As artimanhas dos hábitos que geram dependência emocionalPublicado em 02/07/2026 O que é uma dependência emocional? Em linhas gerais, é quando uma pessoa necessita algo que não consegue ficar sem na sua vida e esta necessidade se manifesta na forma de um hábito. Uma necessidade que gera abstinência e sintomas comportamentais diversos quando 1se tenta sair da dependência, desde ansiedade, depressão e até agressividade. Como a dependência emocional se desenvolve? O apego a hábitos e/ou coisas que geram dependência emocional é característico da estrutura psíquica do ser humano. Um dos motivos para esta tendência humana é a configuração da nossa estrutura de pensar e construir simbolização, por meio da qual as pessoas vão se desenvolvendo em processos de laços afetivos ao longo das diversas etapas do desenvolvimento. E, para cada etapa de vivências, perdas ou aquilo que denominamos castrações na teoria psicanalítica, há uma necessidade de preenchimento do vazio gerado pela perda. Françoise Dolto, em seu clássico livro “A Imagem Inconsciente do Corpo”¹, traz com clareza as diferentes castrações que o ser humano passa ao longo de sua existência. Isso é evidenciado principalmente na primeira infância, onde os processos de perdas que remetem a uma forte necessidade da criança estar cercada de suporte afetivo desde o nascimento são mais acentuados, com estes processos sendo reeditados ao longo de toda a vida. Assim, cria-se a necessidade de ser recompensado pelas perdas sofridas, gerando um ciclo de produção de vazio que sempre estará fomentando a necessidade de ser suprido emocionalmente. Sempre estamos agindo por conta de uma sensação de vazio e, neste vazio, vamos fixando apegos a hábitos que nos dão a ilusão de que estamos sendo supridos emocionalmente. No entanto, são hábitos que remetem a uma sensação imediata de prazer. Por isso, podemos afirmar que criamos dependência emocional por algo que é bom e que cada pessoa vai criando suas necessidades e dependências. Quando julgamos que uma dependência seja algo ruim, caímos na armadilha de nos culparmos sobre a dependência criada, gerando mais compulsão ainda para o processo de repetir o hábito da dependência. Os principais hábitos que favorecem a dependência emocional Na atualidade, temos alguns hábitos que mais fixam dependência, sendo que, em cada época, observa-se tendências diferentes. Vou enumerar aqueles que julgo mais comuns e suas artimanhas e/ou elementos que favorecem para o estabelecimento de uma dependência emocional: 1) Começo com a dependência emocional do uso do celular, a terceira mão de nosso corpo hoje em dia. O principal fator que nos faz fixarmos ao uso dependente do celular é a facilidade de nos conectarmos com o mundo, que começa com a clássica defesa de que é necessário estar conectado com os parentes mais próximos ou com o trabalho. 2) As Bets de aposta, principalmente no campo esportivo, que alimentam hoje os principais times de futebol no Brasil. A fixação de dependência às Bets se dá principalmente pelo desejo que se tem em ficar rico, e, no jogo, fixa-se a sensação de que esta possibilidade está ao alcance. O mecanismo de todas as plataformas de Bets é de favorecer o jogador nos primeiros lances de jogo, remetendo a ganhos financeiros que desenvolvem o gatilho de querer ganhar cada vez mais e levam a perdas sucessivas para que a empresa sempre ganhe.
