Os dilemas da tarefa escolarPublicado em 23/04/2026 Quando você era criança, seus pais ficavam fazendo tarefa de escola contigo? Não, né? Nem os meus pais faziam isso. Aliás, na minha época, tínhamos poucas tarefas escolares para casa. Uma pedagoga que admiro muito - e que é referência no ensino fundamental da rede pública municipal - tem filhos estudando em escola particular e está esgotada com as tantas tarefas que precisam de fazer todos os dias, vindo então me pedir para que abordasse este tema. Para pensarmos os dilemas citados no título, primeiro é preciso entender as funções principais de uma tarefa passada para casa: Estimular o aluno a criar hábito de estudo, fazer o aluno se conectar com seu processo de aprendizado escolar fora da escola, solidificar conteúdos apresentados nas salas de aula e identificar se o aluno está entendendo o conteúdo passado em sala de aula. Porém, para que estes objetivos sejam alcançados, é necessário que se cumpra a regra de ouro das tarefas escolares, que é a correção da tarefa passada em sala de aula. Caso se acumulem atividades para casa sem um processo de avaliação e correção das tarefas em sala de aula, cria-se a percepção de que aquilo não serve para nada, aumentando o desinteresse dos alunos na realização de tais tarefas. Além disso, como saber o que os alunos não estão entendendo do conteúdo se sua percepção não é testada em sala de aula? O excesso de tarefas e a pressão das escolas O principal problema desta temática hoje gira em torno da necessidade das escolas mostrarem serviço aos pais (principalmente as particulares), tendo em vista que este “tarefismo” não é um método das escolas públicas. Mas, se os pais ficarem acreditando que seus filhos estão sendo estimulados a entenderem muitos conteúdos - englobando também a transferência daquilo que é função da escola, como se os pais fossem professores e tivessem didática sobre a execução das tarefas escolares - o acúmulo de atividades que os alunos têm que desenvolver e não conseguem (pois só vão conseguir se um adulto estiver por perto) se torna insustentável, visto que estes mesmos pais, além de não serem professores, estão (na sua maioria) trabalhando, numa dinâmica que causa um grande estresse no ambiente familiar. Sendo assim, todo o esforço dos alunos e dos pais para que a tarefa chegue pronta na escola é desperdiçado quando tal conteúdo não é trabalhado posteriormente em sala de aula, resultando num desinteresse dos alunos e numa ineficácia desse processo. Quando a ajuda dos pais vira dependência Outro aspecto muito complicado é quando os pais fazem a tarefa escolar junto do aluno, gerando uma forte dependência. Pior ainda é quando a tarefa tem “mão de gato” para que chegue impecável na escola, levando a falsear o aprendizado. A tarefa precisa ser realizada pelo aluno e, se fizer com erro, é problema dos professores corrigir a partir desta pedagogia de aprendizado. Caso o conteúdo da tarefa seja além da realidade do aluno, é preciso que os pais intervenham junto à escola. Quando surge um terceiro no processo, que é o “professor de reforço”, novamente criando forte dependência e perda de autonomia no processo educacional. Se houver necessidade de reforço, só se justifica quando o aluno apresenta defasagens por alguma disfunção cognitiva. De preferência, que este reforço seja realizado na própria escola, dentro da metodologia institucional. E tem muita gente ganhando dinheiro com estes espaços de “reforço escolar”. Tarefas sem propósito perdem sentido Se a tarefa escolar não for um projeto pedagógico realizado com criatividade para favorecer o aluno a pesquisar mais e colocar em prática aquilo aprendido em sala de aula, é melhor que não exista. Hoje, a questão se mostra mais complexa com a existência da IA, visto que alunos e pais estão delegando a resolução das tarefas a estas. Desta forma, senhores pais, não caiam na tentação de fazerem as tarefas junto de seus filhos. Se a tarefa pede para que o aluno faça algo que não tem condição, é sinal de que esta atividade está equivocada por não condizer com a idade, habilidades e estrutura cognitiva deste aluno. No lugar de fazer pelo filho, cobrem uma melhora na qualidade das tarefas por parte da escola. |
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