O bebê na vida intra-uterina

Publicado em 29/03/2017

A vida começa quando? Podemos chamar aquele ser fecundado de bebê? 

Na verdade, a vida de um ser inicia no momento do desejo de seus pais, quando estes geram por escolha livre e planejada. Quando acontece de repente uma gravidez, o ser passa a existir na vida do casal quando ficam sabendo da notícia. Aqui estamos definindo a existência no aspecto simbólico a partir do desejo ou do conhecimento. Mas sabemos que biologicamente o ser nasce no encontro das células do masculino com o feminino. Mesmo tendo correntes da ciência preconizando que podemos considerar um ser humano a partir do terceiro mês de gestação, há muitos outros pesquisadores que preconizam o ser a partir do ato fecundação. Eu pessoalmente entendo que a ciência que define o ser na concepção é muito adequada. Celebro com minha esposa a data de fecundação e de nascimento de nossos três meninos.

Para a psicologia, e mais especificamente dentro da forma de pensar e exercer minha profissão na clínica, na qual intitulo Psicanálise Contextualizada, o ser nasce no desejo de tê-lo e ou quando  descobre que se está grávida. Daí podemos dizer que existe um bebê, de um lado no imaginário e do outro na realidade. Lógico que tecnicamente podemos dizer de um feto, mas gosto muito de ouvir as mulheres grávidas dizendo meu bebê, conversando com ele e cuidando dele como se estivesse no colo com o filho. Assim, a relação fica mais afetuosa e menos funcional.

O que a vida intra-uterina reserva de fato para o fator emocional de uma criança? Reserva a interação afetiva, que acontece desde o desejo de se ter um filho até a notícia que se conseguiu engravidar. Nas condições ideais, onde o casal se organiza para gerar um filho, fantasia sobre o sexo e o nome, pensam com que vai parecer, enfim, na condição de casais que se prepararam emocionalmente para isso, toda esta mobilidade emocional resulta em um ambiente mais tranquilo, favorável para o ser na vida intra-uterina. Também em situações adversas, naquelas que não houve uma escolha ou preparação, a criança fecundada poderá ter ambiência favorável desde que passe a ser desejada. Depois do susto, o assumir, o desdobrar-se para gestar bem o filho.

Se formos criar fantasias sobre as melhores condições para gestar um filho, vamos ter poucas pessoas neste mundo que de fato podem gerar.

O bebê na vida intra-uterina fixa do ambiente externo o que ele capta da sua relação pele. O órgão de sensor mais estruturado é a pele, por ela o bebê capta as reações e vínculos. Os sons também, mas enquanto melodia e não conversas. Tanto que se os pais cantam cantigas para o filho durante a gestação, eles tendem a reagir após o nascimento quando a mesma cantiga é cantada. Minha sobrinha Samanta é recém mamãe do bebê Lucca, ela fica encantada de ver como ele sorri quando ela canta a música que todos os dias cantava durante a gravidez.

Mais do que as sensações da pele e dos sons, especular sobre memória de episódios, fixação de conversas de cenas externas são exageros e mitos. Infelizmente muitos profissionais de psicologia tem se utilizado de abordagens alternativas e pouco científicas para dizer das fixações que da vida intra-uterina podemos herdar. Partindo do princípio que o cérebro do bebê no ventre ainda não está plenamente formado, sendo que esta definição vai acontecer até seis meses após o nascimento, podemos entender que apostar nas memórias que carregamos da vida intra-uterina passa a ser mera especulação e fantasia. O cérebro de um bebê na vida intra-uterina não consegue guardar cenas, conversas.

A criança no ambiente uterino precisa de ambiência tranquila e estímulos afetivos decorrentes dos cuidados e da expectativa da espera. Quando as pessoas ao redor da gestante, a própria gestante e seu companheiro estão plenamente envolvidos com a gestação, automaticamente a criança reagirá de forma positiva. Mas não por que ela vê as pessoas ao seu redor, ou melhor, ao redor de sua mãe grávida, mas sim por que o contexto de acolhida, da alegria pelo novo ser que virá, provoca uma automática construção de ambiente favorável. Assim, a fisiologia vai se desenvolver de forma mais tranquila e consequentemente a criança terá respostas palpáveis no “eu pele”, conforme já nos ensinou o psicanalista Ansie. Para Piamontelli, outra psicanalista que estuda a vida intra-uterina, a criança terá seu desenvolvimento emocional satisfatório quando seu meio externo está desejoso por ela, não por que ela saiba disso, mas por que o corpo reagirá favoravelmente a partir dos cuidados que são gerados a partir deste desejo.

Mas como fica a gestante quando precisa trabalhar, pegar ônibus coletivo para chegar a trabalho, com carga horária longa de trabalho e às vezes estando em ambiente de conflitos? O desejo e boa expectativa da mãe e de todos que estão ao seu entorno, fará com que prevaleça a relação direta da mãe com o bebê, mesmo que tudo ao redor conspire contra. E se assim não fosse, poucas pessoas no planeta conseguiriam nascer com estrutura emocional adequada. Digo adequada, quando o ser que nasce consegue se vincular à nova etapa de vida e estabelece troca afetiva com seus pais, se identificando com o ambiente do novo lar na qual chega. Esta é uma verdade constatável, pois uma criança ao nascer, mesmo tendo passado por uma etapa uterina de ambientes bem agitados, ao ser acolhido pelo colo materno, logo reage positivamente, sente-se acolhida e tende a se acalmar. Sente ali seu porto seguro. 

Não há muito mistério neste processo de construção de um bebê saudável emocionalmente na vida intra-uterina. As complicações criadas são decorrentes das instabilidades emocionais dos próprios adultos, que transformam esta etapa de vida em algo cheio de dificuldades. Vejo que a maior angústia das mulheres que geram filhos hoje está na perda do domínio onipotente delas mesmas. A criança no ventre é uma incógnita na qual a mãe não pode controlar. Numa sociedade que conduz as pessoas ao controle onipotente de tudo, a gravidez pode representar um drama. O drama do que não se pode ver e não se pode dominar.

A melhor posição sobre uma gravidez é esperar com esperança. Simplesmente construir ambiência de acolhida e afeto. Depois, as outras etapas seguirão suas outras necessidades e expectativas. Sabemos que o amanhã é resultado de um hoje. Para cada dia, basta vivê-lo na espera. O tempo passa no tempo exato em que deve passar. Não temos este poder de provocar a mudança do tempo que corre segundo por segundo. O que são nove meses para quem poderá viver pelo menos noventa anos?  A vida intra-uterina é a base deste existir e deste desejar vivendo.
 



 
 
 
 


 


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