Dia dos pais - Viver a paternidadePublicado em 05/08/2026 Reconhecer a paternidade de forma biológica diz muito pouco para o estabelecimento de vínculo parental com os filhos. Serve apenas para reconhecimento por direitos, principalmente sobre pensão alimentícia e/ou favorecimento de patrimônio quando o pai biológico vem a falecer. Lógico que ajuda a transparecer para um cidadão a sua real origem genética, o que tem muito valor, sim, para a identidade de uma pessoa. Porém, a celebração do Dia dos Pais com emoção e memorização da história pessoal de vida no vínculo requer mais do que apenas a identificação biológica. Requer uma conexão que se estabeleceu ao longo dos anos. Mesmo para as crianças ainda bem pequenas, o significado do Dia dos Pais só será motivo de festa se este pai de fato for presença, pois a criança não consegue ter segurança de aproximação por quem antes não se aproxima dela. Sabemos que, se a presença afetiva vale ouro, a quantidade desta presença também faz diferença. Sabemos também que muitos pais trabalham longe de seus lares e/ou são profissionais que cumprem longas jornadas de trabalho, vide caminhoneiros, trabalhadores da construção civil e profissionais de transporte de cargas, assim como aqueles que viajam longe para o trabalho sazonal, como no ramo do agronegócio. Nestes casos, a equivalência de menor tempo de vínculo afetivo é acompanhada pela compreensão dos filhos, os quais entenderão que se trata de uma realidade necessária, desde que o tempo juntos marque a memória afetiva. Pai não é apenas quem ajuda: é quem participa No entanto, aquele que se diz pai apenas por ajudar a esposa na providência dos filhos não é pai, mas um ajudante. Pois pai é aquele que cumpre o papel educacional em conjunto. Assim como existe o ajudante de pedreiro que não é um pedreiro de fato, o ajudante parental não é um pai. Pois, além do que já apontamos do que pede ao pai no exercício de seu papel, a conexão é simbólica dentro da Sociedade na qual vivemos. E essa é a razão pela qual uma pessoa não consegue, por muitas vezes, se conectar emocionalmente com o pai, mesmo que esteja em fluxo de convívio cotidiano sob o mesmo teto: A relação do pai com o filho não desenvolveu a simbolização (quando o símbolo pai se encontra com o que se é esperado deste símbolo) que é a conjugação do exercício do papel de pai, levando à paternidade efetiva. Não existe cartilha para orientar a conjugação da paternidade. Existem, sim, modelos que se configuram no imaginário social e no espectro direto da própria família. Lembro quando, na adolescência, meus filhos chegavam até mim dizendo que o pai de fulano e o pai de ciclano eram diferentes por serem presenças constantes e legais e eu então tentava fazer uma autopercepção de como aquele recado me servia de aviso. Lógico que, por diversas vezes, reproduzimos o modelo dos nossos próprios pais, avôs e também de muitos outros pais existentes na nossa configuração familiar. Quando prover e proteger já não são suficientes O maior referencial paterno da nossa Sociedade ainda é baseado na visão tradicional do agente provedor e protetor e na ideia de que o cumprimento desses papéis é suficiente para caracterizar um pai. É uma visão machista e carregada duma masculinidade tóxica que vem da velha realidade dos pais ausentes e acionados circunstancialmente, como escola dos filhos, igreja, associação de moradores, etc. Enfim, os pais que levaram à criação do termo “mães viúvas de maridos vivos”. Por estes fatores do machismo estrutural em nossa Sociedade, o Dia dos Pais não gera tanta movimentação, pois há um forte distanciamento no núcleo cotidiano das famílias na perspectiva do estar junto de maneira participativa e com vínculo afetivo quando é justamente a aliança deste vínculo que faz cravar o cruzamento emocional entre filho e pai. E também não há fórmula ou modelo neste tópico, pois um pai que não é tão visivelmente carinhoso ainda pode transmitir muito afeto enquanto outro de comportamento altamente caloroso pode não estar transmitindo afeto nenhum, pois o mesmo pode ser funcional, por uma cartilha de conduta. O certo é que, no Dia dos Pais, os sentimentos são múltiplos, desde a ausência total de vínculo com o pai, até o pleno vínculo que faz despertar muita emoção. Rever a própria masculinidade para exercer a paternidade Para os pais de hoje, indico que revisitem sua masculinidade e observem se ela está numa ordem machista ou dentro de uma estrutura anti-machista, em que prevalece o estar junto com a mãe fazendo parceria educacional dos filhos, mesmo que já não viva mais com a mãe de seus filhos. Qualquer coisa, pergunte para a sua esposa, mãe ou não, como ela te avalia como pai, sem medo de ouvir a verdade caso seja revelado que pai você não está sendo conforme o que descrevi aqui neste texto. Se você que lê este artigo é, de fato, um pai que exerce sua paternidade, Feliz Dia dos Pais. Caso não se identifique com o que coloco aqui neste texto, que possa lhe desejar de fato assumir o verdadeiro papel de pai. E, se você que está lendo, for uma mulher que vive com um homem que precisa rever a postura pessoal na perspectiva da paternidade, ajude ele a se enxergar e reposicionar no seu papel. Agora, se você é filho e já é uma pessoa adulta, e pensa em fazer seu pai entender estas minhas colocações, acho melhor deixar isso de lado, pois questionar os pais depois que já se tornou adulto, torna-se um ato de recalque, revelador de uma frustração pessoal que busca um alvo para atacar. Pode caracterizar uma agressão. As novas configurações familiares e as diferentes formas de ser pai Agora, hoje já temos casais homoafetivos que adotam e/ou geram seus filhos. Nestas relações, o papel parental sai dessa bifurcação e o vínculo filial se dá na conjugação coletiva entre o casal e seus filhos. Por isso que os dias dos pais e mães começam a se tornar circunstancialmente excludentes, pois não se aplica mais a todos os casos indistintamente. Dizer que o modelo tradicional é o que dá mais certo é não ver o desastre que acontece na maioria das famílias configuradas por casais heteroafetivos. Diante desta observação, viver o Dia dos Pais também compreende o respeito às diferentes formas de se fazer pai. Lógico que, os pais que não conjugam a paternidade e que simbolicamente não considero pais, também merecem o respeito, pois muitas vezes é a única forma que aprenderam a desempenhar este papel. De qualquer
maneira, lhes desejo
um Feliz Dia dos Pais. |
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