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A subjetividade colonialista que adoece: Por uma outra escuta Psicanalítica não-colonialista

Publicado em 23/07/2026

Tenho desenvolvido a “Psicanálise Contextualizada” dentro dos grupos de estudos e pesquisa que você pode conhecer no perfil de Instagram @psicanalisecontextualiza . Neste processo, estamos repensando o processo de escuta na clínica psicológica através da teoria e técnica psicanalítica para a realidade brasileira e latino-americana.


O sujeito nunca está sozinho


Partindo do princípio que 56% da população brasileira é composta de pessoas da diáspora africana e que nosso território é indígena com a ancestralidade dos povos originários, é preciso revermos a forma de pensarmos e escutarmos a subjetividade na nossa realidade. A partir da observação de que a teoria psicanalítica e suas diversas técnicas que, ao longo dos anos, foram estruturadas por diferentes teóricos da psicanálise - desde os pós freudianos até os pós-lacanianos - temos visto que os padrões de estrutura psicanalítica seguem os parâmetros europeus quase em sua totalidade na forma de olhar para a construção da estrutura psíquica a partir das relações de laços familiares na perspectiva do indivíduo e sua individualidade.


As marcas da história na subjetividade


A psicanálise nasce dentro de um contexto familiar fechado, em uma sociedade conservadora dos valores da família, propriedade e poder num contexto em que a Europa saqueava o Continente Africano e os filósofos e psicanalistas desta época pouco estavam conectados com as mazelas que, de fato, a escravidão causava em todo um continente. Tampouco estavam preocupados com os destroços causados pela ocupação de Portugal e Espanha na América Latina e na destruição de seus povos indígenas. Uma psicologia/psicanálise voltada para as tramas psíquicas curativas dentro de uma perspectiva individual.


Pela colonização da América latina, a religião Católica foi o sustentáculo moral para respaldar tamanha atrocidade de invasão e destruição e a estrutura de pensamento e filosofia europeia que tem seu referencial de base estruturante os filósofos gregos, negando o pensamento da ancestralidade africana e indígena, foi mantida. Assim, passados 526 anos da invasão européia em solo latino-americano, temos os ecos presentes de uma cultura indígena arrasada e do processo de escravidão mercantilista que foi utilizado pelos europeus para contingenciar mão de obra escrava gratuita por um período de quase 400 anos. Só agora, entre 2025 e 2026, a ONU reconheceu a escravidão africana como o maior crime da Humanidade.


Diante deste cenário, nos restou a moral cristã com uma variação enorme de estruturas religiosas que já não é apenas católica, mas com forte influência do cristianismo do pentecostalismo estadunidense; como também de uma filosofia que nega o pensamento filosófico da diáspora africana e da ancestralidade indígena. Desta forma, as fórmulas de intervenção na saúde mental nestes territórios estão focadas para um referencial familiar nuclear centrada no espectro da relação direta de parentescos e num olhar individualizado da subjetividade.


Nossa perspectiva de escuta, passa pelo sujeito a construção coletiva de identidade, como nos aponta David Pavón-Cuéllar em seu livro “Além da Psicologia Indígena” (Editora Perspectiva, 2022), no qual pontua o “ente sociocultural”. Ou seja, não uma pessoa “abstrata e isolada”, mas compreendida tal qual somos, como “nós”, como “todos” e “os demais”, como uma comunidade na própria individualidade (...) É um indivíduo entendido como ser individualmente comunitário...” (Cuéllar, 2022 pag 43). O ponto no qual o comunitário se torna individual. Sendo assim, o sujeito latinoamericano não pode ser escutado apenas pela sua individualidade, tampouco conseguindo existir nos parâmetros da individualidade europeia. Este padrão de pensar e ser europeu é causa primária, a meu ver, das atuais desestruturas comportamentais e sofrimentos emocionais dos povos na América Latina, incluindo no Brasil.


Além disso, temos um alto contingente de cidadãos descendentes da diáspora africana, representando 56% da população brasileira, a qual, por si só, também tem em sua ancestralidade o indivíduo no pertencimento de um espectro comunitário. O que fez Antônio Bispo preconizar a libertação do povo oprimido no Brasil pelo resgate do modelo quilombola que pode nascer das comunidades periféricas das cidades brasileiras, nas quais 70% da população é originária da diáspora africana. Aqui, onde a subjetividade pode ser resgatada pelo coletivo, do ser no coletivo, que é comum tanto na ancestralidade indígena como africana.


Grada Kilomba, Psicóloga portuguesa e estudiosa da diáspora africana, traz em seu livro “Memórias da Plantação – Episódios de Racismo Cotidiano” (Editora Cobogó - 2019) pequenos detalhes de manifestações racistas que colaboram para percebermos nosso racismo estrutural. Na sua escrita, faz emergir experiências vividas pelos membros da diáspora africana na Alemanha - notadamente um episódio no qual uma jovem negra adotada por um casal alemão que achava estranho que, ao cruzar com outras pessoas negras, estas sorriam para ela, sem que a mesma as conhecessem. A jovem não entendia o por quê estas pessoas negras sorriam para ela, mesmo tendo sido criada com a rigidez da família alemã de só cumprimentar pessoas conhecidas. O fato é que, naqueles sorrisos que se cruzavam, havia uma identificação pela ancestralidade africana, pela pertença comunitária desta ancestralidade e por todas as dores do processo de escravidão no Continente Africano, que remetia os negros alemães um senso de identificação. Neste cenário apresentado, Grada Kilomba conclui: “...De fato africanas/os do continente e da diáspora foram forçadas/os a lidar não apenas com o trauma individual, mas também com o trauma coletivo e histórico do colonialismo, revivido e reatualizado pelo racismo cotidiano...” (Kilomba, 2019 – pag 211).


Escutar além do indivíduo


Não podemos nos prestar a uma teoria e técnica psicanalítica sem a revisitarmos e percebermos o quanto ela está a serviço da manutenção do status quo ocidental e do imaginário de poder da elite latino-americana. Não é uma questão de descarte, pois de alguma forma, a psicanálise foi questionando a forma de viver na cultura europeia desde seu princípio, apenas não conseguindo olhar para além de seus referenciais culturais ocidentais colonialistas. A questão aqui é a saída deste olhar, do pensar e do escutar do indivíduo que se conecta com os seus mais próximos no núcleo familiar e partir para a percepção das estruturas psíquicas enlaçadas no coletivo, na ancestralidade dos povos que compõem o nosso continente. Reencontrar com o inconsciente na história da diáspora africana e indígena, reelaborar o pensamento filosófico não como sabedorias isoladas, mas como elementos estruturais dos povos que aqui fazem História para não incorrermos nas repetições patológicas decorrentes do processo colonizador. Uma psicanálise que faça resgatar a força do coletivo na construção de uma sociedade antirracista e cujo valor emocional estará preservada no resgate histórico.


Uma escuta que favoreça a subjetividade latino-americana conectada com a diáspora africana poderá ser a possível cura das insanidades colonialistas de nossa história.


Tenho dito aos que supervisiono nos atendimentos clínico e grupos de estudos que nossa escuta tem que ser georreferenciada e historicizada, colaborando para que os indivíduos se identifiquem pertencentes a um coletivo historicamente e no presente, por ações antirracistas e que nos liberte das opressões e nos faça pertencentes e partícipes do bem comum que foi sendo construído em nosso continente ao longo da história, mas ficou restrito a poucos.


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