A religação dos saberes e a revisão do ensino médio no BrasilPublicado em 15/10/2026 Estamos diante de um dos maiores desafios para nossos adolescentes, que é a reorganização do processo educacional que atinge esta faixa etária, pois é no ensino médio que vemos as maiores transformações no campo da subjetividade e construção da identidade. Sou Especialista em Psicologia Educacional e sempre atuei em comunidades escolares tanto públicas quanto privadas desde minha graduação pela UNESP-Assis (SP), mas, atualmente, não tenho aceito assessorias em escolas (principalmente no ensino médio) por conta da estrutura rígida do currículo escolar, da falta de estrutura dos equipamentos escolares para desenvolvimento de ações práticas na relação entre teoria e prática (tão necessário aos adolescentes) e também pelo descaso dos órgãos públicos com a carreira dos professores. Com as propostas das “Escolas Militares” neste cenário de regresso a processos fascistas, começa a ser moldado um modelo ditatorial aos jovens brasileiros. E esta dificuldade é percebida tanto na rede pública quanto na rede privada, esta última com uma acentuada ênfase conteudista focada no vestibular. Vejo no Brasil uma luz pairando no horizonte através dos Institutos Federais, que conseguem converter teoria em ação ao mesmo tempo que trazem o fortalecimento do conteúdo para os jovens chegarem a cursos superiores de alta qualidade.
No livro “A Religação dos Saberes”¹, o pensador francês Edgar Morin retrata as elaborações organizadas a partir das Jornadas Temáticas do Ministério da Educação da França, que teve início em 1998 e nas quais muitos estudiosos de diferentes áreas do conhecimento foram convidados para repensar o Ensino Médio no país. Na época, um dos maiores pensadores da contemporaneidade já via este desafio que se mostra acentuado décadas depois pelo processo regressivo da ascensão do fascismo ao redor do mundo. Na própria França, já em setembro de 2026, aproximadamente 130 mil estudantes do ensino médio foram às ruas reivindicar melhorias estruturais e de investimentos no sistema educacional, também protestando contra a redução de verbas para a Educação, levando a uma pergunta: Quais mudanças genuinamente ocorreram entre 1998 e 2026? Parece que as Jornadas Temáticas ficaram só no livro, pois as propostas geradas neste comitê foram geradas dentro de um governo de esquerda que, depois, outros governos não deram continuidade e muitas das ideias jamais saíram no papel. Modelos de governos podem fazer avançar melhorias educacionais ou retroceder. E os fundamentos apresentados neste artigo se encaixam tranquilamente na atual realidade brasileira.
As estruturas de educação são alvo prioritário do regime “capitalista selvagem” em que jovens com formação educacional são perigosos por reivindicarem mudanças. Uma população com nível educacional elevado terá mais exigências sobre as estruturas de trabalho e remunerações. Não adianta pensarmos que os jovens de hoje não querem trabalhar, como muitos empresários das antigas ainda pensam, pois é preciso entender que jovens com formação passam a escolher com mais critério em que trabalhar. Desta forma, num cenário de que visa o lucro pelo lucro em detrimento da qualidade de vida de seus cidadãos, o que vale enquanto política de estado é o abandono educacional de jovens para que se tornem força braçal desqualificada. Porém, estamos em tempos de automação, a qual cria uma forte desqualificação dos jovens para um futuro que exigirá cada vez mais conhecimento tecnológico. O problema é que, no Brasil, pensar estas demandas é ser visto como sujeito de esquerda ou comunista, retórica de quem, de fato, quer manter um sistema arcaico de domínio a partir da ignorância do coletivo. Para Morin “...Convém, pois, reconhecer o que é ser humano, que pertence ao mesmo tempo à natureza e à cultura, que está submetido à morte como todo animal, mas que é o único ser vivo que crê numa vida além da morte e cuja aventura histórica conduziu-nos à era planetária. Só assim se pode obedecer a finalidade do ensino, que é ajudar o aluno a se reconhecer em sua própria humanidade, situando-a no mundo e assumindo-a (...) Aprender a viver significa preparar os espíritos para afrontar as incertezas e os problemas da existência humana. (...) O aprendizado da cidadania necessitará de um ensinamento, totalmente existente hoje, do que é uma nação. (...) Enfim, a jornada “A Religação dos Saberes” situa-se na finalidade da cabeça bem-feita”. (Morin – 2002 pgs 19 a 21) Trago estes pontos apresentados por Morin dentro de uma perspectiva de repensar, reestruturar e/ou reconstruir, que, inclusive, faz parte de nosso processo psíquico contínuo, de um eterno retornar e reelaborar. Já naquela época, num país considerado desenvolvido, as necessidades já eram gritantes. Hoje, parece que não saiu muito do lugar, mesmo tendo um governo de centro-esquerda com traços de liberalismo democrático pela governança do presidente Emmanuel Macron, numa mostra legítima de que aquilo que pensadores com viés democrático enxergam como caminho tem condução definida por políticos e corporações.
Quantas são as demandas que fogem às percepções dos pais e familiares ao olharem para as comunidades escolares em que seus filhos estudam por estarem mais preocupados com notas, conteúdos e a certeza de fomentar um futuro garantido em vez de que perceberem as armadilhas na qual seus filhos estão inseridos? Isto vale tanto para alunos de escolas públicas, os quais ainda não entenderam a força de reivindicação que possuem e caem na falácia do sucesso via redes sociais, quanto alunos das escolas particulares, cujos familiares investem recursos expressivos na expectativa de que seus filhos estão recebendo o melhor comparado ao grande público, mas estão diante de uma maioria de escolas que não entregam o que vendem. No Brasil, o resultado de notas do ENEM é superior entre alunos dos Institutos Federais em relação às escolas particulares, salvo algumas exceções.
O caminho da transformação da Educação deve passar pelas famílias, que devem reivindicar mudanças no Ensino Médio, e também pela força da adolescência no seu mais forte estágio reivindicatório, de lutar pela melhoria da qualidade do ensino médio no Brasil. Quando os estudantes saem às ruas, parece que muitas demandas de mudança começam a acontecer. E esta força está catalisada no voto, arma poderosa para se colocar representantes nas instâncias legislativas e executivas de múltiplas esferas (municipal, estadual e federal). Educação é projeto de quem pensa democraticamente e quer solidificar o sentido de nação soberana. Com certeza, As Jornadas Temáticas da França de 1998, ainda ecoam a favor de um pensar a reforma do Ensino Médio no Brasil. ¹ “A Religação dos Saberes”, Edgard Morin - Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 2002 |
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