Quando um filho chega ao suicídio

Publicado em 15/06/2016


QUANDO UM FILHO CHEGA AO SUICÍDIO



A experiência dos pais que passaram pela realidade do suicídio de um filho é uma dor que para muitos se torna insuportável. É a dor na alma. 

Quando os pais perdem filhos por doença, acidente ou motivo claro, a dor é também muito forte, porém, existe uma referência do motivo da morte. No caso do suicídio, ficará sempre a incógnita do motivo desencadeante sobre o ato suicida do filho. E esta ausência de respostas traz uma gama de sentimentos, mas o principal deles é a indagação: “Onde foi que eu errei?”. Dele deriva a culpa e da culpa o chicote para assolar a própria história como pai e mãe.  

Geralmente o suicídio é um processo silencioso e dificilmente conseguimos detectar ou prever o desejo suicida de alguém. Nem mesmo a psicologia pode prever, principalmente no caso do suicídio clássico, que é aquele que ninguém esperava ou imaginava que a pessoa pudesse provocar. Temos situações de doenças emocionais ou crises momentâneas amorosas, de convivência familiar ou social, que podem despertar o desejo ao suicídio. Situações que devemos cuidar para que a pessoa não execute aquele desejo súbito. Por isso que sou muito cauteloso nos atendimentos às pessoas em crise emocional que revelam o desejo do suicídio. Crio toda uma profilatia com a família para que fiquem próximos. E geralmente nestes casos, principalmente após a crise, a pessoa vê que não era este o seu real desejo. Até hoje não tive ao longo dos 25 anos de carreira profissional um paciente que veio a se matar estando em processo de psicoterapia. Houve situações de muita tensão, mas que com um amplo processo de articulação familiar conseguimos conter. O importante é não ficar desqualificando ou desacreditando que aquela ameaça de autodestruição pela morte é apenas um show. Pois numa situação de crise, naquele minuto de desatenção, podemos ver uma ameaça virar realidade.  
Agora, superar a perda de um filho que não possuía traços suicidas ou alguma disfunção comportamental é simplesmente cruel. Num primeiro momento é como se os pais recebessem um atestado de incompetência assinado por eles mesmos pela culpa pessoal ou pela sociedade que os julgam e condenam. 

Aos que convivem com pais que passaram por uma perda deste tipo, é importante manter a presença afetiva e amorosa, mas principalmente silenciosa. O silêncio afetivo. Pois o consolo por palavras pode trazer afirmações indesejadas, como: “mas ele deve ter feito isso por estava carente...”; “Estava naquele momento sem Deus...” ; ”Vocês não perceberam o estado emocional dele?”. Se os pais possuem prática religiosa a pior opinião a se tecer por quem está perto é: “Nossa, mas os pais eram tão religiosos...”.

 O suicídio é uma grande incógnita. Por mais que busquemos entender seus motivos, haverá sempre uma dúvida de qual foi o real motivo. Principalmente por que a vítima não volta para contar o que realmente se passou com o pensamento dela no ato suicida. Recentemente um Professor da UFES comunica no seu face que iria se matar naquela noite, especificamente naquele momento. Seus alunos ficaram desesperados por que ele era um professor muito bem relacionado com todos e muito dinâmico. Os amigos fizeram uma rede de comunicação e correram para o apartamento do professor. Mas ao chegarem lá ele já estava morto. Com certeza, neste caso, muitos ainda estão se perguntando o motivo. Imaginem como ainda anda a cabeça dos pais deste professor. Aos pais que passam por esta situação, é importante manter a vida com esperança. Procurar eliminar toda forma de culpa e manter os projetos pessoais e familiares dentro de seus objetivos. Não vai adiantar parar o tempo no episódio suicida do filho, ou ficar remoendo o passado tentando achar respostas. 

Sabemos que para um casal, a configuração dos filhos na estrutura familiar é parecida com um guarda roupas em que as gavetas são os filhos. Quando um filho morre ao olhar para este guarda roupas sempre observará que há um buraco numa das gavetas. Aquele buraco ficará para sempre neste cenário. O dilema ao olhar para a gaveta vazia do filho suicida é que este buraco parece conter mistérios que ecoam na cabeça dos pais. Além da lembrança do filho ausente, este buraco vai fazer despertar as dúvidas sem respostas sobre a atitude do filho suicida. 

Se me pedirem indicações sobre prevenção ao suicídio vou dizer categoricamente que não existe. Pois já presenciei morte de pessoas por suicídio, que tiveram estrutura de formação educacional com excelente processo de vínculo amoroso, no entanto escolheram se matar. É melhor entender e aceitar a escolha feita. Prefiro entender que o ato suicida desprovido de um motivo patológico ou emergencial, é uma escolha, uma escolha que deve ser respeitada.  

É sabido que poderíamos evitar muitos suicídios de pessoas que comprovadamente já apresentavam disfunções emocionais e que não estavam em tratamento psicológico. E com certeza 90% deles não teriam suicidado se estivessem tratados. Nestes casos existe um motivo aparente. Um problema desencadeante que pode aliviar um pouco a dor dos pais. Mas o suicídio clássico, ou propriamente dito, conforme foquei este texto, é sem dúvida uma dor indescritível.
 


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