Influência psíquica do horário de verão

Publicado em 11/10/2016

A primeira e maior crueldade psíquica do horário de verão é vermos a população de vários estados do Brasil se sacrificando para muito pouco resultado na economia de energia elétrica. Só de saber que no Brasil se perde 30% da energia no processo de transmissão das redes elétricas, por termos ainda um sistema pouco desenvolvido de distribuição de energia, dá uma reação imediata de aversão ao horário de verão.

Biologicamente o horário de verão vai à contramão do que estamos codificados a viver fisiologicamente como espécie humana, e consequentemente temos alterações no humor, na disposição ao trabalho e na pré-disposição mental ao estresse. Isso por que estamos diante de um novo horário o qual não está em conformidade com as horas naturais de cada dia. Sabemos que a invenção da hora é uma boa invenção, mas nosso corpo segue o ciclo do sol a cada dia. A cada dia necessitamos de dormir oito horas por noite, à noite. Se dormirmos durante o dia para compensarmos perdas noturnas de sono, não teremos efeito real de descanso. Até por que na noite dormimos na horizontal para que as enzimas responsáveis pela limpeza de nosso corpo exerçam sua função, elas são as operárias da limpeza. Temos também o repouso do cérebro, que no ciclo de oito horas fará a produção de quatro sonhos, ajudando-nos a termos uma ferramenta de conhecimento do nosso inconsciente, e também a produção de substâncias neurológicas para mantermos nosso cérebro em pleno funcionamento durante o dia. Assim como as enzimas limpam nosso corpo, os sonhos oxigenam nossa alma, suavizam nosso emocional. Não é a toa que a Psicanálise nasce com a publicação do livro “A interpretação dos sonhos”, de Freud.

  O horário de verão traz disfunções físicas e emocionais sim. Principalmente nos primeiros dias do início do horário de verão. Para as crianças há uma forte alteração do ritmo do despertar para dormir, principalmente para as idades até doze anos que necessitam de pelo menos 10 horas de sono noturno. Entre o dormir e o acordar, a criança pode ter perdas de até quatro horas de sono.

  No caso dos adolescentes, que já podem ter o sono satisfeito por oito horas noturnas, a questão se agrava ainda mais, pois com o desenvolvimento das substâncias hormonais, principalmente as que comandam a sexualidade, a química do cérebro entra em descompasso, afligindo principalmente o lobo frontal, aquela parte do cérebro que fica bem à frente da cabeça. Naturalmente o adolescente terá alterações de humor e de concentração por conta de suas mudanças fisiológicas, e automaticamente tende a dormir mais tarde e acordar mais tarde também, dentro do ciclo de oito horas. Imaginem como fica com o horário de verão, o sujeito adolescente que normalmente dormiria às 23hs, vai despertar para o desejo de dormir no horário do relógio às 24hs e acordar por volta das 6h por conta dos estudos ou trabalho. Só ai terá uma defasagem diária de 2 horas. Há tempo que as escolas já deveriam ter mudado o horário de início das aulas matutinas para as 8h aos alunos acima de 12 anos, principalmente por que o cérebro do adolescente leva por volta de uma hora para engrenar processos sinápticos capazes de colocá-lo a disposição de estudar. Não é por acaso que na primeira aula da manhã, muitos adolescentes dormem em sala de aula.

Já para os adultos, com o dia cheio de compromissos do trabalho, cuidados da casa, da família e para alguns também tem os estudos, o horário de verão de fato atrapalha e muito. Principalmente por que o adulto cria hábitos com muito mais facilidade do que as crianças e adolescentes e o ato de dormir passa a ser uma tortura. A cama parece ter espinhos. Acordar no horário de verão é outra surra ao corpo, que no adulto tem seu pleno processo de bem estar e relaxamento nas últimas horas do sono, por isso que dizemos que a cama pela manhã é mais gostosa. Assim haverá um aumento do estresse, principalmente por que faltarão horas de sono para o corpo ser limpo plenamente pelas enzimas e para que o cérebro recupere seu bem estar, principalmente para a reativação de substancias neurológicas poderosa para as atividades mentais do dia a dia. O cérebro produz a super-poderosa melatonina por um período de oito horas de sono em um ambiente totalmente escuro. Por isso que observamos uma queixa constante na sociedade de um cansaço permanente e baixa produção mental e perda de concentração em tempos de horário de verão.

Diante desta crueldade para a vida humana que é o horário de verão, só nos resta uma saída: encarar o horário pelo relógio e não pelo ciclo biológico da vida. Tentar não fazer comparações do tempo relógio com o tempo biológico, como: “Nossa, vou dormir agora sendo que ainda é 21h?” Assim, não vai dar certo. As crianças e adolescentes usam muito este argumento. Tenho exercitado há anos esta forma de agir, calculando minhas oito horas de sono noturnas. Assim, se no dia seguinte preciso acordar às 5h, devo dormir às 9h. Se os filhos precisam acordar às 6h, precisam estar na cama às 22h. É muito simples, mas ao mesmo tempo difícil. Pois nesta realidade do horário de verão, mais do que nossos hábitos biológicos, precisamos acionar em nós a capacidade de pensar e escolher. Somos mais do que biológicos. Do contrário, passaremos pelo horário de verão brigando continuamente com nosso relógio biológico versus nosso aparelho de marcar horas. Ficaremos frustrados, cansados e mal humorados.

Tenha uma atitude inteligente para esta regra pouco inteligente que é o horário de verão.


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