Critérios para um processo de psicoterapia conjugal

Publicado em 08/09/2016


A psicoterapia conjugal é um, dentre vários outros procedimentos em psicoterapias, que trás melhores resultados. Porém seu índice de procura é ainda muito baixo em relação à outros, pois remete a uma escolha por ajuda a partir do casal. Outro fator que desestimula os casais de se encontrarem na psicoterapia a dois, é a transparência natural em que ambos, na relação, se deparam. Muitas vezes a transparência relacional é algo não muito suportável no casamento, e, no entanto a sua ausência é o que derruba muitos casais.

Mas quando o profissional de Psicologia pode indicar  a psicoterapia a um casal? Quando o conflito emerge na relação a partir do encontro. Problemas que surgem de ordem comportamental, tanto individual de cada um, como do casal especificamente, que brotaram a partir do encontro. Esta identificação  é sutil e é preciso um bom domínio  diagnóstico e do processo psicoterapêutico conjugal por parte do profissional.

Normalmente recebemos a mulher em busca de uma ajuda. A queixa parte dela e nas primeiras entrevistas em que o terapeuta estará observando a configuração do caso, poderá já ir identificando o que é do casal ou o que é pessoal de quem está narrando a problemática. Quando a fala da paciente está toda focada para a psicodinâmica conjugal, mesmo estando toda centrada unilateralmente na fala dela, é importante solicitar a presença do esposo para dar continuidade nesta avaliação. E muitas vezes, quando esta proposta é acionada pelo terapeuta, a mulher tende a esquivar dizendo que o esposo não vai conseguir vir por que não acredita nestas coisas. Ai tem um possível indício de que a problemática da mulher está com ela mesma. O que pode acontecer também com o homem, que ao se revelar trás elementos para o terapeuta indicar a presença da esposa para uma melhor avaliação. Mas quando o homem já tenha revelado alguma conduta comprometedora da vida pessoal na qual a mulher não possa saber, ele fica se justificando que o encontro poderá ser pior. Nesta situação, parece que o conflito é dele com ele mesmo. Porém quando um homem e uma mulher procuram ajuda e querem de fato buscar caminhos de melhora para a vida conjugal, a proposta de se encontrarem juntos no espaço terapêutico é prontamente acatada.

Mas há como identificar o conflito do casal em diferentes situações, quando nos procuram para avaliarmos um filho, dentro da dinâmica do psicodiagnóstico infantil, ou quando um deles nos procura para um processo pessoal, principalmente em situações de transtornos emocionais, e mesmo quando um paciente que é casado  já está em um processo de psicoterapia individual, e muitas das questões geram em torno do círculo conjugal, onde o processo individual vai se esbarrar no conjugal. 

O cuidado é de não propor a psicoterapia conjugal quando um dos cônjuges se encontra em sofrimento emocional. Podemos colocar este em risco ao se deparar com a realidade da terapêutica conjugal, fazendo aprofundar ainda mais o sintoma. Por exemplo, se ele se encontra em um processo de transtorno do pânico e ela não apresenta nenhuma disfunção emocional. Colocar este homem na terapia conjugal é um caminho para aumentar o sentimento persecutório tão característico do pânico. Ou se ela encontra-se em uma depressão acentuada e seu esposo está com sua estrutura emocional mais fortalecida. A firmeza dele acentuará a fragilidade dela. Nestes casos é melhor escolher tratar primeiramente sempre aquele que estiver em maior sofrimento emocional, para depois tentar o caminho da psicoterapia conjugal.

Tenho observado diferentes condutas terapêuticas que são normais conforme a abordagem teórica e técnica do profissional. Mas é necessário estar atento a algumas condutas que possam ferir eticamente um processo terapêutico, e aqui não estamos apenas falando de abordagem terapêutica, mas sim de procedimentos profissionais que devem preservar o sigilo e a estrutura emocional dos pacientes. Como é o caso do profissional que ao atender o casal, reserva sessões individuais para ele e para ela e algumas  juntos. Quando escuta um dos cônjuges individualmente, como terapeuta está estabelecendo um sigilo com este especificamente e depois também com o outro. Neste inter jogo,  escutará de um deles algo que não possa ser  revelado ao outro. Quando o terapeuta  se encontra com ambos em uma mesma sessão, torna-se   depositário de fatos sigilosos de cada um sem, no entanto , poder fazer revelar, mesmo que sejam fatos ou situações que possam ser focos da patologia conjugal. Neste tipo de situação, o terapeuta autorizar este tipo de contrato, estará colocando em risco a ética no seu exercício profissional. É como se o profissional estivesse em cima do muro assistindo pateticamente  o circo armado entre o casal. Mas o que tenho observado, é que estas condutas desprovidas de qualificação e postura técnica, não avançam o processo, pois ao se colocar desta forma, o terapeuta estará implantando  de forma inconsciente no processo, um forte mecanismo de defesa de ambos os lados. O que obviamente não fará evoluir o processo. Mas infelizmente, diante deste tipo de conduta, muito estrago emocional no casal o terapeuta estará incrementando.

Outro cuidado  no processo de terapia conjugal, é de ajudar para que cada um cresça nas percepções da problemática conjugal e também na forma de ser que foram se estruturando ao longo dos anos, concomitantemente. Caso um dos cônjuges possui melhor estrutura interpretativa e até cognitiva para perceber-se na relação e propor-se as mudanças, deve-se ter a cautela de levar o outro ao crescimento junto. Pois se um cresce e melhora, o outro pode regredir e aquilo que chegou para somar ao bem estar conjugal, pode servir como um meio para fragmentar ainda mais a relação. 

Na escuta terapêutica conjugal, é importante manter sempre a balança de equidade nas falas de cada um, pois se o terapeuta não ficar atento, poderá dar mais ênfase naquele que melhor fala, ou que melhor seduz a conversa para si. Se um fala sobre algo o outro deverá emitir comentários sobre o mesmo fato, e cada um deverá tecer seu comentário e visão pessoal sobre cada fato. Assim também, diante de cenas e questões que possam emergir na terapia que venha gerar agressividade  ou reação defensiva por uma das partes ou ambas as partes. Situações na qual a terapia parece entrar num turbilhão emocional. Aqui cabe a agilidade do terapeuta em intervir para que não haja agressividade e ameaças. Precisa muitas vezes de uma intervenção pontual, às vezes até pedindo para se abaixar o tom de voz. Um problema na terapia conjugal e que leva muitos casais a não darem sequência, é de fato o manuseio das zonas de conflitos, e este é um papel relevante da psicoterapia conjugal, de fazer valer o espaço de debate intermediado pelo profissional. É um exercício de diálogo que se o casal estiver só, um com o outro vira briga mesmo. Vão aprendendo a se enfrentar e se revelar nesta intermediação, daí já surge uma forte contribuição ao casal.

Na verdade, a boa psicoterapia conjugal não visa a eliminação de problemas e hábitos já substanciados na história conjugal. O processo é favorável principalmente para que o casal aprenda a se ver um ao outro na ótica do outro. É o restabelecimento dos motivos originais do encontro amoroso, que ao longo da história conjugal foi se perdendo. É  potencializar o casal para ver no outro o que sempre souberam mas nunca tiveram a coragem de ver. É estabelecer uma parceria de troca, potencializando o presente para almejar tudo o que um dia sonharam para o casamento, sempre dentro da percepção do que é real e fantasioso. 



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