Psiquiatria equivocada

Publicado em 13/09/2016


Tenho insistido ao longo de minha trajetória como Psicólogo e psicoterapeuta, que nos últimos anos há um exagero nos processos diagnósticos e nas prescrições medicamentosas aos pacientes que apresentam  queixa emocional. As condutas médicas, tanto por profissionais da psiquiatria, ou de outras áreas da medicina em suas mais diferentes conduções ou espaços clínicos, tem se mostrado unilateral na prescrição medicamentosa e também na definição diagnóstica. Salvo poucas exceções.

Definir que um sujeito é esquizofrênico aos 12 anos de idade, ou por um momento de angústia, tristeza ou medo mais acentuado e portador de um transtorno, é simplesmente simplista. Como já afirmei em artigos anteriores com esta temática, poucos são os médicos que solicitam uma melhor avaliação psicológica por parte de um Psicólogo para se definir  o diagnóstico e possível medicação posterior. Podemos contar nos dedos os médicos que ousam escutar um psicólogo. Mas os que assim o fazem, observo uma visão interdisciplinar e melhor qualificação tanto teórica como prática da clínica médica. Geralmente profissionais que passaram por residência médica em sistema ambulatorial de atendimento, com formação interdisciplinar e multi-profissional. 

Porém, ao ler o livro  “Voltando ao normal”, (Ed. Versal Editores) do Psiquiatra Allen Frances, professor emérito da Universidade de Duke, Carolina do Norte ( EUA) , posso continuar mantendo minha percepção sobre os diagnósticos equivocados conforme citei acima. Interessante que ao conversar com alguns colegas Psicólogos, preferem não interferir na conduta médica na qual seus pacientes já estão sendo acompanhados, mesmo que observam equívocos. O argumento é o da manutenção da ética, e também do medo em dizer que um profissional médico está errado no seu procedimento. Mas o que é a ética? Preservar o nome de um profissional ou preservar a sanidade de um paciente?

Nos meus diagnósticos, sempre me reporto ao  Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – 4). Tive dificuldade em aceitar as indicações da versão posterior DSM-5, por entender que há um exagero em definir tudo como algo doentio. Parece que o DSM-5 está impregnado de influência da indústria farmacêutica. Sabemos que há um caráter científico em cada edição do DSM, mas nesta última edição deixou-me na dúvida. Atendo em um edifício comercial na Praia do Canto em Vitória-ES, e começo muito cedo, às sete da matina já estou em atendimento. E é nestes primeiros horários que os corredores do edifício ficam cheios de representantes comerciais de laboratórios medicamentosos. Só no andar que me encontro, outro dia deparei-me com oito representantes esperando os médicos daquele andar chegar.

Minha surpresa foi ter lido uma entrevista publicada no Jornal A Tribuna de 11 de setembro de 2016, onde o Psiquiatra Allen Frances discorre algumas idéias que batem com as minhas, que não são tão minhas, mas decorrente dos estudos que desenvolvo e de congressos que participo. Isso me deixa um tanto aliviado, por saber que o que tenho dito, escrito e encaminhado em minha clínica, de fato tem respaldo científico. E olha que Allen é um dos pesquisadores que encabeçou a sistematização do DSM-4, coincidentemente o mesmo na qual até hoje prefiro utilizar para indicar os diagnósticos que desenvolvo na clínica.

Olha só o que ele diz na entrevista: “Tristeza normal, como o luto, por exemplo, torna-se transtorno depressivo maior; comer em excesso, torna-se transtorno de compulsão alimentar; ataques de birras de crianças podem se tornar ‘transtorno do temperamento irregular”; o esquecimento na velhice passa a ser transtorno neurocognitivo leve; e as crianças normais são diagnosticadas com déficit de atenção e hiperatividade". Allen afirma que “Os maiores contribuintes para a cultura da pílula são os farmacêuticos, que empurram drogas, e médicos descuidados”. Então, a questão não é em si do DSM, mas dos  profissionais descuidados. 
Particularmente, prefiro receber o paciente em primeira instância na clínica, antes mesmo de ter passado por um médico que já diagnosticou e medicou em primeira instância e em consulta super rápida. A não ser que seja um profissional muito bem informado e com visão interdisciplinar. Quando recebo pacientes destes, lógico que acolho com a certeza que a troca profissional vai acontecer. Pois do contrário, precisamos estabelecer um contrato de tratamento muito impregnado da fantasia da doença mental e da fé e crença que é o remédio que será o carro chefe de um tratamento. Sendo que remédio não pensa, e é na psicoterapia que o paciente vai entender e elaborar os motivos pela qual desenvolveu um comportamento indesejado, ou que o deixou inapto para alguma função no seu cotidiano. Quando o paciente chega para rastrear um diagnóstico e buscar uma saída com consciência e conhecimento, o tratamento se desenrola com mais eficácia. 

É sempre bom lembrar que um tratamento emocional com acompanhamento medicamentoso é um processo que se configura em três etapas distintas: 1° etapa é o começo, com um bom diagnóstico interdisciplinar; 2° etapa é o meio, que é o período de maior fuga de tratamento pois se a resposta vem rápida o paciente acredita já estar bom; 3° etapa é o final, quando o remédio sai e a psicoterapia continua até podermos observar que o paciente já pode caminhar com as próprias pernas. No caso de pacientes com doenças emocionais definitivas, o final se dá na plena consciência do paciente sobre sua patologia, e isso é possível até em casos do tipo a esquizofrenia, aí a medicação continua como mecanismo de manutenção. Porém, estes, são um quantitativo muito pequeno de pacientes.

Só quando os pacientes desta indução medicamentosa e manipulação diagnóstica serem vítimas dos efeitos colaterais indesejáveis, como por exemplo acerta uma coisa e estraga outras cinco, teremos o terreno fértil para a intolerância da população, como tem acontecido com o cigarro, o álcool e também os hormônios artificiais. Quero estar vivo para assistir a este momento, onde quem sabe possamos resgatar a intervenção profissional com ética e decência no cuidado de nossos pacientes.


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