O que me difere do ”louco”

Publicado em 18/05/2016

Dia 18 de maio é uma data importante no calendário nacional, é o “Dia nacional da luta Antimanicomial”. Os profissionais da saúde  mental debatem por todo o Brasil como anda os procedimentos nos equipamentos de saúde emocional na rede do SUS. Continuam tendo muito por que brigarem na defesa de um sistema de saúde mental que humanize as relações e leve a quebra dos preconceitos em relação aos portadores de distúrbios emocionais ou que estejam em acompanhamento na rede pública.

Poucos são os municípios que já conseguem oferecer equipes de suporte para um tratamento humanizado e com qualidade, tanto nas intervenções técnicas, medicamentosas e de assistência à família. Menos ainda são os municípios que foram além, oferecem a psicoterapia para todo cidadão que assim o desejar, independentemente de estar em sofrimento emocional ou não.

Mas hoje quero deixar uma provocação para o campo da Psiquiatria praticada nos consultórios particulares, para quem pode pagar um médico particular e também fazer um processo psicoterapêutico particular. Esta é a minha realidade profissional hoje, trabalho apenas na condição de autônomo no processo particular. E com esta minha realidade observo que o manicômio de ontem está camuflado na Psiquiatria moderna de hoje, não como um todo, pois ainda temos exceções de médicos que possuem um olhar para além da “medicalização” ( fenômeno de colocar toda força de um tratamento na medicação).

No passado, as famílias de classe média/alta diante de um filho com algum quadro comportamental “desviante” ou uso de drogas, acionavam um hospital psiquiátrico ou manicômio para deixar o filho "problemático" internado, como aconteceu com Paulo Coelho quando ainda era jovem e assim também como foi o caso do jovem que inspirou o filme “Bicho de sete cabeças”  estrelado por Santoro. Internar hoje é um ato quase que escandaloso, mas encontra seu suporte em muitos Psiquiatras que recebem estas queixas em consultório e tendem a “entupir” o jovem de medicação. Acontecem também os internamentos em casos de uso de drogas, mas em clínicas especializadas que recebem todo tipo de quadro, desde usuários de drogas à quadros comportamentais. Mas são chiques e disfarçam bem os procedimentos antigos. 

Quando recebo um paciente diagnosticado com quadro de Transtorno Bipolar, por exemplo, em apenas uma entrevista que muitas vezes não dura trinta minutos, já com mais de quatro medicações para serem usadas ao longo de um dia, levando o paciente a não ter a capacidade se quer de pensar ou visualizar uma saída para seu quadro, estou diante de um processo manicomial. Um disfarce em relação aos antigos manicômios, que de alguma forma foram denunciados até pelo Movimento Nacional da luta Antimanicomial. Mas como denunciar este tipo de atendimento em consultórios particulares, se há um acordo velado entre família e médico, e em alguns casos os próprios Psicólogos, principalmente quando estes adequam sua clínica às indicações dos médicos que assim atuam.

É importante ressaltar e com o tempo fazer vir à luz para o dia de luta antimanicomial a realidade da clínica particular que mantém o modelo antigo da Psiquiatria taxativa onde o paciente é marcado institucionalmente no seio de sua família como um “louco”, ou eternamente doente mental.

Tenho mantido parcerias com médicos Psiquiatras que possuem uma leitura mais crítica da realidade e conseguem ser agentes de transformação nas suas clínicas. Estes, dificilmente medicam um paciente na primeira entrevista, a não ser em situações em que o paciente esteja com perda da realidade. Estes médicos que não fecham diagnósticos em uma entrevista e com o Psicólogo vai traçando procedimentos até que o quadro fique bem claro para a definição diagnóstica, são poucos, mas tenho conseguido manter a clínica dos casos que necessitam da medicação com bons parceiros.

Se há tamanha dificuldade no processo da clínica particular, imagine nos atendimentos públicos. Médicos Psiquiatras que fazem de três a quatro municípios por semana, prescrevem receitas antecipadas quando viajam ou tiram férias. Centros de Atendimentos Psico-sociais  com coordenadores por indicação política sem formação na área da saúde mental, e uma série de situações deteriorantes dos equipamentos de acolhida.Temos muito que avançar. Neste campo ainda estamos engatinhando. Por isso é sempre bom lembrar: “O QUE ME DIFERE DO 'LOUCO', É QUE ELE GRITA O MEU SUFOCO”


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