Pensando o Natal, longe das repetições

Publicado em 13/12/2016

Dezembro está ai, chega como vento em ventania, e bem mais rápido do que desejaríamos. Pois o tempo passa e o mundo não para. Até que um dia, cada um de nós vai parar.

Quem nos faz lembrar por antecipação que Dezembro está chegando e com ele o Natal, é o comércio. Ofertas e mais ofertas para o papai Noel nos presentear. Entra ano e sai ano, aqui nos tristes trópicos, das falcatruas do congresso nacional, em plena crise política, chega o Natal. E com ele a simbologia do frio europeu na roupa vermelha e calorenta do papai Noel. A cultura do mais forte prevalecendo nos mais fracos.

Esta repetição se dá há milhões de anos, mesmo antes de existir a Igreja Católica. Na região da Roma antiga, nesta data de 25 de dezembro, havia o costume de construir árvores grandes no centro de praças, onde penduravam comidas, carnes e objetos pessoais, e ao redor se embebedavam, cantavam e dançavam e se davam em corpos. Daí a árvore de Natal. A Igreja Católica, com o objetivo de cristianizar o paganismo, introduz o Natal nesta data que já havia a tradição festiva, na tentativa de transformar este dia em algo mais nobre, dando um sentido à vida. De alguma forma, no mundo ocidental, esta data de 25 de dezembro se tornou um marco de celebração. Se não referenda-se o Menino Jesus, pelo menos se introduziu a cultura da paz, do presentear-se, abrasar-se. Mas, o maior desejo de evangelizar na pessoa de Cristo, ainda está no devir, na esperança. Pois o Natal, com tudo que vemos e ouvimos, ainda continua sendo uma festa pagã.

Para não ficarmos na ordem das lamúrias, e do pessimismo, podemos dar sentido ao Natal a partir de um referencial. Vamos olhar esta data pela Bíblia Sagrada, que é uma referência regional em relação ao planeta terra, mas que representa o referencial escrito mais lido no planeta. Lógico que com este referencial estaremos restringindo nosso olhar para uma pequena fatia da população mundial, mas como estamos no Brasil, em que mais de 90% da população tem a Bíblia como um livro que deve ser respeitado, podemos concluir que se pode pensar a partir deste livro.

Lá na Bíblia, fui buscar nos escritos do livro do profeta Isaías capítulo 11, versículos de 1 a 10. Um texto escrito há mais ou menos 716 anos antes de Cristo, e que trás o profetismo de ser um evangelho anunciado por Isaías, como se fosse o quinto evangelho, como assim designam alguns estudiosos de Bíblia. Nesta passagem podemos identificar alguns trechos que nos remetem ao significado maior do Natal, que é a esperança por um mundo unido. Sabemos que Isaías é o profeta da esperança, pois viveu em uma época de desesperança. Caminhava junto com seu povo no exílio.

 Lendo Isaías de ontem, podemos identificá-lo no hoje. Hoje temos nações quase que inteiras vivendo no exílio. O movimento humano de exílio que mais está mexendo com as nações ocidentais é a do povo Sírio, que está como bola de ping-pong, de um lado para outro, mas no fundo, refutados por todos. Vamos observar alguns símbolos que Isaías trás para  seu povo  e que pode servir para que tenhamos um pensamento diferenciado neste Natal, com o intuito de não ficarmos repetindo tradições sem significados de Natal, tipo o tal do papai Noel:

“ (...) nascerá uma haste do tronco de Jessé (...) sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria, discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus...” (Is 11, 1-2)

 “ (...) trará justiça para os humildes e uma ordem justa para os homens pacíficos.”  (Is 11,4)

“O lobo e o cordeiro viverão juntos e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o bezerro e o leão comerão juntos.”  (Is 11, 6)

 “(...) a criança de peito vai brincar em cima do buraco da cobra venenosa; e o menino desmamado não temerá por a mão na toca da serpente.” (Is 11, 8)

“Não haverá danos nem mortes por todo o meu santo monte: a terra estará tão repleta do saber do Senhor quanto as águas que cobrem o mar.” (Is 11,9)
Ao debruçarmos nestes fragmentos do capítulo 11 de Isaías, poderemos ter muito  o que fazer para vivermos o Natal dentro da perspectiva da esperança. A esperança do Natal na pessoa do Senhor: “ Deus que se faz carne e habita entre nós” (João, cap.1). Uma esperança comprometida na construção da justiça, o verdadeiro instrumento gerador da paz entre as nações. E assim, viver o Natal é comprometer-se com a justiça. Aqueles que promovem a justiça, os pacíficos, terão do Senhor uma ordem justa, um desfecho favorável.

Também temos a simbologia dos animais que na cadeia alimentar jamais comeriam juntos, como o lobo e o cordeiro, o bezerro e o leão. Mas com a esperança do Menino que chega, o Senhor da vida entre nós, podemos aplainar as diferenças e conviver na diversidade. Respeitando o outro na sua cultura, classe e religião. Aqui é a vivência da cultura da paz, na civilização do amor. Um devir distante, mas que pelo Natal reascendemos este desejo. Ao vermos nossas intransigências em diversas realidades, podemos achar que a cultura da paz e o respeito pelas diferenças está muito distante. E está mesmo. Por isso o Natal deve estar voltado com um olhar nesta utopia. Mas dá para fazermos exercícios cotidianos de acolhida às diferenças, nem que seja apenas no dia do Natal.

Quando enfim a criança estiver ao lado da serpente, sem ter medo. Pois tanto a criança como a serpente estarão no mesmo patamar de relacionamento onde a ingenuidade da criança contaminará a destreza da serpente, e ao mesmo tempo a serpente ensinará a criança a lidar com o mal. Não precisaremos nos envenenar, e nem nos usufruirmos da ingenuidade do outro. Aprenderemos uns com os outros nesta diversidade, um com o antídoto do bem, e o outro com o antídoto do mal. Haja esperança! para que assim o nosso natal fique apaixonante, pois sabemos que o Senhor chega até nós para que esperemos com alegria, entusiasmo. Sonho que se sonha no coletivo que é  Natal e se torna realidade.

Poderemos contemplar no Natal, uma terra sem males. O Natal sem a perspectiva do Menino Deus, o Senhor da Vida, é papai Noel do consumo, do mercadológico, das diferenças, dos conflitos de classes, da divisão global entre norte e sul, da cultura do mais forte sendo exaltada em detrimento a cultura do mais fraco.

O Natal da esperança, preconizado por Isaías, é de fato o Natal que gera vida. Viva e deseje a esperança a todos e todas que estiverem próximo de você. Neste natal renove o compromisso pela paz na vivência da justiça.


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