Um tiro nos pés dos Psicólogos

Publicado em 25/08/2016


No próximo dia 27 de Agosto, comemoramos o dia do Psicólogo. Uma profissão consolidada no mercado nacional e internacional. Reconhecida pela sociedade e solidificada na representatividade através do Conselho Federal de Psicologia e seus Conselhos Regionais, no Espírito Santo o CRP 16.

Neste mesmo dia acontecem as eleições de novos conselheiros para os próximos três anos. Nós, Psicólogos, vamos eleger a representatividade a nível Federal e Regional. E neste ciclo democrático vamos vendo a consolidação da categoria. Um processo direto de participação em que atuei por oito anos consecutivos na condição de conselheiro, sendo dois anos na comissão gestora, no processo de transição do Regional 04 que tem a sede em Belo Horizonte, e depois na primeira e segunda plenária do novo Conselho Regional no Espírito Santo, o CRP-16. Por esta minha participação, e como um profissional que sempre esteve “antenado” na evolução da profissão, trago uma breve reflexão sobre uma demanda crescente, principalmente no estado do Espírito Santo que é o aumento contínuo de profissionais que se intitulam psicoterapeutas, psicanalistas e até psicopedagogos com atuação clínica e/ou institucionais, sem serem formados em Psicologia. Não possuem registro de Psicólogos e se apresentam com números de conselhos inexistentes na confederação brasileira. Apenas embasados na nomenclatura existente no ministério do trabalho, acreditam estarem aptos a atuarem como profissionais da saúde. Em Vitória-ES, o número destes profissionais atuando é assustador.

Quando atuei na condição de conselheiro, tinha um posicionamento de que o conselho deveria intervir judicialmente sobre esta crescente demanda. Alertava que apenas profissão com lei própria em âmbito federal e consequentemente conselho representativo constituído como autarquia, poderia atuar no espectro da saúde. Mas era questionado pelos próprios colegas, pois achavam exagero imaginar que esta demanda fosse se avolumar. Cresceu tanto, que até os próprios psicólogos, na sua maioria, acabam se intitulando psicoterapeutas ou psicanalistas deixando de lado o título de Psicólogo. O espaço de atuação do Psicólogo, principalmente no campo clínico, tornou-se altamente disputado por não profissionais da área. Na época eu dizia que estávamos dando um tiro no próprio pé. Lembro que havia até uma comissão no CRP que estabelecia um diálogo com a “Psicanálise”, como se esta fosse profissão. Que eu saiba psicanálise é uma teoria e um método, e não uma profissão. Inclusive um método e teoria que estudo e aplico no contexto clínico e institucional como Psicólogo.

Hoje vemos uma Psicologia quase que mendigando espaço, mendigando piso salarial, mendigando carga horária semanal. Tudo isso numa época de crescente procura da população por ajuda emocional. Neste ponto, temos pouco o que comemorar. Crescemos muito enquanto profissão no debate sobre os direitos humanos, saúde coletiva, justiça, e pesquisa. Também crescemos muito na contribuição da melhoria das instituições públicas e privadas. Mas continuamos sendo uma profissão de baixa remuneração e com poucos mecanismos de proteção do próprio profissional. Hoje é mais fácil estar atuando na condição de um mero psicanalista ou psicoterapeuta do que na condição de Psicólogo. Principalmente por que dentre outras coisas, o CRP tem apenas o poder de fiscalizar os Psicólogos, e aqueles que se intitulam profissionais da saúde emocional sem formação ou categoria representativa, não são fiscalizados por ninguém. Mas ainda defendo que o CRP pode defender sim a população, quando assumir este debate e até começar a exigir do Ministério Público uma ação mais eficaz na fiscalização dos serviços oferecidos para a população. De alguma forma, já vemos maior interferência nos concursos e na fiscalização de instituições de serviços em saúde emocional, ou sócio educativo. Mas o espaço clínico está aberto, principalmente o privado exercido por profissionais autônomos.

Neste contexto, só os que possuem uma longa carreira e forte formação educacional conseguem sobreviver. Porém, os muitos Psicólogos recém formados que chegam ao mercado, se deparam com esta disputa de espaço que se torna quase que insana. É sempre bom lembrar, que em países mais desenvolvidos, para uma pessoa atuar na área emocional no ambiente clínico, precisa ter o título de doutor em Psicologia, ou na área médica. Mas estamos no Brasil. Aí são “outros 500... anos”.

Frequento espaços de formação psicanalítica e seminários com pessoas que não são Psicólogos. De fato, muitos deles sem ser Psicólogos entendem muito da área, e isso é muito bom. Feliz da sociedade que tem na psicanálise a cultura analítica e uma das referências para pensar a estrutura social, como acontece na Argentina. A questão que deixo para refletir aqui não está na liberdade do indivíduo estudar e debater o que bem entende com quem bem entende. A questão que está posta aqui, é sobre o enfraquecimento ao longo dos anos da categoria Psicólogo. Não tenho dúvidas que no ritmo de crescimento de profissionais não formados que atuam no manuseio da saúde emocional, ou como o próprio Freud foi questionado sobre a abertura que havia dado para os analistas leigos, teremos o emergir de novas profissões no mesmo leque de direito de ação da Psicologia. Se isso vai ser bom ou ruim, não sei. Mas que seja pelo menos legal, e que o Estado cuide com mais zelo desta área de serviço tão delicada na sociedade. Pois afinal, estamos lidando com a saúde emocional. Mas esta é uma luta que deve ser erguida por nós Psicólogos. Se não fizermos por nós, ninguém vai fazer.


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