Psicologia indutiva

Publicado em 08/06/2016


O crescente número de pessoas procurando por profissionais de psicologia nos faz pensar sobre o significado desta busca. Neste final de semana, uma amiga que estuda pedagogia, opinava em um círculo de conversas que a Psicologia é uma boa profissão, pois cada dia que passa as pessoas precisam mais de apoio psicológico. Nesta posição, observamos que a Psicologia de hoje ainda é muito vista pela sociedade como a Psicologia de anos atrás, quando  começou para tratar doentes emocionais. Sem dúvida que a pós-modernidade tem criado situações de vida urbana que desencadeiam doenças emocionais, desta forma, o olhar da população para a Psicologia é de uma ciência que trará cura emocional.

Outro aspecto é a necessidade das pessoas em ter respostas prontas. Cada vez mais o ser humano torna-se dependente do outro. Perde sua capacidade manufaturada e suas agilidades. Foi através do fazer pelas mãos que o ser humano evoluiu seu desenvolvimento cerebral, pois aprendia mecanismos de superar suas dificuldades elementares do cotidiano fazendo. Mas o indivíduo pós-moderno é teórico e pouco prático, e diante de simples necessidades não consegue encontrar respostas, necessitando com isto que alguém faça por ele. 

Imagine diante de um quadro de depressão que mobiliza muito sofrimento, tendo o paciente a necessidade de uma cura rápida, quase que milagrosa, o psicólogo dizer que o tratamento percorrerá um longo caminho e que necessitará de pelo menos dois anos para que se tenha alguma resposta mais favorável de recuperação?  A angústia do paciente fica ainda mais acentuada. Não é por acaso que as propostas de psicologia indutiva ganham força nas abordagens psicoterapêuticas, pois se torna uma adaptação ao contexto pós-modernos das respostas imediatas.

Com minha formação em psicologia, proveniente de um centro de estudos de excelência – UNESP – Assis/SP , associado a minha trajetória pessoal de prática religiosa que me proporcionou muitos estudos teológicos, somado à minha capacidade persuasiva, estaria milionário hoje se tivesse escolhido uma abordagem de psicologia indutiva. Misturaria religião com psicologia e “venderia” a ideia de que teria a fórmula mágica para resolução dos sofrimentos emocionais. Estaria propondo tratamentos em curto prazo, com simbologias milagrosas do tipo regressivas. Trocaria meus referenciais éticos e morais pelo sucesso econômico. Ao contrário, continuei pragmático na prática de uma psicologia que não promete nada a ninguém, apenas se compromete em aplicar teoria e técnica científica para que o próprio paciente aprenda a encontrar seu caminho. Esta minha escolha faz-me perder muitos pacientes, porém delimitou minha prática em processos sólidos, transparentes e estáveis. Com meus 25 anos de atuação ininterrupta, considero-me portador de uma experiência bem sucedida sem ter tido a necessidade de apelar para a venda de ilusões.

Mas por que há uma forte tendência de se buscar respostas prontas para transtornos emocionais? O paciente em sofrimento emocional está fixado em etapas de desenvolvimento infantil que o coloca na condição de neurótico, isto é, repete suas ações no presente sem conseguir avançar para um futuro. Sua fixação, o remete a necessidades infantis de ser gratificado, assim como uma criança é gratificada pela mãe e pai. Ao adoecer emocionalmente já na vida adulta, busca por alguém que lhe gratificará. Assim o psicólogo passa a ser objeto de transferência da neurose do paciente  quando procura suprir suas necessidades dizendo que irá curá-lo, ou que em pouco tempo terá melhora do sintoma e se coloca como  mãe e pai do paciente em um estágio regressivo. Processos deste tipo podem provocar uma súbita melhora, assim, como ele ficava gratificado quando recebia a proteção de seus pais. Mas, desta forma, será estabelecido um vínculo de dependência ao psicólogo, onde o paciente acreditará que foi suprido em sua necessidade. O problema é que neste tipo de indução, a neurose não estará sendo elaborada pelo próprio paciente. A falsa resolução do problema aconteceu de fora para dentro. Uma hora a neurose retorna ao mesmo lugar de origem.

Durante minha trajetória de formação acadêmica busquei primeiro as teorias que estivessem mais associadas com minha prática religiosa da época. Abominava Freud e qualquer filosofia que questionasse a existência de Deus. Mas com o tempo fui observando a grande tendência das teorias de suporte emocional em criarem vínculos de dependência aos pacientes, principalmente as vinculadas à religião. Davam apoio, mas não davam estrutura para levá-los a caminharem com suas próprias pernas. Desta forma acabei escolhendo abordagens que colaboram para que as pessoas vejam e reconstruam suas próprias histórias por elas mesmas. Assim, Freud passou a ter um grande sentido nesta construção de um referencial; também Nietzsche com sua filosofia do questionar tudo, desconstruindo para reconstruir, como também Foucault. Hoje, trilho uma forma pessoal de atuação que tenho dado o nome de Psicanálise Contextualizada, em que acolhemos a todos, nas suas diferentes situações de necessidades e sofrimentos, para ir construindo junto com o paciente a reconstrução da história de vida pessoal na perspectiva de que aprenda a caminhar elaborando seus problemas por ele mesmo. Eliminamos a ideia de que um problema será eliminado ou curado. Construímos a ideia de que o paciente precisa aprender a enfrentar os problemas quando surgem. 

Tenho clareza de estar no caminho certo pelos índices que estamos aferindo ao longo destes anos, onde conseguimos manter um grande contingente de pacientes em processo de psicoterapia sendo que 72% dos que dão prosseguimento ao  processo de tratamento pontuam melhora de sintomas em relação à queixa inicial, dentro de um período de dois anos contínuos de psicoterapia. 

Mais do que oferecer muletas para as pessoas caminharem, preferimos leva-las a caminharem sem auxílio delas. A psicologia indutiva, deixamos para os vendedores de ilusões e para quem gosta de ser iludido.




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