BELCHIOR, PATRIMÔNIO DA CULTURA BRASILEIRA

Publicado em 05/05/2017

A morte de Belchior no último dia 30 de abril, na sua residência em Santa Cruz do Sul / Rio Grande do Sul, deixou o Brasil em luto. Este não é um fato muito comum quando o país perde um artista. Geralmente um nome forte do meio artístico mobiliza uma parcela da população que se identificava com o seu gênero. No caso de Belchior observei que várias pessoas de diferentes idades falaram da morte do cantor e compositor. No seu velório, em sua terra natal, Sobral – CE e depois em Fortaleza- CE, milhares de pessoas passaram para se despedir do cantor, um público diversificado em idade, classe social e educacional.
 
Belchior conquistou o coração e alma do povo brasileiro na década de 70, e sua obra foi interpretada por diferentes músicos de diversos gêneros musicais. Com esse leque de penetração ao longo de sua carreira, Belchior conquistou notoriedade e sua música perpassou épocas e continua no imaginário popular  brasileiro.

Conversando sobre Belchior em uma roda de amigos, surgiram comentários desqualificando a pessoa dele por ser um homem que abandonou filhos, seguiu trecho com uma amante e deixou de pagar pensão. Informações que não temos certeza, e que são aspectos pessoais de fórum íntimo. Uma outra pessoa de prática religiosa mais conservadora dizia que Belchior compunha músicas para seu amante homem, dizia que ele era homossexual. Outra informação que também não podemos confirmar e que diz respeito também ao fórum íntimo do artista.
 
Saber diferenciar o que é a produção artística/cultural do que é vida íntima, é um limite que por muitas vezes não gostamos de navegar. Nossa sociedade julga o sujeito por aparências e mistura questões técnicas com pessoais. É como se eu, como psicólogo, tivesse que ter uma vida sem neuroses. Ou mesmo, se na minha família, com meus filhos, tivesse a obrigação de ter uma conduta plenamente equilibrada. 

Se estou em um ateliê e compro uma obra de arte, não a compro porque sei da vida íntima do artista plástico que assina a obra, a compro pela identificação com a obra. Por isso que as biografias autorizadas, pelo menos as que eu já li, ficam a dever pois misturam obra com vida pessoal. De fato há situações em que a obra se dá no contexto da vida pessoal do artista, mas nem sempre. Ao ler biografias de artistas que sempre admirei o trabalho, encontrar ali elementos que chocam com a minha forma de pensar a vida ou vivê-la, corro risco de desencantar-me pela obra. Por isso que entendo certo incômodo dos artistas em relação às biografias autorizadas. Precisa haver critérios entre o que é público (obra) e o que é privado (pessoal). 

Belchior traz em sua obra, poética e musicada, o cotidiano amoroso e cultural de uma nação. Poetiza com nostalgia a cor. A nostalgia brasileira que sempre foi camuflada pela grande mídia, como se o brasileiro fosse sempre alegre. Na verdade Belchior mostrou o lado triste com as cores, e o resultado foi à estética da alma brasileira. Sua música não falava de sua nostalgia, Mas da nostalgia do povo o qual ele estudara e tinha conhecimento. Porém sua música penetra a alma e não nos deixa tristes, mas sim desejosos e esperançosos.

Uma das últimas entrevistas de Belchior foi concedida a Globo News em 2005. Nela, Belchior estava muito entusiasmado com seus projetos. Tinha lançado um trabalho sobre Carlos Drummond de Andrade. Na entrevista, Belchior revelava-se um grande pesquisador da cultura brasileira. Estava no seu silêncio midiático, pois não era muito vinculado ao círculo de glamour artístico, no entanto em franco processo de pesquisa.
 
Depois o sumiço por mais de 10 anos, o que trouxe muitas hipóteses, umas reais e outras especulações. Prefiro fixar na sua biografia que esse sumiço diz respeito ao que ele mesmo disse: “auto exílio”. 

Esta diferença Belchior já tinha, sempre argumentava os episódios com um olhar diferenciado. Na década de 70, quando o movimento estudantil no Brasil, na sua clandestinidade tentava minar o sistema militar, Belchior entendia que o caminho não era pelas grandes manifestações, mas sim pelo processo anárquico. Isto, vamos encontrar em uma entrevista que ele concedeu na época no jornal O Pasquim. Algo parecido com que o filósofo francês, Félix Guattari, já preconizava sobre a transformação da sociedade que passa pelo processo das micropolíticas onde a revolução se dá pelos micros movimentos com postura definidas até atingir ao macro movimento. 

Belchior para além de músico e poeta, um pensador orgânico. Eu ainda esperava que fosse ele, renascer das cinzas, imaginava que estava gestando algo e voltaria ao cenário com força. Mas Belchior embarca no limite do corpo. Porém sua alma produziu imaginações que nossas almas mortais continuaram lembrando, reproduzindo e inspirando. Sua obra permanece entre nós, e por isso a sua pessoa já deixa saudade. 

Que venham novos poetas, músicos, intelectuais com sua ousadia de pensar nossa cultura como ela é. 


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