Dependência digital e a guerra culturalPublicado em 27/08/2026 A construção da dependência digital em tempos de tecnologia da informação e ascensão das IAs (Inteligências Artificiais), marca a era da Guerra Cultural. João Cezar de Castro Rocha, em seu livro “A Era de Ricardo III – Guerra Cultural Como Método” (Editora Autêntica, 2026), elabora sobre a utilização dos algoritmos como uma forma de alienar e induzir pessoas ( e até nações inteiras) a pensar de forma unânime e dentro de um discurso do ódio, das intransigências e do espetáculo: “...A guerra cultural como método e a desfaçatez como espelho...” (Rocha, 2026). Da lei do mínimo esforço à acomodação intelectual A evolução da espécie humana (Homus Sapiens) vem com algumas características que podemos perceber ao adentrarmos na História da Humanidade. Desde a tendência destrutiva, que o processo de colonização europeia evidencia com a dizimação de povos e nações pela América Latina e Continente Africano até a busca para eliminar esforços físicos e mentais, a física diretamente pela industrialização e a intelectual pela TI. E, a partir da TI e dos algorítmos impulsionadores de ideias, a base estruturante de nossa espécie em produzir fofocas, que hoje denominamos fake news (notícias falsas), que estão inundando nossas mãos pelos aplicativos de redes sociais. A era digital nos coloca na lei do mínimo esforço que antes nos favoreceu para a diminuição do esforço físico, mas agora também no mínimo esforço mental. Pelas IAs, não precisamos mais pensar, basta perguntar que já teremos a resposta. Assim, para que pensar? Vamos nos configurando com um perfil de acomodação e baixa autonomia para a busca pelo conhecimento. Daí, nos tornamos servos dos algoritmos e, consequentemente, evoluímos para a perda do potencial cognitivo e do potencial de memória. Entra aqui o elemento estruturante para o controle de ideias, o “fazer a cabeça” da coletividade, como já nos ensinou o músico Zé Ramalho : “Eh, oh, oh, vida de gado ; Povo marcado, eh ; Povo feliz.” O Mal-Estar contemporâneo e a dominação ideológica A Guerra Cultural entra neste contexto, pois, se antes o domínio estava pela força bélica e pelo poder econômico das nações, hoje a construção de uma identidade ideológica se dá pela TI, que faz a imposição da cultura do mais forte sobre os mais fracos dentro do espectro das ideias. Em tempos de campanhas políticas planeta afora, são as retóricas ideológicas que dominam os debates em vez das propostas e da defesa democrática. Ditaduras são impetradas sem a necessidade de canhões e soldados pelas ruas, mas sim pelas fake news com viés odioso, neutralizando e/ou apagando a cultura dos mais fracos. Vejam como se dá as eleições atuais no Brasil, com debates medíocres, ataque com conotações morais, racistas e homofóbicas. Freud já analisava como a estrutura das religiões e o controle do Estado pelas forças armadas moldavam culturas quando escreveu seus textos “Mal-Estar na Cultura” (1930) e “Psicologia das Massas e Análise do Eu” (1921). Trazendo Freud para a atualidade, podemos observar que a produção do mal-estar está sob o poder e o domínio da TI. Diante disso, como então construir uma forma de viver sem se deixar levar por esta avalanche da Guerra Cultural? Uma pergunta que já não faz sentido para a grande maioria, que já está contaminada, uma vez que a TI passa a ser o colo afetivo de um ambiente de proteção tanto para bebês, crianças, adolescentes e adultos. Winnicott, em seu livro “O Brincar e a Realidade” (Editora UBU ,2019), nos aponta que “...onde há confiança e constância, existe um espaço potencial que se transforma em uma infinita área de separação, que o bebê, a criança, o adolescente ou o adulto podem preencher criativamente (...) transformando ao longo do tempo na fruição do patrimônio cultural.” (Winnicott, 2019, pág. 174). Winnicott faz esta análise atribuindo o ambiente de vínculo afetivo na constituição da estrutura psíquica na primeira infância, dentro do processo de separação da relação mãe/filho e o processo de brincar como elemento de criatividade para elaboração desta separação, que não é possível ao ser humano ser realizada plenamente, mas que evolui ao criar e vai configurar o patrimônio cultural que se dá em laços no coletivo. Mas, diante do que aqui exponho, a TI que é desprovida de laços afetivos (pois é constituída de maneira robotizada), vai gerar uma desconexão de vínculos que, ao longo do desenvolvimento, se estabelece no coletivo cultural, desencadeando a Guerra Cultural. E a destruição do outro passa pelo potencial de isolá-lo do coletivo que o sustenta, permitindo sua dominação. Assim, até para buscarmos caminhos de como nos protegermos desse processo de alienação e destruição cultural, teremos dificuldades, pois a cultura que está imposta é a anti-cultura e a destruição do sujeito como força no coletivo. O que vale é a autoimagem (face). Resistência cotidiana: A busca pelo pertencimento e autonomia Estou tentando driblar este cenário, interagindo com grupos de estudos e desconectando da internet nos momentos fora do trabalho, como almoçar e jantar sem o celular por perto. Também escrevo sem o auxílio da IA, estruturando ideias que vou desenvolvendo entre meus atendimentos clínicos, grupos de estudos e tempos de leituras de livros de diversas áreas, tanto literários como da psicanálise e outras ciências. Escolho filmes e programas que possam somar na minha construção cultural, participo de eventos culturais, visito museus e galerias de arte, pratico esporte e lazer coletivo, descubro territórios e suas populações na sua cultura de raiz, aprendo a fazer produção artesanal, artes manuais, etc. Enfim, toda uma gama de fazeres que possam me defender desta Guerra Cultural, sabendo que, de forma isolada, não vou chegar a lugar algum. Por isso, sempre procuro trazer e me aproximar de pessoas que também vivem a partir desta perspectiva. E você, como está conseguindo driblar esta emergente Guerra Cultural que surfa na evolução da TI? |
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