Quando procurar por uma avaliação psicológica para o filho?

Publicado em 07/12/2016


Esta é uma pergunta que todo pai e mãe devem começar a fazer no processo educacional de seus filhos. Mas ainda continuam descartando esta interrogação do cotidiano familiar por não terem muita clareza para que serve o profissional de psicologia. A ignorância natural dos pais que muitas vezes não possuem a formação necessária para que tenham um olhar diferenciado no processo educacional. Bastam as necessidades materiais e de vínculos afetivos tradicionalmente exercidos no histórico familiar. Mas outro motivo que faz a maioria dos pais não procurar ajuda psicológica de forma preventiva, é a ideia antiga de que Psicólogo é para “louco”. Só de imaginarem que o filho precisa ir ao Psicólogo ficam apavorados.

Fico muito feliz quando recebo pais que desejam avaliar o filho apenas para prevenir, mesmo que este não esteja apresentando alguma alteração comportamental. Assim demonstram um olhar diferenciado sobre a educação de filhos. E esta posição na sua maioria das vezes está associada com o nível de escolaridade dos pais e do tipo de leitura que desenvolvem no dia a dia. Também é fato que muitos dos pais que procuram por prevenção, já passaram por processos psicoterapêuticos ou analíticos. Também recebo pais, de camadas populares e sem formação educacional escolástica, mas com uma ampla leitura de mundo, conscientes de que a saúde emocional é importante.

 Mas eis a questão: Quando procurar por uma avaliação psicológica para o filho?
Normalmente os pais chegam desesperados quando a escola anuncia que o filho está apresentando muitos problemas na escola, tanto comportamental como no processo de aprendizado e corre um sério risco de reprovar de ano;  quando o filho apresenta algum sintoma mais agravante de ordem comportamental  que pode retirá-lo do convívio cotidiano, isolando das pessoas por fobias, agressividade generalizada, etc; também quando os pais observam que o filho tem algum distúrbio cognitivo bem evidente. Enfim, a tendência é procurar ajuda quando a água já está extrapolando a borda do copo. Aí a intervenção torna-se mais complicada, pois a família chega com uma demanda curativa e tem pressa nos resultados.

O ideal é avaliar sem ter necessidade. Há regiões do mundo e em alguns lugares do Brasil que os pais colocam os filhos para o processo analítico como se fizesse parte natural da vida, e inclusive os próprios pais fazem suas análises. Mas tudo bem que até chegarmos neste ponto serão mais outros quinhentos anos de história. Vamos pensar pelo menos em encaminhamentos que os pais possam fazer com caráter preventivo, com percepção de alguma demanda comportamental menos agravante. Para isso vou trazer pequenos fragmentos de casos que chegaram até meu consultório com esta demanda preventiva:

1) A senhora perdera seu esposo e com três filhos observara que um deles chorava muito e depois da morte do pai começou a fazer xixi noturno todas às noites. O sintoma do xixi (enurese), não existia enquanto o pai estava vivo, além de o garoto ser muito alegre e bem forte no caráter. A senhora, logo que fez esta percepção dos sintomas do filho, do choro contínuo e do xixi noturno, procurou ajuda para avaliar o menino. O garoto não apresentara sintomas de um quadro depressivo e nem da enurese propriamente dita, quando finalizamos a avaliação. Era um garoto determinado e com forte auto-estima, mas de fato ele estava  com dificuldade para elaborar o luto do pai,  correndo o risco de fixar-se no luto e tornar-se frágil e até depressivo. Na avaliação percebeu-se sua força interna, mas apontou para um processo de psicoterapia breve com foco no luto da perda do pai. Em torno de 22 sessões o garoto voltara a seu comportamento de antes da morte do pai e seu xixi noturno havia estancado e sua expressão alegre voltara. Neste caso, o resultado parece  mágica, mas na verdade foi o processo consciente da mãe que percebeu antecipadamente o processo de luto mais sofrido de seu filho. A intervenção psicológica aqui, apenas colaborou para o garoto ver sua realidade e encontrar-se com a perda de seu pai de forma natural.

