O poder da escrita manualPublicado em 10/09/2026 O resgate do ato de escrever com as próprias mãos está retornando ao centro de debates ao redor do mundo. Pode parecer estranho que estejamos falando deste reencontro de nossa espécie consigo mesma, mas, com a emergência digital a partir da década 1980 e o acelerado processo de desenvolvimento das tecnologias da informação (TI) - incluindo o avanço da Inteligência Artificial (IA) - vimos emergir as perdas de potencialidades cognitivas pelo aposento das mãos no ato de escrever e de fazer movimentos de pinça. Pelo ato de pinçar, desenvolvemos o telencéfalo, área cerebral que nos potencializa para uma diferença gritante que é a capacidade de pensar, raciocinar e fazer elaborações simbólicas. Assim como o ato de escrever, outras atividades manuais nos conectam com esta potencialidade. Como já se observa no ensino para crianças e adolescentes, a drástica baixa no desenvolvimento cognitivo levou muitos países desenvolvidos a retornar com atividades educacionais de escrita e estudo em livros físicos. A Suíça, que foi um dos países que implementaram sistematicamente a TI nos ensinos fundamental e médio apostando que seria um caminho melhor no processo educacional, retomou a adoção de atividades manuais no processo educacional após 10 anos desta sistematização digital. Esta percepção se deu a partir da observação de alunos que passaram sobre esta adaptação ao chegarem no ensino médio e, ao final deste período, se encontraram com muitas dificuldades para o ato de aprender, e buscar conhecimento, fator que trará sérios problemas na configuração de carreira profissional. Quiçá esta tendência do retorno às habilidades manuais e principalmente da escrita, chegue com força na educação brasileira. Além de afetar crianças e jovens, a TI está trazendo problemas também aos idosos, cujo índice de perda de memória tem sido vertiginoso. Para quê pensar ou fazer se temos quem faça ou pense por nós na IA. Os robôs chegaram, e nós estamos virando quadrúpedes lambendo telas. O ato de escrever já tem sido indicado para tratamento de quadros com depressão, pois faz o resgate de si. Quem escreve, escreve de si e por si, mesmo que tendo o outro como tema. No livro “Memórias da Plantação” (Editora Cobogó, 2019), Grada Kilomba diz “Eu sou quem descreve a minha própria história, e não quem é descrito. Escrever, portanto, emerge como um ato político.” (Kilomba, Pg. 28 – 2019) Sendo assim, não vou me alongar aqui na elaboração de ideias sobre o ato de escrever, mas apresento uma poesia que escrevi ao elaborar este tema de conteúdo para o site. Segue abaixo: A escrita que resgata Cada um tem a sua escrita E cada escrita é de cada um Com seus traços redondos Ou traços esquisitos A sua escrita, ninguém faz outra igual não. Se escrevo, reconecto ao meu existir Sinto sim que existo No ato de escrever Pinço e logo penso Pois se penso é porque pinço. Desconectar dos digitais Este avanço tecnológico que nos desfaz Do que somos desde os nossos ancestrais Pela força das habilidades manuais. Esta tal tecnologia da informação Que nos tira da ação Nos aprisiona sem emoção. Ao resgatar a escrita Num papel à deriva Sinto a força do pensar Posso sim racionalizar. Esta escrita que me salva Me protege das insanidades Me conecta a humanidade Faz sentido em meu viver.
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