SEXO E RELIGIÃO – SOBRE HOMOSSEXUALIDADE

Publicado em 18/05/2017


Entramos aqui no último artigo desta série, em que venho analisando sobre sexo e religião a partir das pesquisas do estudioso de religião da Universidade de Bergen/Noruega, Dag Oistein Endsjo. (Se ainda não leu os artigos anteriores, é interessante conferir. "Sexo e Religião & suas diversas regras" ; "Sexo e religião - algumas especificidades" e "Sexo e religião - Sobre masturbação" )

O tema é mais polêmico para a cultura brasileira, mas já podemos perceber na população grande evolução na forma de pensar e encarar a homossexualidade. Contudo, ainda temos no Brasil um alto índice de violência contra homossexuais e principalmente transexuais. Em contra partida é o país com maior número de pessoas heterossexuais acessando pornografia com transexuais. Um paradoxo que alguns justificam pela forte tendência à bissexualidade do brasileiro, que por sua vez nega esta tendência a partir da prática da homofobia. Um dos fatores no Brasil que levam as pessoas a negar a homossexualidade é a prática religiosa. Mas parece que a negação intensa em alguns setores é a negação daquilo que percebem na própria condição, mas negam na prática. A homossexualidade do outro, desperta a bissexualidade do sujeito que a nega. Segundo Oistein, não há nada no fenômeno religioso que forneça subsídios para que determinada religião seja homofóbica.

O conceito da homossexualidade só foi inventado no século XIX. Contudo, a relação sexual entre indivíduos do mesmo sexo já podia ser notada na história. Na cultura Grega a homossexualidade estava muito ligada à religião. Zeus se apaixonou pelo jovem Ganimedes e o levou para o Olimpo. Apolo estava perdidamente apaixonado por Jacinto. Para o poeta Píndaro no século V.a.c , o amor de homens mais velhos por jovens era inspirado pelos deuses. 

Os mosteiros Budistas eram famosos por abrigarem casos homossexuais. Alguns ingressavam no mosteiro exatamente por causa do amor por outro homem. A partir do século I a.c, o Budismo passou a desempenhar um papel importante na China e com isso a homossexualidade masculina era aceita pela elite social daquela nação. “O Bodhisattva Cabo Danshi, que instituiu Mitsuo no sexo entre homens, costumava ser visto como responsável pela introdução tanto no Budismo esotérico como do sexo entre homens no Japão do século XI.” (Dag Ointein, 2014).  A homofobia tomou força na China com a tomada dos comunistas ao poder.

Por interferência internacional com o desejo das autoridades japonesas de modernizar o país, em meados do século XIX foi introduzida a proibição do sexo entre homens. Assim, a homossexualidade foi perdendo o seu papel central na religião. 

Entre as religiões ocidentais com maior dificuldade para aceitar a homossexualidade estão o Judaísmo, o Cristianismo e o Islã. Em Levítico 20,13 está escrito “se um homem deitar com outro homem como se fosse mulher (...) serão punidos de morte e levarão a sua culpa”. A condenação sempre parece estar associada ao ato da penetração anal. Pois há passagens bíblicas que mostram o encontro homoerótico sem a conotação genital que está desprovida de punição, como é o caso do texto I Samuel 18, 1-14 “... a alma de Jônatas apegou-se a alma de Davi e Jônatas começou a ama-lo como a si mesmo (...) os dois homens apreciam beijar-se e sua relação é comparada a um relacionamento heterossexual.” 

São Paulo vai enfatizar a prática da homossexualidade como condenável e que causa o distanciamento de Deus (Romanos I). 

Houve períodos em que o Cristianismo deu menos importância sobre a questão da homossexualidade, como aconteceu no Concílio de Elvira na Espanha no início do século IV. Contudo, em 390 o imperador Cristão Teodósio instituiu uma lei que punia com a fogueira qualquer um que transformasse seu corpo masculino em feminino, por hábitos ou costumes. 

