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Encobrir ou responsabilizar atos transgressores: Sobre o filme “Precisamos falar”

Publicado em 09/10/2026

Ao pensarmos sobre as possíveis transgressões e/ou crimes que podem ser cometidos pelos adolescentes, emerge um filme brasileiro estarrecedor dos diretores Pedro Waddington e Rebeca Diniz intitulado “Precisamos Falar” que, refilmagem do filme holandês “O Jantar” (2013), foi lançado em 2026 e indico a todos os adultos. A temática é sobre o dilema ético entre acobertar o delito de um filho adolescente como forma de protegê-lo, ou fazê-lo enfrentar as consequências de seu ato.


A trama do filme acontece entre duas famílias de classe média com seus filhos adolescentes. Uma família cujos pais são professores que possuem uma postura racista e fascista cujo filho adolescente comete um homicídio cruel com uma senhora catadora de papel que dormia na rua da cidade durante a semana e, aos finais de semana, ficava em sua casa na comunidade periférica, cuidando de seus filhos. No outro núcleo, a família na qual a mãe aparentemente “do lar” de postura ética cidadã e o pai político supostamente de centro-esquerda que está prestes a vencer as eleições em seu estado para governador e três filhos, sendo um adolescente negro adotado desde pequeno e um casal de filhos biológico. Duas famílias parentes, com os pais sendo irmãos.


No meio deste cenário político, os filhos adolescentes assassinam a moradora de rua em um caixa eletrônico. O adolescente que comete o crime direto é filho do casal de professores com traços racistas e fascistas. Um dos adolescentes presentes é filho do casal cujo pai concorre para governador, o qual acompanha o primo e atua junto, sentindo ter sido conduzido pela onda de adrenalina. Outro adolescente presente é o filho adotivo, que não quer participar do ato e sai correndo desesperado da cena após questionar o primo que aciona a agressão (e do qual sempre foi vítima de racismo).


No decorrer da trama, quando as duas famílias já sabem do ocorrido e a opinião pública pressiona as autoridades para que os criminosos sejam descobertos e condenados, ambos os casais se encontram em um jantar de família para decidirem qual atitude tomar. De um lado, a mãe do adolescente protagonista do crime defende seu filho dizendo que caixa eletrônico de banco não é lugar de gente dormir, que seu filho precisa ser entendido e que está disposta a defendê-lo pelo amor que tem por ele. Já a mãe do adolescente que foi cúmplice do crime diz que seu filho tem que se responsabilizar sobre seu ato e que, se tiver que cumprir pena, o fará para que tudo que ensinaram a ele como valor ético seja coerente. Já o pai do protagonista critica a posição da cunhada como uma posição de “esquerda caviar” e do proselitismo dos direitos humanos enquanto o pai do cúmplice se vê na berlinda, pois correrá o risco de perder as eleições ou mesmo retirar sua candidatura se tudo for revelado. Daí, a trama apresenta ao espectador uma “sinuca de bico”.


E aqui o filme levanta seu grande enigma moral: Qual seria a sua posição como adulto responsável por um adolescente que comete um crime desta gravidade? Denunciaria seu próprio filho ou encobriria os fatos? Trago este filme para refletir exatamente o tipo de questão que cada mãe, pai, educador e/ou familiar adulto de adolescentes pode ter que enfrentar.


Como uma das características da adolescência é a transgressão, a oposição, a busca de autonomia e a vinculação a grupos que buscam aventura, pode ocorrer que se envolvam em tramas que marcarão o resto de suas vidas. E, às vezes, aquele adolescente que nunca cometeu nenhum delito e sempre foi pacífico e/ou passivo pode se ver envolvido numa ocorrência gravemente irremediável.


É possível distinguir um adolescente que se enquadra neste processo normal de comportamento com outro que já apresenta, de fato, uma tendência perversa com traços de sociopata? Sim. Na adolescência normal, o adolescente é repreendido e colocado limites após um ato transgressor e se reposiciona na regra posta, temos uma uma reação que caracteriza um comportamento esperado dentro do que denominamos “Psicopatologia Normal da Adolescência”. Já o adolescente que, mesmo acionado para ser corrigido e colocado os limites diante de um delito, não aceita, confronta e reincide no ato (podendo inclusive demonstrar satisfação), mostra outro quadro. No caso do adolescente protagonista do filme citado, este mantinha um arquivo de filmagens que fazia de agressões com pessoas empobrecidas e em condições de vulnerabilidade social, evidenciando seus traços perversos.


Hoje esta tendência está cada vez mais forte nos grupos que se entrelaçam pelas redes sociais e jogos online, nos quais há um arrebanhamento para ações transgressoras que geram emoções. Veja nas eleições de 2026, como cresceu o numero de jovens candidatos a deputados estaduais e/ou federais com um perfil agressor, homofóbico, com traços racistas e discurso de ódio. Muitos deles campeões de votos.


Não podemos ter garantias de que os filhos sairão ilesos da adolescência e seguirão as orientações dos pais. O ambiente familiar e as práticas dos pais podem, sim, criar monstros, mas adolescentes podem ser influenciados, mesmo vindo de uma família que aparentemente mais de respeitosa e de ética cidadã. Antes de acontecer uma cena deste tipo, é preciso agir por antecipação preventiva, a maior delas sendo estar presente e não deixar os filhos abandonados em seus quartos e telas, sempre atentos e mantendo uma postura de coerência entre o que orientam e o que praticam.


A diferença entre um delito de um jovem branco de classe média e o delito de um jovem negro empobrecido, é que este segundo será criminalizado com grande chance de ser morto (até pelo equipamento de segurança pública), enquanto o primeiro será justificado. A estrutura de comportamento pode perpassar pelos mesmos caminhos, mas as condições sociais e perfil racial fará uma diferença enorme para os adolescentes diante de um ato transgressor. Dito isso, melhor mesmo é assistir ao filme.


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