O silêncio dos inocentes – Sobre abuso sexual infantil

Publicado em 01/02/2017

Ao longo do meu histórico clínico como psicoterapeuta e psicanalista, atendi dezenas de pessoas adultas com sofrimento emocional decorrente de abuso sexual na infância, principalmente a depressão. Pessoas que não puderam dizer, ou se disseram, não foram ouvidas. Indivíduos que vivenciaram cenas sexuais na infância por várias formas e motivos, alguns por que foram seduzidas a fazer algo “gostoso”, outros porque ganharam presentes, outros ainda por pressão e muitos por invasão e agressividade. 


Porém, o grande dilema no Brasil, é que um cidadão que sofre hoje por uma ação ocorrida no passado distante, não consegue reatar-se com a história e buscar seus direitos, inclusive processando o vitimizador, porque nossa lei prevê a prescrição do ato pelo tempo. Coisa que não ocorre em outros países, como é o caso dos Estados Unidos, que prevê a possibilidade de um sujeito ter sido vítima de  abuso sexual infantil e poder processar o agressor mesmo que seja muitos anos mais tarde. 


No processo terapêutico de pessoas adultas que foram vítimas de abuso sexual na infância e carrega uma dor sem reparo, a evolução da melhora do paciente é longa e sofrida. Imagine uma mulher de 50 anos, em uma sessão analítica narrando cenas de abuso sexual provocada por um tio, pai ou amigo da família, durante a idade de 5 anos à 10 anos. Essa mulher consegue narrar cenas que até então nunca conseguiu verbalizar para ninguém. Manifesta seus sentimentos do passado estando em um presente após 40 anos, uma dor na alma sem fim. Doe dentro de mim como terapeuta, e doe mais ainda por não haver a possibilidade desta paciente fazer o reparo histórico da dor sofrida, pois nossa justiça não possui brechas para este reparo histórico. 


E o que resta? Dizer para perdoar o agressor é simplesmente ridículo. Pois este tipo de agressão não tem perdão; fazer o paciente buscar pela justiça, também não ajudará, a justiça não lhe dará respaldo e pior corre o risco de ser processada por calúnia e difamação; indicar que a pessoa se encontre com o agressor para falar do passado é incorrer no risco de provocar uma revanche, tipo “olho por olho, dente por dente”. 


Então, como fazer com a escuta desta dor e como conduzir o processo terapêutico deste paciente? 


A resposta está na utilização dos recursos da psicanálise que podem colaborar para ajudar o paciente ver seu passado, analisar todos os aspectos deste passado, e assim, conseguir deixar este passado no passado. Como se o paciente tivesse que fazer uma pesquisa bibliográfica de seu período de vida mais obscuro, visitando os porões de sua existência. Sabendo que o passado ali está e não vai deixar de estar ali. Mas que deve ficar lá e não deve ser transportado para o presente. Parece simples, mas não é. Leva muito tempo de analise, pois geralmente pessoas vitimizadas sexualmente já chegam à psicoterapia com sintomas bem definidos de disfunções emocionais. Assim, antes mesmo de chegar à fase analítica, visitar à história pessoal, é preciso chegar ao sintoma, acolhendo e dando suporte. Enfim, um longo caminho a percorrer. 


Dos vitimizados que já atendi poucos conseguiram chegar ao estágio de não deixarem-se regredir pelo período do trauma vivido. Muitos melhoraram o sintoma emocional mas não elaboraram o processo histórico e a maioria abandonou o processo. 


Ainda vejo que precisamos ter no processo jurídico brasileiro, a abertura para que crimes de abuso sexual não sejam prescritos. Onde as vítimas pudessem ir a sua história para ter a oportunidade de reparar esta lacuna traumática através da justiça. Em que o vitimizador tivesse que ser responsabilizado pelos seus atos, pagando o tratamento da vítima ou sendo preso definitivamente, pagando indenização com juros e correção monetária. Entendo que com o reparo jurídico, muitos pacientes se reergueriam das cinzas na qual suas almas se encontram. É o que acontece quando os pais processam o vitimizador de seu filho/a. A criança sente-se amada e protegida. Aqueles pais que preferem deixar para lá, por questões sociais e familiares, acabam condenando o filho  a morte emocional. 


Ainda temos um longo caminho até que as vítimas adultas de abuso sexual infantil tenham direitos jurídicos. Acho que serão mais outros 500 anos. 



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