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Adoção em tempos de autoimagem

Publicado em 24/09/2026

Nomeio aqui “autoimagem” o excesso de preocupação consigo mesmo que paira na nossa atual realidade. Com a emergência das redes sociais, surge a possibilidade de se ver não apenas pelo espelho, pois a própria imagem pode ser acionada na palma da mão, facilitando, inclusive, para acertar os cabelos, verificar sujeira nos dentes, retocar a maquiagem, etc. Nos tornamos fotógrafos de tudo de maneiras que às vezes nem percebemos e, falando particularmente, sou fã de fazer uma imagem de onde estou e do que estou vivenciando.


No entanto, este culto narcísico, tanto de autopromoção quanto de autodestruição, nos faz construir uma forte tendência de ficarmos absorvidos com nossas próprias necessidades. A partir desta noção, trago esta reflexão para o campo da adoção de crianças: Adotar com que objetivo? Correr riscos?


Vemos as instituições de acolhida de crianças órfãs ou desintegradas das famílias a reboque do crescimento de abrigos de passagem para crianças que, muitas vezes, a justiça precisa retirar do ambiente familiar porque há riscos de vida a estas, principalmente com o avanço do uso de drogas pelos pais, principalmente das mães. Sabemos que demandas sociais não justificam perda de pátrio poder pelos pais ou familiares, mas, se associado ao risco de vida eminente, geralmente a Justiça determina a separação do ambiente de risco.


Há mais casais ou pessoas querendo adotar do que crianças na espera para serem adotadas. Dados apontam que mais de 42 mil pessoas desejam adotar para uma fila de espera de quase 5 mil menores a serem adotados. Porém, o grande dilema é que mais daqueles 86% que desejam adotar, querem crianças menores de 6 anos, sendo que mais de 90% das crianças na fila para serem adotadas estão acima desta faixa etária. Somado ao fator do racismo estrutural (que prefiro chamar de racismo escancarado), 92% dos que desejam adotar preferem crianças brancas, até convivendo com a possibilidade de escolherem crianças pardas por serem as opções mais disponíveis. Para piorar, ainda há a predileção por prospectos sem complicações graves de saúde.


Diante deste cenário e da necessidade dos que desejam adotar em saciar necessidades pessoais (sejam elas massagem do ego e/ou preenchimento de vazios existenciais), a adoção passa a ser um dilema. Isso se deve ao fato de que, quando ela acontece sem transparência de busca, a adoção se torna um desastre para a criança adotada pois, além de perder o vínculos com sua origem (incluindo o ventre que a gerou) e ser vista socialmente como um problema, tal criança se encontrará com um ambiente de “autoimagem” na qual terá que suprir as necessidades do adotante. A adoção requer um olhar pleno para a criança que chega de modo a ser suprida emocionalmente nas suas perdas estruturantes.


Sendo assim, surge a pergunta: Quais seriam os princípios básicos para uma adoção bem-sucedida?


Falar em criar filhos dentro de uma lógica que possa ser qualificada como bem-sucedida já é, no mínimo, um desejo de autoimagem, pois nada é garantido neste processo. É uma visão utilitarista, como se estivéssemos diante de um investimento que visa um retorno específico. Idealmente, bem-sucedida seria uma dinâmica parental que acarreta no mínimo de intercorrências emocionais para aqueles que são adotados, pois imagine uma criança que, já tendo perdido seu primeiro vínculo com sua mãe biológica, ainda tem que se encontrar com uma pessoa que a adota e não a acolhe afetiva e efetivamente. Porém, vou me arriscar citar aqui alguns critérios:


  1. Escolher por desejo e vocação de ser pai e/ou mãe e/ou pais;
  2. Não escolher a adoção para preencher necessidades internas ou problemas emocionais que julga possível o filho adotivo suprir, como a frustração de não ter gerado biologicamente ou tábua de salvação para uma crise conjugal;
  3. Adotar por status sociais e/ou por misericórdia. Aqui tem o agravante de transformar o filho adotivo numa peça de marketing e/ou vê-lo sempre com olhar de dó, piedade ou coitadinho;
  4. Não escolher por identificação, como fazem os grupos de adoção de cachorros abandonados nos quais a pessoa que quer adotar um cachorro, olha aqueles que estão à disposição, sente uma identificação e aí leva para casa. Adoção de crianças não é igual a adoção de cachorros. Parece exagero de minha parte alertar aqui sobre esta demanda, mas ao adentrarmos as instituições de acolhida de crianças abandonadas, os profissionais sempre se deparam com esta demanda (semelhança) dos que querem adotar cachorros. Aliás, em tempos de crescimento dos grupos de acolhida de cachorros abandonados e promoção de adoção dos mesmos, provavelmente diminuirá ainda mais o desejo de se adotar uma criança.


Enfim, este tema é um desafio a cada dia maior, pois o abandono em uma Sociedade com tamanho disparate social entre enriquecidos e empobrecidos somado ao advento do culto a si mesmo leva a adoção a entrar também num radar de esquecimento, de processos bizarros e com evolução de complicadores ao longo da educação de um filho adotado. Por outro lado, tenho clareza que as adoções desenvolvidas por pessoas maduras que identificam o desejo de adotar por escolha livre é um caminho formidável, tanto socialmente quanto no estabelecimento de vínculo.


Nas comunidades periféricas, a adoção não é um problema, pois há um coletivo de suporte familiar entre as famílias em que a criança é parte de um coletivo, salvo algumas exceções. A adoção passa a ser problema na classe média com melhor estrutura financeira, visto que muitas vezes está mergulhada num processo mercantilista de educação, salvo também algumas exceções.


Quando uma pessoa me pergunta se adotar não é um risco, já estou identificando nesta pergunta um perfil equivocado para ser a pessoa que adota.


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