Depressão e ansiedade na criança

Publicado em 24/11/2016


Por mais que imaginamos a depressão e ansiedade na infância e adolescência como sintomas que ainda estão para chegar, hoje podemos constatar que é uma realidade. Quem mais está desenvolvendo pesquisas neste campo é os Estados Unidos, e no Brasil há observações não tão sistematizadas, porém que nos trás dados retirados da prática clínica no campo da psiquiatria e psicologia. Por isso não termos números precisos, mas sim aproximados. 

Segundo a FIOCRUZ, 2% das crianças e 5% dos adolescentes apresentam sintomas de depressão. A Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2014 apontou que a depressão é a principal causa da incapacidade na realização de tarefas entre a faixa etária de 10 a 19 anos. No Brasil estima-se que 8 milhões entre 0 a 17 anos apresentam sintomas de depressão. Para os quadros de ansiedade, pesquisas apontam  o índice de 13% entre 9 e 17 anos. Para a Associação Americana de Transtornos de Ansiedade, o índice chega  a 15% entre as idades de 5 a 16 anos, para a sociedade americana. Pelos números, vemos que são equivalentes mesmo em países diferentes. Podemos pensar os motivos na qual as pesquisas sobre esta questão ainda não avançaram tanto. Penso que é pelo motivo de se ter a ideia antiga que problemas emocionais é coisa de gente grande. Ao longo de minha atividade como Psicólogo infantil fui observando esta triste realidade, dos pais só encaminharem os filhos para um processo psicodiagnóstico quando os sintomas já evidenciavam sofrimento real, ou quando as notas na escola estão muito defasadas e o filho corre o risco de repetir de ano.

A procura por ajuda profissional para crianças e adolescentes é mínima, e dos poucos diagnósticos realizados pode-se detectar inúmeros erros, tendo em vista que muitos deles logo de cara são definidos com algum quadro de transtorno que não condiz com a base estruturante da patologia que é a depressão ou ansiedade. Geralmente observo que crianças que já estão rotuladas com transtorno de Déficit de Atenção por Hiperatividade (TDA-H) na realidade, em sua maioria, apresentam sintomas de ansiedade. Ataca-se o sintoma final e não o problema estruturante. Algumas são rotuladas com transtornos alimentares, que na verdade já se encontram no quadro da depressão, os quais são mais difíceis de encontrarmos diagnósticos, pois nestes casos a criança incomoda quase nada exatamente por estar em depressão,  pais e educadores deixam passar esta variação de humor que se não tratada pode levar o indivíduo a um quadro distímico. Daqueles “ó dia, ó vida, ó azar...”

Ansiedade e depressão diagnosticadas bem cedo nas crianças podem favorecer no processo de cura em curto prazo. Pois a criança com seus poucos anos de existência conseguiria elaborar os motivos pelo qual entrou nestes sintomas. Se no adulto temos muitos anos a serem destrinchados para que a depressão ou ansiedade consiga ser desestabilizada para que o paciente se coloque diante da vida com mais clareza sobre suas forças emocionais inconscientes, nas crianças são bem menos anos de sofrimento para serem revisitados. Uma coisa é tratar um sujeito de 5 anos, outra coisa é tratar um outro de 40 anos. Este tem bem mais amarras existenciais do que aquele. 

A ansiedade na criança de fato é muito fácil de ser confundida com a hiperatividade. Mas a diferença é que o ansioso consegue desenvolver atividades com começo, meio e fim e o hiperativo não. A ansiedade na criança passa a ser perceptível quando ela ao fazer algo aqui/agora já está pensando no depois. Se não, ao esperar por algo no amanhã, já fica mobilizando à todos para que este algo chegue agora. Observamos também, que na forma de se alimentar já carrega traços de ansiedade, o “apressado come cru”. E assim, pela ansiedade  poderemos ter a evolução para transtornos alimentares tanto para o desencadeamento de obesidade quanto da ausência de apetite. Porém a ausência de apetite está mais relacionada à depressão. 

Na depressão a criança entra em um silêncio no qual passa a não ser notada. Com este sintoma muitos pais ou educadores dizem que é por ser uma criança introspectiva, ou até mesmo porque puxou às pessoas da família que na infância eram assim. Mas se observar com cuidado, se olharem para esses “introspectivos de família”, observará que são os adultos depressivos irreversíveis. São alguns os sintomas da depressão na criança: alteração brusca de humor, com tendência a tristeza na qual a criança não consegue explicar; isolamento no seu quarto e pouca socialização. 

Enfim, não vamos nos apegar por hora a sintomas de ansiedade e depressão. Aqui desejo apenas despertá-los que é real, acontece de fato. Hoje, a psiquiatria já possui os dados estatísticos que comprovam que estes dois sintomas acontecem com um grande número de crianças e adolescentes e cresce a cada ano. É preciso estar atento, e se o comportamento do filho apresentar preocupação, seja pelos pais ou até mesmo pelos educadores, é melhor avaliar. 

A avaliação requer o cuidado de investigar a família com uma ampla anamnese com os pais e estabelecer sessões psicodiagnósticas que possibilitem além da análise livre, a coleta de dados por meio de testes de caráter projetivo. Quando o quadro faz necessidade de auxílio medicamentoso, principalmente se os sintomas já prejudicam o cotidiano livre e solto que deve ser o de uma criança e adolescente, vale a pena ser conduzido por um psiquiatra infantil, com um processo medicamentoso adequado à infância. Sabendo que o carro chefe do tratamento será o processo analítico interpretativo no qual a psicoterapia de base psicanalítica infantil tem uma larga experiência para colaborar. No entanto é necessário que o psicólogo saiba tratar de crianças. Alerto a esta necessidade, porque já recebi muitas crianças que passaram por terapeutas que utilizavam das mesmas técnicas dos adultos em crianças. Lembro-me que uma criança me relatou que o ex-psicólogo dele fazia-o deitar no divã e falar livremente.

Outra importante preocupação é que não receitem diagnósticos de adultos para comportamentos de crianças. É muito comum uma ansiedade infantil que se manifesta em agressividade da criança ou adolescente aos colegas de sala de aula ou de esporte e até em festas, ser diagnosticado como transtorno opositor desafiante (TOD); Síndrome de pânico, etc. Não podemos caracterizar transtornos para crianças e adolescentes muito prematuramente. Se assim o fizermos estaremos colaborando apenas para a perpetuação da patologia. 

Lembre sempre, que diagnóstico e intervenção nas mais tenras idades, podem colaborar para a construção de um futuro adulto saudável e livre de problemas emocionais mais graves no futuro. 


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