Trabalhando a morte na criança

Publicado em 12/04/2017


A criança elabora o mundo ao seu redor através da fantasia. Ela não consegue entender os fatos da realidade com os elementos da realidade. Elabora através do brincar. Por isso, a sensação que os adultos têm quando estão com as crianças e que por algumas vezes os irritam, é que são lunáticas, não entendem regras e ficam no mundo delas. Isso é plenamente real. Muitos adultos pensam que a criança absorta na fantasia está doente.

Este limite entre a fantasia e a realidade no mundo infantil, cria um descompasso com o mundo dos adultos. Só para observarmos na prática este descompasso, vamos olhar para o sistema educacional imposto às crianças. Um processo com horários rígidos, disciplinas e uma enxurrada de matérias. Querem enquadrar as crianças no mundo dos adultos, mas o resultado é desastroso. Pena que no final sobra pra as crianças, que depois precisam ser domadas com medicações para poderem se adequar ao mundo dos adultos.

Nossa proposta agora é pensarmos sobre a morte no mundo da criança. Os pais sempre me perguntam o que devem fazer com o tema da morte, como trabalhar esse tema com os filhos. No mundo infantil toda forma para ajudar a criança entender algo é através da fantasia e por isso deve ser de forma lúdica, pelo brincar. E quando falo de brincar, não estou me referindo só a brinquedos, mas sim da disponibilidade de proporcionar o ambiente fantasioso para a criança.

Mas como fazer isso, com um tema tão difícil de ser aceito pelos adultos? A morte no mundo dos adultos é algo cruel. É a possibilidade do encontro com o maior limite humano que é o morrer. Adultos que lidam com a morte e o morrer de forma mais tranquila, certamente conseguiram fantasiar com seus filhos sobre o tema com mais facilidade. Saberão entrar na aldeia da fantasia e poderão construir junto com a criança uma melhor relação com a morte.

Desde o nascer a criança já está elaborando a morte. Ao nascer, a criança morre para o ventre materno, os nove meses em que não precisava fazer nenhum esforço para se alimentar, pelo cordão umbilical a criança é nutrida. Quando entra no novo mundo seu alimento só chega se buscar o seio da mãe. Lógico que, ao entrar no mundo da criança recém-nascida, a mãe conduzirá pelos braços o bebê até os seios, e isso não é tão simples assim. Tenho uma amiga enfermeira que hoje só trabalha com mães com bebês recém nascidos, orientando-as ao aleitamento materno. Ai vai todo um envolvimento da mãe para ajudar seu filho se alimentar.

A cada dia a criança lida com perdas. O ato de perder é o ato de lidar com a própria morte. A postura dos adultos de não serem protecionistas a ponto de pouparem a criança da dor das múltiplas perdas que o dia a dia reserva, pode favorecer para a criança elaborar com mais tranquilidade uma perda. Do contrario, se no lugar da perda, os adultos colocarem um substituto compensatório para evitar o sofrimento momentâneo daquela perda, dia após dia este processo compensatório se alimentado na fantasia da criança, poderá tornar-se uma pessoa com baixo limite para enfrentar a dor das perdas e principalmente da perda de maior que é a morte. Com isso abre-se um campo amplo de possibilidade de patologias comportamentais, desde depressão até pânicos.

Gosto muito dos contos de fadas, os textos originais são cruéis. Sempre haverá um contexto em que o bem e o mal, a vida e a morte, estarão se interagindo. Poucas escolas usam os contos de fadas em suas versões originais para serem lidos aos pequeninos na integra. O argumento é para que as crianças não fiquem assustadas, acreditam que elas podem ficar traumatizadas. Ao contrario, estes contos na íntegra ajudam as crianças a entenderem de forma fantasiosa a realidade da vida no que tange às perdas, à morte e à maldade.  Quer ter uma criança forte e corajosa, deixe-a fantasiar a morte.

Quando a criança cria um peixinho no aquário e este vem a morrer, a mãe pega o peixinho morto, joga na privada e dá descarga. Logo, já compra outro para substituir. Com essa atitude estará interrompendo o luto pela perda que o filho teve em relação ao amigo peixinho. Assim, estará “coisificando” a morte e dificultando a elaboração da perda desde criança. Pois aquele peixinho é na fantasia da criança um ser importante para ela, e com este ritual de descarte estará neutralizando a dor, o luto. É melhor pegar o peixinho e fazer o ritual do enterro. Quem sabe até fazer no fundo do quintal ou em uma praça um buraco e enterrar o bichinho morto, criando uma fantasia de caixão e sepultura. Uma fantasia sobre a perda do amiguinho peixe. Ai sim estará colaborando para a construção de uma mente capaz de elaborar a perda pela morte conforme a sua idade. E, quando já estiver adulto,  a morte não será um drama, mas uma realidade a ser encarada, vivenciada e elaborada.

A cada limite educacional que uma criança precisa passar ao longo da vida, ela estará se deparando com uma morte. Por isso é melhor a criança aprender a enfrentar a morte e consequentemente saberá entender os limites educacionais. Porém tanto na morte como nos limites educacionais, haverá sofrimento e angustia sentimentos necessários para se superar perdas. As compensações materiais para se evitar a dor só contribuem para formação de uma criança frágil.


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