Hiperatividade potencializada

Publicado em 22/03/2017

Uma foto do ator Mário Gomes vendendo sanduíche em uma carrocinha na praia de Joatinga no sul do Rio de Janeiro, deixou muita gente perplexa. Nas redes sociais, muitos imaginaram que ele estivesse com problemas financeiros. Segundo o ator, ele não tem problema financeiro nenhum, com mais de 30 novelas gravadas na sua carreira, possui uma boa condição financeira. O motivo de estar vendendo sanduíche na praia é por ser hiperativo e não conseguir ficar parado, e assim sempre tenta estar fazendo algo. Ele e sua esposa estão criando um tipo de sanduíche e agora está na fase de teste, assim, ele foi para a praia vender e sentir a reação das pessoas sobre o produto. Com a esposa, Mário Gomes pretende abrir uma empresa de sanduíches.

Se o Mario Gomes desde a sua infância tivesse ido ao médico para tratar sua hiperatividade, com certeza jamais teria realizado 30 novelas e aos 64 anos não estaria querendo abrir uma nova empresa. Isso por que os tratamentos à base de medicação de forma unilateral tendem a tornar as crianças medicadas mais apáticas, contidas e com consequente perda da criatividade. Há casos de tornarem mais irritadas e até com sintomas de alteração da estrutura de personalidade.

A Pós Doctor em farmácia, Lígia Sena, autora do blog “cientista que virou mãe”, afirma que muitas famílias abandonam a medicação, principalmente a base de metilfenidato, que é comercializado no Brasil com os nomes de Ritalina e Concerta, por causa dos inúmeros efeitos colaterais. A criança, segundo a Dr. Lígia, perde sua espontaneidade e principalmente a criatividade.

A OMS estima que 4% dos adultos e de 5 a 8% das crianças e adolescentes apresentam o TDAH. No caso do ator Mario Gomes, mesmo ele não tendo  a necessidade de fazer trabalho para ganhar dinheiro, está começando a criar algo. Se no lugar de "caçar" o que fazer estivesse controlando sua hiperatividade  pela medicação ninguém estaria tirando foto dele vendendo sanduíche na praia, e eu não estaria me inspirando nele para escrever este texto.

É muito comum hoje em dia os diagnósticos de hiperatividade, mais do que preconiza a OMS. Parece que toda criança mais criativa e consequentemente mais esperta, destas que naturalmente dão trabalho por possuírem muita energia para gastar, está sendo enquadrada na perspectiva de uma criança problema. Estamos matando futuros gênios na sua raiz.

Se uma criança é diagnosticada como hiperativa, o caminho é potencializar sua energia, dar direção para que não fique difusa. Pela via medicamentosa é mais fácil, pois não requer muito mais interatividade com a criança. Pela via da criatividade, do fazer junto, exige mais de todos, pais, professores e da comunidade. Lógico que há casos em que o acompanhamento medicamentoso é necessário, principalmente quando a criança e até mesmo o adulto apresentam perdas reais de atenção que as tornam improdutivas. Mas quando a medicação é ministrada, o tratamento não pode parar por aí, é necessário um amplo trabalho de adaptação da escola em torno da criança diagnosticada, também a família precisa ter participação ativa no desenvolvimento da criança, principalmente no monitoramento das tarefas educacionais e na criação de mecanismos de estimulação no cotidiano da criança. No caso de adultos, é necessário ajudá-los a potencializar ações e talentos adormecidos.


Imagine uma sala de aula, com conteúdos engessados, sem dinamismo estilo "cuspe do professor" e "pó de giz"? Nada mais natural em uma situação desta ver a criança hiperativa fora da sala de aula, perambulando pelo pátio da escola, ou sempre andando dentro da sala de aula caçando o que fazer, ou até mesmo com atitudes de falta de atenção. O hiperativo propriamente dito possui uma potencialidade cognitiva geralmente acima da média para a sua faixa etária, e isso o torna ainda mais exigente que o ambiente e as pessoas, que precisam estar melhor preparadas para lidar com esta diferença. Muitas vezes a criança hiperativa já está além do que a própria professora está propondo, e assim  fica deslocada, como se aquela estrutura e conteúdo não lhe pertencesse.

Imagine um hiperativo dentro de uma casa fechada sem poder gastar energia, sem alternativas para potencializar o acúmulo natural de energia que ele em si carrega? Vai sair destruindo coisas para construí-las do jeito dele. Brinquedos prontos são ótimos para serem destruídos sem que isso caracterize agressividade.

No caso do ator Mário Gomes, ao identificar-se hiperativo, potencializou sua energia em ações pró ativas. Quando esta percepção acontece no adulto, há muitos ganhos para a vida da pessoa, inclusive financeiro. Mas no caso das crianças, a tomada de consciência sobre a hiperatividade leva um longo tempo de construção. Ela por si só não consegue dimensionar o que está acontecendo dentro dela.

Na criança, o potencializar a hiperatividade é uma ação coletiva. Em caso da necessidade de medicação, o médico vai moderar esta energia acumulada, que de tanto acumulada fica dispersa, fara a condução  na medida certa ; os pais  devem aprender a buscar caminhos para que a criança seja ocupada e estimulada a fazer coisas que venham a somar na sua estrutura de aprendizado, como é o caso de ampliar o leque de espaços de aprendizado e convivência, pelo esporte, artes, lazer interativo; a escola vai precisar de um olhar diferenciado, próximo e no "tete a tete". Já temos municípios do Brasil que possuem professores de suporte em salas onde há crianças com algum perfil de inclusão.

Se começarmos a entender que a hiperatividade não é uma doença, mas sim uma forma de ser, estaremos avançando e muito na construção de mentes brilhantes para ações em diferentes campos da ciência, das artes da indústria e do comércio. Do contrário, se a hiperatividade continuar sendo colocada como uma doença e grave problema, estaremos matando jovens talentos na fonte de onde brota vida. 

 

  



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