2) Um adolescente de 14 anos chega até meu consultório sozinho por solicitação de seus pais. Na primeira entrevista diz que não sabia os motivos pelos quais os pais haviam enviado ele até mim. Mesmo não atendendo adolescentes sem primeiro fazer contato com os pais no processo de anamnese (coleta dos dados histórico do paciente), realizei a primeira entrevista com este adolescente que falou vagamente de si e passou-me a percepção de ser um garoto sem maiores conflitos. Só deixará escapar a sua preocupação de só gostar de ter amigas mulheres e disse que tinha uma coisa dentro dele de querer sentir muito das sensações emocionais que as meninas sentiam. Fiz acordo com o adolescente de chamar os pais para a tradicional entrevista de anamnese e ele aceitou. Com os pais, posteriormente, revelaram que gostariam que o filho tivesse um processo de análise para conversar mais sobre esta tendência dele de estar mais com as meninas. Estes pais não estavam preocupados se o filho seria ou não homossexual, coisa rara nos pais de hoje, que ficam apavorados de saber que o filho homem possa ser homossexual. Assim, iniciamos a psicoterapia do adolescente cuja principal temática foi entender suas conduções sexuais, que o levou a falar abertamente com seus pais e aos poucos assumiu sua condução homossexual e iniciou seu namoro com um garoto do bairro onde morava. Um processo preventivo que eliminou traumas, fechamentos do diálogo familiar, e livre aceitação dos pais pela escolha do filho.

3) A menina super inteligente e nota dez na escola. A menina que nunca deu problema na escola e uma filha super prendada. Segundo seu pai, procurou uma avaliação por achar que crianças da idade dela (9 anos) precisavam ser ou ter alguma coisa “fora do esquema”, segundo ele. O pai estava preocupado por ver que a filha não dava trabalho algum em lugar nenhum. Ao avaliarmos esta criança, observamos um quadro de sofrimento emocional muito forte. Ela sendo filha única, de pais altamente bem sucedidos na carreira profissional, decorrente de um processo educacional de muita dedicação, ambos com pós-doutorado em suas áreas de trabalho. Neste contexto, a menina queria suprir a demanda de ser uma boa filha e estava desenvolvendo uma estrutura comportamental “reativa”, para que todos vissem que ela era uma filha exemplar. Tinha a fantasia de que um dia seria melhor que seus pais. Após avaliação, foi indicado processo analítico com objetivo de fazer com que a criança vivesse a parte de seu referencial, no caso, ser uma criança como outras crianças. No processo avaliativo, escolhi avaliar seu potencial cognitivo para ver se ela era boa aluna por esforço além do que poderia dar, ou se realmente tinha uma estrutura cognitiva privilegiada. Por surpresa dos pais, a filha era mediana em todos os itens cognitivos, o que fez os pais terem a certeza de que a filha precisaria de um espaço analítico para que ela se tornasse quem ela de fato é. A mãe ficou assustada quando seu esposo quis colocar a filha para avaliação psicológica, mas depois identificou que ela mesma quando criança, se esforçava em demasiado para tirar notas boas com muito sacrifício, “eu às vezes me achava meio burrinha, queria mostrar que era a melhor”. O processo da menina perdurou em análise por três anos consecutivos, tendo alta quando os pais confirmaram que tinham ganhado uma criança dentro de casa, descontraída e cheio de artimanhas. Suas notas tiveram uma queda sim, no entanto sem afetar seu ano escolar. Ela ficou uma criança , e saiu da sua posição de  miniatura dos pais brilhantes.

Enfim, poderia trazer centenas de episódios de diferentes formas e desfechos, de quadros cujos pais entenderam que era melhor avaliar e intervir, não por uma necessidade gritante, mas sim para uma prevenção com o intuito de se ver crescer crianças e adolescentes saudáveis na liberdade de suas expressões, para que no futuro a vida adulta tenha mais leveza e seja vivida com prazer.

Agora é com vocês. Vale a pena avaliar seu filho. É um investimento imensurável. 


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