tempo ficarão com a imagem de más e os homens que não estiveram no cenário educacional sairão com a imagem de bonzinhos. A segunda consiste em levar crianças e adolescentes à prática da Solidariedade, do fazer em conjunto, e, neste processo, resgatar a ancestralidade indígena e afrodescendente pela força do “aquilombamento”, como já nos lembrava Nego Bispo. De bandos a redes: reinventando as masculinidades Como já nos ensinou Rose Maria Muraro (socióloga brasileira que pesquisou o perfil da mulher brasileira ao longo de sua vida acadêmica), mulheres fazem redes enquanto homens fazem bandos. Os bandos se agridem enquanto as redes são solidárias. Rever a nossas masculinidades passa primeiro pelo caminho de deixarmos de ser bandos para tornarmo-nos verdadeiras redes de solidariedade. |
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