Psicoterapia para crianças – O domínio da teoria e da técnicaPublicado em 28/09/2026 Hoje, o atendimento de crianças dentro da Psicologia Clínica se mostra um grande desafio, mesmo com o aumento na demanda a partir do crescimento vertiginoso de laudos no Espectro Autista e outros transtornos comportamentais como, por exemplo, TDAH. Com os diagnósticos já traçados, o profissional de Psicologia se vê quase intimado a seguir uma conduta terapêutica que vem induzida por muitos neurologistas e psiquiatras, salvo poucas exceções. Quando recebemos uma prescrição do profissional médico que cita, por exemplo, a TCC (Terapia Cognitiva Comportamental), e ainda orienta a família que é a única forma de se desenvolver terapeuticamente a criança com algum transtorno, quadro de síndrome ou espectro autista. Aí fica a pergunta: E a psicoterapia de base psicanalítica, não responde às necessidades das crianças com estes diagnósticos? No dia 19 de setembro de 2026, fui assistir à conferência de uma das pesquisadoras mais importantes no campo do atendimento a crianças do espectro autista e, para mim, maior referência da Psicologia Educacional no Brasil, Prof Dra Maria Cristina Kupfer ( Departamento de Psicologia da USP-SP), numa palestra esta proferida dentro de um seminário da Escola Lacaniana de Vitória (ES). Por incrível que pareça, uma pequena plateia para um grande nome. Pensando melhor no motivo para o esvaziamento desta palestra, concluí que era quase que um boicote dos grupos e instituições que trabalham com crianças autistas no estado do Espírito Santo, os quais, quase em sua totalidade, se utilizam das teorias comportamentais. Conversamente, a maioria dos que estavam lá lidam com a Psicanálise. Entre a TCC e a Psicanálise: diferentes perspectivas sobre a criança Até aqui, parece que ainda não cheguei no âmago da questão, sobre a teoria e técnica no processo de psicoterapia com crianças. Neste dilema de qual método buscar, posso dizer que, se bem aplicado dentro de uma boa interação teórica e técnica, as diferentes abordagens de psicoterapia com crianças podem, sim, colaborar. Sempre indico às famílias procurarem por um profissional de psicologia devidamente registrado no Conselho Regional de Psicologia e que tenha experiência no atendimento com crianças. Porém, pensando na teoria especificamente, observo que, pela TCC, a criança será tratada para se adaptar à Sociedade. Já na Psicanálise, a Sociedade é que precisa aprender a lidar com a criança. Aparentemente, pode parecer estranho o campo da Psicanálise quando contrastado com o da TCC, visto que esta se mostra mais atraente. Muitos vão dizer “...Nossa, lógico que as crianças precisam se adaptar à Sociedade...”, ou “...por isso que a Psicanálise não resolve...”. Mas vamos lá: Quando digo que a Psicanálise leva a Sociedade a entender a criança, é um elemento primordial para entendermos como a criança se estrutura desde o nascimento e suas diferentes etapas até chegar ao final definitivo da infância, aos 12 anos. É justamente para, a partir dela e da lembrança de que não há um padrão definitivo e único do ser criança, que a Sociedade possa educar, cuidar e conduzir para caminhos saudáveis de interação com a criança. Diferentemente, as teorias e técnicas comportamentais conduzem a criança a se moldar para se enquadrar nas normativas da Sociedade. Subjetividade, inconsciente e técnica na clínica infantil No campo teórico comportamental, a técnica de intervenção terapêutica neutraliza o sujeito na sua subjetividade e individualidade. O inconsciente não fala. Já na teoria e técnica psicanalítica, haverá um adentrar no mundo da criança em que a leitura do inconsciente falará para a criança que escuta a si mesma e para o analista. Na comportamental, a técnica é doutrinária, baseada em estímulo e resposta, com o processo movido por repetições e mais repetições. Já a técnica psicanalítica se dá pelo processo da transferência analítica da criança com o analista dentro da escuta do inconsciente. E aqui adentro no específico da teoria e técnica da Psicanálise com crianças, mesmo