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O eterno retorno da estrutura psíquica

Publicado em 08/07/2026

Nossa vida é pautada pelo retorno contínuo ao passado. Vivemos na perspectiva de nossas histórias pessoais de vínculos afetivos e construções sociais pelas relações culturais, econômicas, políticas e religiosas. Somos o resultado de uma história. Infeliz aquele que não consegue acessar a própria história pessoal.


O passado como referência, não como prisão


Assim, vivemos mergulhados no passado, e, se não tomarmos cuidado, podemos ficar presos neste. Mas, como um livro de história que abrimos de vez em quando para entender um capítulo e depois retorná-lo à estante - e, em tempos digitalizados, recorremos aos arquivos de nossos computadores e/ou nuvens - nosso retorno às nossas histórias deve seguir a mesma estrutura de pesquisa, pois, se carregarmos debaixo do braço o livro da história de nossa vida, ficamos preso no passado.


Na perspectiva de estrutura psíquica, funcionamos com três elementos importantes dentro da perspectiva da psicanálise: Retorno ao passado, regressão e repetição. No retorno, é o processo continuado de nos localizarmos no hoje em função de uma história construída. Aqui estão os fatos, memórias de eventos que muitas vezes vêm à lembrança a partir de influências de relatos de pessoas que conviveram conosco ao longo de nossa história e até mesmo quando vemos registros do passado. Muitas vezes, ao relembrarmos o passado, de alguma forma o fazemos com uma boa pitada de imaginação e fantasia. No processo da psicoterapia de base psicanalítica, geralmente os analisandos comentam no início do processo que não lembram de nada da infância, mas, ao longo do processo, acabam trazendo cenas que até então pareciam desaparecidas.


A regressão: Quando as emoções nos levam de volta


Temos então o processo de regressão, que nos faz retornarmos ao passado dentro de uma perspectiva emocional, onde, ao pontuarmos momentos movidos de muita emoção, temos a tendência de regredir em pontos que nos remetem a uma semelhança emocional - Como nos casos em que estamos diante de um bebê e nos comunicamos com ele na sua linguagem, regredindo inconscientemente à nossa infância e/ou emoções que deixaram marcas no nosso existir. Podemos regredir para um processo de fixação a sentimentos de episódios traumáticos e/ou de momentos e sensações prazerosas de vínculo afetivo. No primeiro processo, por demandas traumáticas, teremos sintomas manifestos no presente que representam quadros patológicos e, nos processos de regressões que nos remetem à vínculos afetivos favoráveis, teremos a manifestação de força e estabilidade emocional. Sabendo que somos estruturados para processos regressivos que aportam traumas e demandas favoráveis, dificilmente teremos um indivíduo que se apresente apenas com processos regressivos positivos ou não-traumáticos.


No que diz respeito às repetições, podemos observar estas com mais clareza dentro do processo da psicoterapia de base psicanalítica, ou em um processo analítico livre, pois a escuta analítica está totalmente conectada com a ideia de levar o analisando a observar as suas próprias. Não necessariamente de cenas ou episódios, mas da estrutura do sentir. Mesmo que o psicólogo/analista tenha clareza do que está sendo repetido, é pelo analisando que estas percepções precisam ser elaboradas. Neste processo, pode acontecer o insight da estrutura que está sendo repetida e, assim, abre-se caminho para a pessoa analisada entender como funciona emocionalmente e elaborar seu existir no presente. O Psicanalista Juan David Nasio apresenta este processo de forma bem clara no livro “Por Que Repetimos Os Mesmos Erros” (Editora Zahar, 2014), no qual afirma que “...o inconsciente é estruturado como um automatismo de repetição.” (Nasio -2014 - pag 86).


O papel da Psicoterapia Psicanalítica


Dentro de um processo analítico, estes três elementos se manifestam de forma contínua e concomitante. O retorno à história que pode trazer elementos de dados reais e/ou construções do resgate histórico de forma fantasiosa ou imaginativa, tendo assim, aspectos conscientes e inconscientes. Já o processo regressivo, mobilizado por elementos emocionais, acontece dentro de uma perspectiva inconsciente. Por final, o processo de repetição, que não diz respeito apenas à repetição de fatos e/ou temas, mas também a uma estrutura emocional, igualmente segue por caminhos inconscientes. Como a análise é o processo que pode levar um analisando a acessar a história de seu inconsciente, todo processo será elaborado na medida que se tem acesso e conexão com os sintomas que o levaram ao processo de psicoterapia. E, com os insights, pode levar a uma capacidade de autopercepção e ciência da sua estrutura emocional. Não há mudança de pessoa, mas sim o entendimento de quem se é.


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