3) Canetas emagrecedoras, o recurso que faltava para emagrecer. No começo, até se tem orientação médica para poucos, mas, depois que o usuário afere um resultado favorável, começa a gerar a necessidade de uso contínuo e em doses cada vez mais elevadas. Mesmo que o corpo já chegue a um perfil magérrimo, o uso passa a ser de prevenção para não engordar. 4) Alimentos, geralmente compostos por substâncias de fixação de paladar que fazem com que o sabor do alimento dê a sensação de preenchimento do vazio interno no ciclo de estrutura psíquica, levando a uma dependência. 5) Pornografia, que tem a mágica pontuação do prazer genital e de uma resposta de prazer mais rápida, gerando a compulsão do retorno a partir do alívio e da sensação de preenchimento. Com a pornografia, também ocorre a necessidade de avançar em investidas mais profundas, pois a dinâmica da pornografia é desenvolver a busca de sensações cada vez mais bizarras de prazer sexual, levando até às plataformas adultas com vídeos de interação ao vivo, mas sem contato presencial. Uma prostituição indireta que leva o usuário a gastar altas cifras para poder liberar vídeos e mais vídeos com profissionais do sexo virtual. 6) Drogas ilícitas que, por serem proibidas no Brasil, acabam sendo um forte estímulo para se cair nelas a partir do prazer da transgressão. Podemos citar a maconha e a cocaína, que laçam as pessoas pelas sensações psicoafetivas, assim como as drogas mais alucinógenas ou psicoativas, que laçam as pessoas no prazer de uma forte emoção pontual. Há um gatilho comportamental ao uso, por fixar uma sensação emocional ao usar a droga. 7) O Álcool, que tem na estrutura física a possibilidade da pessoa criar uma dependência, tornando-se portadora de uma doença incurável (alcoolismo). Geralmente laça jovens que têm acesso livre à bebida alcoólica antes dos 21 anos, criando uma relação de fixação de necessidade de uso da bebida alcoólica de forma estrutural física. Sendo o alcoolismo uma doença muito associada a fatores genéticos, pode também laçar a dependência quando se inicia na bebida por necessidade de se abrir à comunicação, como é o caso dos que se auto intitulam tímidos e/ou introspectivos. 8) O Tabaco, que laçou no passado pela intensa publicidade e, agora, mesmo com restrições de divulgação romantizada, pela sensação de alívio da ansiedade, sendo que já na segunda tragada, vem a necessidade compulsiva de se fumar. Mas vejam, há um gatilho comportamental ao uso, e depois uma dependência que passa a ser química. Como reconhecer que existe uma dependência? Agora, como sair de uma dependência emocional? Este é o grande desafio. O primeiro passo começa pelo reconhecimento de que se é dependente, movimento que geralmente ocorre apenas quando já se está no fundo do poço ou tendo alguma alteração fisiológica ou comportamental de extrema gravidade. Muitas vezes, os familiares e amigos apontam para a pessoa buscar um tratamento para romper com a dependência, mas o dependente não aceita, apresentando sempre uma justificativa do tipo “é a ultima vez..” ou “Uso socialmente ou na forma de lazer”. Porém, quando o mesmo tenta romper com a dependência, não suporta a abstinência. Um dos argumentos que desenvolvo com pacientes que me procuram para tentar sair de uma dependência é a prática da abstinência. Caso haja efeitos de ansiedade generalizada, depressão aguda ou até mesmo traços de agressividade, fica claro que já está configurada uma dependência emocional. Há casos em que o processo de psicoterapia consegue ajudar a sair de uma dependência por si só. Há situações em que, pelo fato de que a abstinência causa muita alteração comportamental, é necessário o auxílio de medicação psiquiátrica e a psicoterapia consorciada. Mas, em todo tipo de dependência, conforme pontuei as mais comuns acima, se não houver a abstinência daquilo que gera a dependência emocional, nenhum tratamento conseguirá evoluir para o ponto almejado. Diante dos oito tipos de hábitos propensos a criar dependência emocional que apontei neste artigo, analise se você se enquadra em um deles ou está a caminho de criar dependência por algum deles. Avalie e, se estiver enquadrado em algum, procure o processo de abstinência. Se não conseguir por conta própria, procure ajuda psicológica. Comece logo este caminho de se libertar de uma dependência emocional, pois, do contrário, o tempo vai gerar uma cronificação, ou melhor dizendo, uma cristalização da dependência. Aí o resultado será catastrófico. 1 (1) Dolto, Françoise - “A Imagem Inconsciente do Corpo” - Editora Perspectiva , 2017 |
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