Psicoterapia de base para crianças e adolescentes. Funciona?Publicado em 13/05/2026 Participando de um congresso de psiquiatria voltado para crianças e adolescentes, um profissional da área verbalizou que a psicanálise tem pouco a oferecer no campo do atendimento infantil. Paradoxalmente, em seguida à fala deste médico, aconteceu uma mesa exatamente sobre como a psicanálise trabalha com crianças e adolescentes. Também observo que há uma grande resistência dos pais em entenderem a importância do processo psicoterapêutico para crianças e adolescentes - principalmente quando não se tem um sintoma que caracteriza um transtorno emocional ou quadro neurodivergente - e, quando buscam algo neste campo por reconhecer o valor, já o fazem com a indução médica pré-concebida de uma psicoterapia comportamental cognitiva. A construção teórica da psicanálise para crianças e adolescentes A Psicanálise tem sua estrutura teórica bem delimitada para o acompanhamento de crianças e adolescentes, desde sua difusão a partir de Anna Freud (filha de Freud) até tomar força com as pesquisas e sistematizações de Melanie Klein, passando pelas estruturações de Winnicott e seu foco na percepção da família e dos vínculos afetivos até chegar nos exponentes psicanalistas Mauricio Knobel e Arminda Aberastury. Minha clínica se pauta por estes nomes e, atualmente, tenho traçado uma construção teórica e técnica dentro do que estou denominando Psicanálise Contextualizada, que você pode ter acesso pelo Instagram @psicanalisecontextualizada. A psicoterapia psicanalítica para crianças e adolescentes traz a vantagem de ser um processo que leva o indivíduo a ter acesso ao seu inconsciente, e desfrutar da visita à sua estrutura psíquica histórica, se localizando nas diferentes formas e tipos de vínculos afetivos que se dão no ambiente familiar e no meio externo. É uma técnica da escuta e devolutiva daquilo que o próprio paciente não está vendo, favorecendo uma elaboração por parte do próprio paciente através do processo transferencial e da interpretação que gera um insight de entendimento - diferente das psicoterapias que apenas dão poder ao psicólogo, tornando o paciente dependente para agir por meio de uma cartilha de conduta. Desta forma, não tenho dúvidas da eficácia superior da psicoterapia de base psicanalítica em relação a outras teorias e técnicas, uma vez que as metodologias empregadas sejam devidamente reconhecidas pelo sistema Conselho Federal de Psicologia. Tratamento contínuo ou processo com começo, meio e fim? Sendo assim, questiona-se a razão pela qual muitos profissionais induzem os pacientes crianças e adolescentes para o processo cognitivo comportamental enquanto desconsideram a psicanálise com o apoio dos familiares. Após 35 anos de atuação continuada na área, chego à conclusão que, pela terapia cognitiva comportamental, os pacientes ficam vinculados a um processo de manutenção e monitoramento da estrutura patológica, fazendo com que a alta psicoterapêutica (e até medicamentosa) não seja objetivo do tratamento. Já na psicoterapia psicanalítica, o processo está vinculado a um processo com início, meio e fim, visto que o final de uma análise é programada na intervenção com crianças e adolescentes - diferente dos adultos, que podem escolher continuar em análise. Porém, tenho dialogado com poucos psiquiatras e neurologistas que reconhecem a psicoterapia psicanalítica como uma teoria e técnica científica e que são parceiros no processo de tratamento, o qual requer uma melhor relação profissional. Muitas foram as situações em que psiquiatras me solicitaram melhor avaliação de crianças e adolescentes para verificar a necessidade ou não de serem medicados. Porém, pensando dentro do espectro da clínica com crianças e adolescentes pelo viés da psicanálise, aponto aqui sua eficácia por ser focada na condução dos pacientes ao autoconhecimento, ao entendimento da própria estrutura psíquica e a conseguirem se posicionar diante dos pais, familiares e adultos sem perder a própria identidade. Falando em identidade, é bom lembrar que, aqui, temos que entender a identidade a partir da faixa etária de cada paciente, não confundindo com a identidade do adulto que tem mais chance de estar solidificada e, aliás, torna a análise do adulto mais difícil pela resistência. Por isso, na minha percepção e prática, não é prático pensar a psicoterapia sem estar atento às teorias do desenvolvimento nas suas diferentes etapas da vida. Sempre que atendemos crianças e adolescentes, a primeira pergunta que deve vir à cabeça é qual a idade do sujeito, pois há várias fases do desenvolvimento da criança, assim como do adolescente. Desta maneira, a psicoterapia para crianças e adolescentes precisa ter a adaptação da técnica conforme a idade. No caso de crianças até aos 12 anos, o objeto da escuta é o brincar, a imaginação da criança construída em sessões de interação com os brinquedos; já nos adolescentes, o falar faz muita conexão dentro de uma perspectiva de um discurso que joga com as palavras, elemento que traz tensão à relação com os pais, mas pode ser elemento de construção de si na análise. Em ambos os casos, é a mesma teoria (as tramas de trilhar o inconsciente) mas a técnica é aplicada diferentemente em função das fases identitárias. A participação da família no processo analítico Outra vantagem na psicoterapia psicanalítica para estas duas faixas etárias é a necessária relação com os familiares, principalmente os genitores e/ou aqueles que assumem o tratamento. Desde a escuta inicial, depois com reuniões periódicas com os pais. Isto porque não é possível perceber processos de evolução do paciente em duas sessões semanais de cinquenta minutos cada. Sei que muitos profissionais não mantêm este critério e acabam entrando na dinâmica de atender às necessidades percebidas das famílias. Mas a técnica não pode ser adaptada conforme conveniências clínicas ou familiares. Nesta interação intrínseca com os pais e/ou familiares, a família começa a ter novos posicionamentos na dinâmica da casa, na revisão de hábitos dissociativos, na busca por melhora de vínculos e na entrega de atenção para aquele que está mais precisando. Interessante notar que, em famílias com vários filhos, quando um deles entra em processo psicoterapêutico, o relato dos pais é de que os demais também ganham. Outro aspecto que a psicoterapia psicanalítica contribui é a construção de um futuro melhor elaborado. Sempre digo que, se tivesse tido a oportunidade de ter passado por uma psicoterapia psicanalítica quando criança, hoje seria muito melhor. Como seria bom se o SUS pudesse oferecer atendimento psicoterápico de forma ampla e para além de tratamentos, com possibilidade das famílias poderem escolher colocar os filhos em uma psicoterapia de caráter preventivo. Muitos pais sobrecarregam os filhos com escolinhas esportivas e atividades cujo resultado muitas vezes gera estresse nas crianças e adolescentes, sendo que a nomeação de um espaço de psicoterapia pode ser uma boa alternativa. Já recebi muitas famílias (geralmente de pais com melhor conhecimento da psicanálise) que procuraram psicoterapia para os filhos por precaução, mas esta não é uma realidade como nem entre famílias com estrutura financeira, pois estas acabam priorizando dar estrutura de suporte e logística, não de raciocínio e compreensão subjetiva para um ser enquanto pessoa. Entre prevenir e remediar: o desafio das famílias e do SUS A possibilidade de escolherem colocar filhos numa psicoterapia por demanda preventiva e não curativa ainda é muito distante para a esmagadora realidade das famílias brasileiras. Ainda não conseguimos vislumbrar um SUS que atenda mais para prevenir do que remediar. |
|||
|
| |||
|
|
Visualizações: 3