Somos todos narcisosPublicado em 28/07/2026 Atualmente, tenho recebido clientes que trazem consigo diagnósticos de “Transtorno Narcisista”, geralmente realizados a partir de consultas psiquiátricas e/ou comentários de pessoas com as quais convivem. Sabemos que, para cada época, novos transtornos mentais vão surgindo e para cada tempo há uma moda diagnóstica. Sobre o tal “transtorno narcisista”, pode-se dizer que ainda não virou moda, mas já há um ensaio para. Particularmente, defendo o máximo possível a não-rotulação comportamental, pois, quando se diz que alguém tem alguma condição ou é algo, fica uma marca na estrutura do sujeito que acaba sendo limitada à manutenção, como se a pessoa não pudesse repensar sua estrutura e fazer escolhas de mudanças. Hoje, temos um culto de veneração excessiva da autoimagem, estimulado principalmente pelas redes sociais. Vemos pessoas cada vez mais fixadas em se promover para angariar seguidores e/ou para se desapegarem, como se encontrassem satisfação no isolamento, fazendo parecer que existe um aumento de pessoas com o tal “transtorno narcisista”. Porém, temos que entender a estrutura narcísica como algo positivo para a manutenção da identidade, da estrutura do ego pessoal. Freud foi o responsável por associar o mito de Narciso a um conceito que dialoga com a estrutura psíquica, resgatando a lenda do sujeito que se apaixona pela própria imagem a ponto de causar a própria destruição para evocar a noção de que somos resultado de uma construção psíquica que prescinde da necessidade de culto à própria imagem. O narcisismo além dos diagnósticos O narcisismo passa por duas etapas bem definidas a partir do pensar psicanalítico: narcisismo primário e narcisismo secundário. No narcisismo primário, temos os primeiros anos de vida da criança nos quais, de fato, tudo está voltado para ela, desde os estágios de anomia à heteronomia para se chegar, enfim, à autonomia e que compreende o período entre seis e sete anos. O narcisismo secundário, por sua vez, nos coloca na dimensão de nos conectarmos com o outro, tanto nas relações diretas quanto indiretas pelas regras, costumes e cultura nas quais se está inserido. Assim, atravessamos fases do narcisismo como parte dum processo evolutivo. Como estamos em uma cultura totalmente desenhada para o consumo dentro de uma perspectiva capitalista em que a ideia do sucesso como medida de valor pessoal é muito estimulada, temos uma forte tendência de nos aprisionarmos no narcisismo primário, dificultando enormemente nossa evolução para o secundário e a capacidade das pessoas chegarem à plena autonomia. A partir dessa dinâmica, ficamos presos em nossas necessidades pessoais e desconectados do coletivo, nos tornamos isca para a cultura de consumo por precisarmos preencher nossas lacunas existenciais com produtos e com imagens de excelência individual que nos são oferecidos diariamente. E nos enganamos em achar que a estrutura narcísica está associada apenas a pessoas que se vangloriam, pois o narcisismo também faz parte da estrutura daqueles que se fecham em si. Tanto o auto-elogio quanto a baixa autoestima podem estar associados a uma estrutura narcísica primária que não evoluiu. O apego a si mesmo. A cultura do consumo fortalece o narcisismo? Diante destas constatações, como sair então de uma estrutura narcísica destrutiva? Se a evolução está na possibilidade de fazermos conexões com outras pessoas, o caminho é buscar estar em ações coletivas, em busca do fazer junto. Como resgata a filosofia da ancestralidade africana que nos diz “Quer ir longe, vá junto. Quer ir rápido, vá sozinho.” A estrutura de auto-preservação emocional e fortalecimento da identidade pessoal está diretamente associada à capacidade de nos entrelaçarmos em redes de apoios. Assim, não se preocupe caso se perceba narcisista, pois precisa desta posição para existir. Apenas questione se seu narcisismo ainda está preso à estrutura primária de construção de sua identidade (logo, muito voltado para as sua necessidades pessoais apenas), ou se você já se conecta com o outro, com a Sociedade na qual vive e na cultura que te coloca na vivência de seu narcisismo secundário, muito favorável para sua manutenção como pessoa com identidade preservada. |
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