Quaresma e o catolicismo hipócrita

Publicado em 04/03/2017


Para os Católicos, começou neste 1 de março o tempo da quaresma. É um tempo de expressão do desejo de perdão, a busca da misericórdia divina. Tempo de penitência, tempo de retiro para enfrentar os desafios de ser Cristão. Uma expressão  que herdamos da tradição judaica/cristã. Os judeus no tempo de penitência jejuavam e faziam questão de revelar a dor de seus sacrifícios. Com Jesus Cristo, a penitência não deve ser um elemento de publicidade, onde Ele afirma  que aqueles que jejuam e fazem penitência se comportem como se não estivessem fazendo, por ser um ato interno e de profundo relacionamento com Deus. A quaresma iniciou na quarta-feira de cinzas, onde as paróquias espalhadas por todo o Brasil lotaram de fiéis, só que com um detalhe, é grande a presença de "fiéis" que ao longo do ano quase não aparecem em rituais da Igreja Católica. 
 
Mas sabemos que herdamos hábitos, costumes e erros nesta história de salvação. Um dos erros que geralmente cometemos na vivência Cristã pela prática religiosa é a hipocrisia farisaica, de definir e determinar regras para os outros na qual não praticamos. Com isso, Jesus apontou várias vezes aos judeus sobre o comportamento hipócrita deles. E isso os deixava muito incomodados, a ponto de armarem uma arapuca para o assassinato de Jesus. É sempre bom lembrar que Jesus levou 30 anos se preparando para a vida pública e em apenas 3 anos foi assassinado. Eu me questiono constantemente até que ponto sou cristão, pois já professo conscientemente minha fé há 36 anos e ainda estou vivo. 
 
O Papa Francisco tem batido nesta tecla. Em entrevista à jornalista Andrea Tornielli, que resultou no livro “O nome de Deus é Misericórdia”, Francisco lembra o capítulo 23 de Mateus, onde Jesus condena a hipocrisia dos Judeus “(...)aqueles que adoram os primeiros lugares(...)”. Mas recentemente o Papa Francisco em uma  Missa matinal em sua residência fala que “Melhor ser ateu do que católico hipócrita”. Atribui a hipocrisia dos católicos nas contradições que revelam no mundo do trabalho, principalmente quando não pagam salários justos, exploram seus funcionários, promovem a corrupção e colaboram no desequilíbrio social e consequente sofrimento de centenas e milhões de pessoas pelo mundo. 

De fato, na vida cotidiana, observamos o quanto que a prática do evangelho e das orientações da Igreja é diametralmente oposta dentre a maioria dos que praticam a religião. Sempre vamos nos surpreender com o comportamento de pessoas que tínhamos a certeza que nunca cometeriam alguns delitos, principalmente aqueles comportamentos que não podemos considerar como pecado, mas sim  forma de viver incorporada e dissociada da religião, tipo: racismo, corrupção; pedofilia; homofobia; assédio moral e sexual, dentre outros. Parece que no ambiente religioso, nas missas, encontros e movimentos religiosos, tendemos a nos apresentar como pessoas íntegras, mas por baixo de nosso tapete existencial escondemos muitos delitos públicos e sociais. O Papa Francisco alerta que católicos hipócritas causam escândalos. Gandhi já falava deste problema quando ao sair da Inglaterra onde estudou direito para voltar ao seu país  Índia, que era colônia da Inglaterra, observou o quanto os Ingleses Cristãos eram incoerentes dizimando o povo da Índia pela ganância financeira e o desejo de poder. Ele disse: “Eu admiro Jesus Cristo, mas não admiro os cristãos”. Pela incoerência dos cristãos, Gandhi  jamais conseguiria se converter ao cristianismo.

Com as Igrejas lotadas na quarta-feira de cinzas, e muita gente fazendo suas penitências de quaresma, poderíamos entender que nosso país estaria bem melhor em breve. Com tantos discursos de paz e amor, fraternidade e unção do Espírito Santo, podemos prever que teremos em breve um país onde corra leite e mel. Se não nos fizermos hipócritas como cristãos, o paraíso pode ser vivido ainda em vida em tempo real, enquanto vivermos.

Todos cometemos  hipocrisias, o importante é pontuá-las para que elas fiquem no ontem. Que neste tempo de quaresma, possamos nos revisitar para que não sejamos escândalo na sociedade, mas sinal de vida na sociedade. Para que ao verem os cristãos, todos possam desejar ser um no processo da partilha e do bem estar coletivo.

Fiquemos atentos aos alertas de nosso Papa Francisco. Este Papa que não está poupando nem os seus mais próximos, aqueles os quais ele tem criticado como Doutores da lei dos tempos modernos, príncipes em suas Dioceses. Fala para seus fiéis, começando com seus pares mais próximos, seus Cardeais, Arcebispos e Bispos. Estes que podem promover nos seus atos de incoerência o que Francisco lembra  como “a degradação do encanto”.

Que possamos buscar o encanto de Deus nas pessoas, nos relacionando com os próximos com atitudes de amor, fraternidade e solidariedade. Para este fim, nosso sacrifício e penitência de quaresma têm muito sentido, deixa de ser mais uma hipocrisia. 


Compartilhe:

 




Visitas: 1085

Entre em contato