sabendo que não conseguirei avançar em detalhes. Porém, deixarei apenas a perspectiva de que, pela Psicanálise, cabem todas as crianças nas suas mais diferentes síndromes, espectros e ou transtornos. O adulto fala e, pela sua fala, vai entendendo e elaborando sua estrutura inconsciente por processos de transferência com o analista, o qual atua como se fosse um “paredão de tênis” em que a bola bate e volta para si mesmo. A palavra que ressoa no ouvido do analista retorna na forma de apontamentos e interpretações (estas que são do analisando). Já no caso da criança, o processo é o mesmo, pois o princípio teórico segue os mesmos objetivos. E, quando este inconsciente emerge e é identificado e elaborado pelo analisando, teremos a evolução para um sujeito analisado. Aqui, a teoria psicanalítica traz a grande revolução no atendimento de crianças e adultos, de vê-los na mesma perspectiva de igualdade. O que muda é a fala e a escuta. No adulto, escuta-se a fala falada, enquanto na criança, escuta-se a fala brincada. O brincar como linguagem da criança Com crianças, é pelo brincar que se escuta. Nós, psicólogos que atuamos com a teoria e técnica psicanalítica, precisamos interagir com a criança no espaço clínico para fazer emergir sua estrutura psíquica. É como se escutássemos de forma indireta, na qual a criança brinca e precisamos decodificar numa tradução de linguagem. Por isso que o espaço de psicoterapia para crianças neste enfoque teórico e técnico da Psicanálise precisa ser constituído de muitos brinquedos, materiais de papelaria, jogos e elementos que permitam interatividade. E, após 38 anos atendendo crianças desde o primeiro ano de vida, posso traçar aqui elementos poderosos que a psicoterapia potencializa nelas, como a criatividade (fator leva um bom tempo para destravar em criança já hipnotizadas por telas e com baixa capacidade de criar), a autopercepção enquanto criança (dissolvendo o adulto em miniatura na qual foi moldada pelos adultos que a rodeiam) e a saída da introspecção que permite que a criança se perceba altiva e dona de seus pensamentos, apenas para citar alguns. Outro elemento que trago aqui é a interação dos pais no processo da análise da criança, os quais passarão por um contínuo processo de escuta e orientação durante a psicoterapia da criança, colaborando para que os mesmos comecem a respeitar a criança como ela é e ajudem a estabelecer este limite para terceiros. Assim, a família inteira vai se integrando ao processo e derrubando as barreiras que o mundo adulto tenta estabelecer para cercear as crianças com o objetivo de moldá-las às suas expectativas. E a Psicanálise focada em criança se mostra revolucionária ao quebrar os paradigmas de controle social que tenta enquadrar as crianças como pequenos adultos, não as vendo como seres domesticáveis, mas como seres pensantes. Autismo, diagnóstico e os desafios da clínica psicanalítica Atendia muitas crianças autistas na clínica, mas com o enquadre do DSM V na perspectiva do Espectro Autista e a indução aos métodos comportamentais como solução, houve uma acentuada diminuição na busca por psicoterapia. Agora, estas crianças que foram sujeitas ao enquadramento comportamental e não trabalhadas na sua identidade e subjetividade, alcançaram um nível de estresse enorme e as famílias começam a retornar à Psicanálise para reorganizar o processo terapêutico e libertar as crianças de amarras comportamentais. É sempre bom lembrar que todas as crianças podem buscar a psicoterapia, mesmo que não haja laudos indicativos. Há familiares que buscam colocar seus filhos em análise como processo de fortalecimento da estrutura psíquica e prevenção. Quando o enfoque de busca de apoio psicológico fica apenas em torno de crianças tidas “problemáticas”, esquecemos da maioria que não apresenta necessariamente um transtorno a ser tratado. Para mais informações sobre o tema, você pode acessar o instagram @Psicanálisecontextualizada, no qual temos um grupo de estudos específico para a Psicanálise da Criança. |
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