A REPRESSÃO SEXUAL E AS DOENÇAS COMPORTAMENTAIS

Publicado em 24/04/2017


Em 1908 Freud escreve “O nervosismo moderno e a moral sexual vigente”, alertando para a rígida moral sexual da época e localizando que a rigidez no controle da sexualidade resulta em adoecimentos, criações de hábitos comportamentais, tipo obsessões, e uma série de comportamentos patológicos. Naquela época, Freud já dizia que a maioria das pessoas não suporta uma quantidade exagerada de repressão sexual. 

Imagina Freud, escrevendo este texto em uma sociedade aristocrática como era Viana na época. Foi mais um escândalo. E por incrível que pareça até hoje continua sendo um escândalo, tanto para grupos que se agregam a uma moral sexual rígida quanto para grupos que não se apegaram a nenhuma moral. O problema é que ainda hoje pensamos a sexualidade a partir dos órgãos genitais e do prazer que deles emana. Freud continua sendo pouco entendido. É ainda um sujeito para além deste tempo também.

Freud compreende a sexualidade como uma construção que conduz a elaborações psicoafetivas. Isso já podemos identificar no conjunto geral de sua obra. Se apegarmos a fragmentos de textos ou casos clínicos que por ele eram escritos na busca de fazer o seu leitor visualizar suas elaborações teóricas, teremos a tendência de dizer que Freud é o tal “sugismundo Freud” , uma brincadeira muito corrente no mundo religioso em analogia ao seu nome completo, Sigmund Freud. 

A atividade sexual em Freud não se restringe aos órgãos genitais, nem mesmo ao período que começa a adolescência com a maturação dos hormônios sexuais, em Freud pode ser elemento sexual tudo que produz prazer supérfluo. Como é o exemplo que ele mesmo dá no seu texto “Três ensaios de uma teoria sexual”, de uma criança que chupa o dedo, como se estivesse chupando os seios. Assim ele vai elaborando a “teoria dos objetos inconscientes”. 

Quando um cidadão comum, pastor, padre ou religioso mais fanático e apegados a uma moral sexual rígida, leem este tipo de teoria vão dizer que é um absurdo e que em Freud tudo gira em torno de sexo.

Mas fogem tanto do prazer que mesmo o reprimindo, o corpo vai manifestar sintomas relacionados na forma de patologias comportamentais. Já atendi muitos casais praticantes de religiões com normas sexuais rígidas e que buscaram por tratamento por apresentarem alguma disfunção sexual que já estava comprometendo o casal. São vários os problemas, mas só para ilustrar vamos citar um: Um casal com 5 anos de casados, seguem as normas de seu grupo religioso de não poderem dormir juntos quando a mulher  não pudesse ter relação sexual, pela menstruação, ou para se evitar filhos no período fértil dela e até mesmo em épocas de semanas religiosas, como por exemplo na semana santa. Eram formados na concepção de que masturbação é pecado e o casal não poderia ter contato de manipulação dos genitais sem o ato sexual completo. Como entre a menstruarão e o período fértil da esposa passavam-se quase 15 dias o casal tinha pouca proximidade dos corpos e não estavam mais  se atraindo um pelo outro. A partir dai, ele começou a ter compulsão masturbatória; toda e qualquer mulher que via na rua, em filmes ou novelas, tinha muita excitação sexual e só  conseguia conter tal estímulo com a masturbação. Ela por sua vez desenvolvera um hábito compulsivo por limpeza da casa e com a higiene pessoal. A complexidade chegou a tal ponto que o casal ao estarem aptos ao sexo genital dentro das normas morais que se sujeitaram, não conseguiam ter relação pois ele não conseguia a ereção peniana e ela ficava com extrema higienização da cama, quarto e seu próprio corpo. Quando conseguiam ter relação, ela corria logo para o banheiro para se limpar por nojo do esperma do esposo. 

Veja que a norma rígida levou o casal a desenvolver meios de fuga da energia sexual acumulada. Neste caso que descrevi, o casal se limitava inclusive de carinhos e caricias no ambiente familiar. Assim a repressão intensa foi se configurando como uma represa no rio corrente sem a vazante. Chegou uma hora que a represa explodiu.

Mais do que investir em uma sexualidade que se restringe a pontuar o prazer apenas nos órgãos genitais, é importante construir uma sexualidade que libere a busca do prazer para além dos genitais. Um prazer que esteja livre para se manifestar em todos os campos de existência humana. A sexualidade precisa correr livremente seu leito e desaguar na forma de expressar a vida com prazer, alegria e felicidade. Assim, o gozo genital não será nada mais do que um gozo genital.


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