Ao longo da história a homossexualidade masculina sempre foi mais perseguida e as sansões geralmente eram para as práticas sexuais entre os homens. No caso das mulheres, que eram menos observadas, não se dava muita relevância. Há situações de condenações, porém com menos rigor do que os homens. Mesmo assim a homossexualidade feminina teve seus episódios de homofobia, como aconteceu com o teólogo Franciscano Ludovico Maria Sinistrari, que em 1770 em seu comentário a lei canônica, citou que a mulher teria que ser culpada de sodomia se tivesse um clitóris muito desenvolvido capaz de poder penetrar outra mulher. 

As regras para a homossexualidade se modificavam conforme o nível hierárquico dos cristãos. O papa Leão IX rejeitou a ideia de destituir dos cargos o clérigo que tivesse envolvimento homossexual. No século XVI o Papa Julio III era notório por seus relacionamentos sexuais com jovens rapazes e chegou a ordenar cardeal seu amante de 17 anos chamado Innocenzo, o que foi motivo de escândalo entre os católicos e alegria entre os protestantes. 

No Islã, não há homofobia por princípios religiosos, porém entram em concordância com os Judeus e Cristãos a partir do texto bíblico que narra sobre os habitantes de Sodoma. Entretanto, o alcorão prevê sansões mais amenas. Parte dos muçulmanos acredita que existe homossexualidade no paraíso ao entenderem o relato de “jovens ternos”, “formosos como perolas” que servirão os homens no paraíso. 

Adepto do Sufismo, Muhammad Al-Nafzani no século XVI em seu livro “O jardim perfumado” fala sobre a alegria do sexo entre homens. 

Já entre os Hindus o Kama-sutra ensina como os hijras podem viver como cortesãos e desfrutar do sexo com homens. Na índia a proibição ao homossexualismo não tinha relação direta com o Hinduísmo. A lei baseava-se em um trecho da legislação introduzida pelos Britânicos em 1860 sem ter relação alguma com a tradição local. Assim, como aconteceu com o Japão e China, processo que se deu o nome de Colonialismo homofóbico. 

O tema da homossexualidade é espinhoso até os dias de hoje e encontramos diferentes formas de interpretar as normas sagradas em uma mesma religião e dentre as diferentes religiões. 

Ao longo da história observa-se que o homossexualismo foi tratado com uma forte conotação homofóbica onde as normas civis ou religiosas se aderiam ou se mesclavam para dar força à rigidez homofóbica. Também temos a força do mercado ocidental para com os países do oriente e do terceiro mundo como uma forma de fazer impor a moral dos países colonialistas ou de domínio mercadológico, para que a moral fosse aquela vigente no país colonizador.  

Com os avanços dos Direitos humanos, observa-se que em diversos países há uma maior acolhida à homossexualidade influenciando inclusive as regras jurídicas em cada pais. Mas sabemos que muita gente ainda sofrerá pela intransigência religiosa e pelo homofobismo cultural do ocidente. 

Hoje, na cultura ocidental, pela força que ainda exerce o Catolicismo, temos posturas muito evoluídas e ousadas do Papa Francisco, que tem levado seus fieis a verem a questão da homossexualidade sem julgamentos e com um olhar de acolhida e misericordioso. O próprio Papa em entrevista a um jornalista brasileiro disse: “Quem sou eu para julgar a vida de um homossexual?”

Quando as religiões perdem seu principal fio condutor que é a prática do amor, valor que é propagado nas principais religiões do planeta, como se fosse “fio de ouro” comum em todas as religiões, já observado por Chiara Lubich, eles tornam-se leis rígidas para punir, controlar e culpabilizar. Eu não tenho dúvidas, que se Jesus Cristo tivesse que se encontrar hoje no Brasil com alguém em praça publica, como fez com a mulher samaritana na sua época, pois os homens não podiam conversar com as mulheres em praça pública, hoje ele estaria se encontrando com um homossexual. Pois vejo que a questão da homossexualidade no Brasil ainda é o maior tabu de todos os tabus. 


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