Recuperar sua raiz matricial

Publicado em 25/01/2017

Uma das boas coisas que me aconteceu nestas férias, foi a de ter participado da missa de passagem do ano na cidade de São José do Rio Pardo – SP. Tive a grata surpresa de rever um grande formador da minha época de juventude na mesma cidade, Pe. Darci. Ele orientava os jovens com muito entusiasmo, tanto que  gostávamos muito quando ele pegava sua sanfona e tocava uma série de músicas, inclusive “brasileirinho”. Padre Darci foi o celebrante da missa, ele sempre teve características em suas homilias, que são  de profunda reflexão teológica com uma forte pitada de psicologia, além de ter uma fala afetuosa. Nesta missa, o Pe. Darci recupera o sentido da celebração daquele dia em comemoração da paz mundial e também da mãe de Deus. Lembra-nos que a paz que se procura está diretamente ligada com a pessoa da mãe. As mães como geradoras de paz, pelo motivo do cultivo de vínculo afetivo materno/filial. Afirma que é preciso valorizar o papel materno na sociedade se quisermos ter paz e, com isso, indica que cada um de nós recupere a “raiz matricial”, no sentido de buscarmos no histórico de nosso vinculo materno, os traços afetivos que temos guardados na nossa essência. 

De fato, esta associação de paz com a pessoa da mãe, é uma reflexão um tanto quanto provocativa no sentido de termos que observar  o valor da mulher e principalmente da maternidade. Diante de uma realidade mundial que nega a maternidade e ao mesmo tempo continua colocando a mulher como ser inferior, o resgate da “raiz matricial” não deixa de ser uma profecia. Um sinal de esperança para o ano que se inicia. 

Muitas são as religiões e Congregações Cristãs não Católicas, que não valorizam a mãe de Deus. É como se Jesus Cristo não tivesse nascido de uma mulher, fazem dessa forma para não tirar o foco da pessoa de Deus. Alguns evangélicos dizem que é para não se criar imagens que desfoquem da pessoa de Cristo. Mas pode ser uma forma machista de se conceber a religião. Se há um Deus que se fez carne na pessoa de Cristo, este foi gerado de uma mulher. Recuperar a “raiz matricial” na religião é inclusive uma forma de entender que o Deus na pessoa de Cristo só se fortaleceu pelos braços maternos. Para se personificar como pessoa, Deus precisou de uma mulher até os 30 anos de idade, quando lá na Bodas de Caná, Jesus inicia sua vida pública e rompe com Maria na dependência educacional. 

Pensando para nossa existência, não dá para negar a mulher da qual fomos gerados e que por um longo período cuidou de cada um de nós. A mãe, a mãe de cada um. Negar esta trajetória é negar a própria existência. Mas sabemos que se este vínculo materno/filial não foi muito favorável, a tendência é de o sujeito vítima deste vínculo traumatizante, por ausência ou por conflitos e traumas, transferir negativamente para a mulher, atacando-a de forma machista ou agredindo-a por incapacidade de estabelecimento de vínculo. Assim, vale a pessoa revisitar esta “raiz matricial” pessoal e identificar se há fatores que desfavorecem no estabelecimento de vínculo com mulheres, tanto no que tange a relacionamentos conjugais quanto a vivência na sociedade. No caso das mulheres que também nascidas de mulheres, este reencontro com a sua “raiz matricial” vai ajudar na percepção das dificuldades, ou não, para estabelecer vínculo afetivo, tanto conjugal como social e também para educar os filhos. 

Não dá para negar esta força existencial que perpassa  todo indivíduo, e que ninguém pode tirar. Deixar esta origem, esta raiz sem reconhecimento, é negar a própria base de existir.

Quem é sua mãe? Quais são os momentos saudáveis que você lembra na convivência com sua mãe? Essas e outras muitas perguntas, podem fazer você ter acesso a sua “raiz matricial”. Mesmo que a sua mãe não tenha sido a biológica. 


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