Neuropatia e arte, caminhos para a superação

Publicado em 26/06/2017


No domingo, 25 de junho de 2017, o programa da TV Cultura de São Paulo “O Milagre de Santa Luzia” trouxe a reportagem sobre a obra do artista plástico contemporâneo Francisco de Almeida. Francisco é portador de uma doença degenerativa cerebral que a cada ano que passa tem sua estrutura muscular sendo paralisada. É uma forma rara de neuropatia que compromete toda sua função psicomotora para a fala e também os membros superiores e inferiores.

Porém, Francisco de Almeida é um dos destaques da arte plástica contemporânea no Brasil e o programa, que a meu ver, é um dos melhores programas da TV brasileira no resgate de grandes talentos musicais e artísticos dos rincões do Brasil, trazendo para a TV nomes que nunca seriam vistos pela grande mídia. É um tirar o Brasil da gaveta que tanto o Rolando Boldrin preconiza em seu outro programa também da TV Cultura “Senhor Brasil”.

O que me impressionou na produção de Francisco é o forte uso das cores e das tramas que desenrola na sequência em grandes painéis horizontais, com detalhes preciosos. Há nesta obra um misto de primitivismo com um olhar contemporâneo. Durante a entrevista ao programa, Francisco fez um comentário que achei digno de uma pessoa evoluída, destas que já chegou ao topo da existência e  conjuga a felicidade em seu cotidiano: “Sei que um dia minha estrutura física vai paralisar. Ai eu poderei contemplar a minha arte. Ai está a vantagem de se fazer arte”.

Vejam como nesta fala de Francisco, o seu desenvolvimento no mundo das artes lhe trouxe um aconchego para sua debilidade física. Não vê sua doença como um empecilho e nem como um limite. Pela arte ele consegue ter uma esperança sobre seu futuro, a de poder descansar contemplando sua obra. É simplesmente divina esta postura.

Sabemos que a arte é instrumento de ajuda terapêutica para diferentes projetos assistenciais e instituições de recuperação. A chamada arte terapia é um valioso recurso para levar pessoas com problemas de saúde ou necessidades de recuperação a superação da dor pela alegria que a arte proporciona. Nas escolas a arte tem sido praticamente banida da grade curricular  e isso representa um retrocesso no processo educacional brasileiro. O psicanalista Winnicott já nos orientava que a arte liberta, ajuda o ser humano a simbolizar e faz com que as interações humanas se tornem mais agradáveis. Sempre que temos grandes eventos mundiais, principalmente nos esportes, temos as aberturas e fechamentos dos jogos com forte enfoque na produção artística e resgate cultural das nações. Levar as crianças e jovens a se apaixonarem pelas artes é um passo na construção de uma geração de pessoas adultas com maior possibilidade de pontuarem a felicidade.

Eu tenho exercitado o aprendizado da arte neste último ano. Procurei o artista plástico Caio Cruz para aprender a pintura a óleo e desenho. Observei que durante este ano que dediquei um horário semanal neste aprendizado, tenho desenvolvido uma força interna e esperança no amanhã de forma impressionante. Coincidentemente faço minhas aulas as sextas sempre no final do expediente, após uma semana de atendimento clínico diário. Mas é incrível, chego à noite de sexta como se não tivesse trabalhado tanto durante a semana.

Já atendi muitos pacientes vítimas de doenças auto-imune, destas que surgem do nada e que o estado emocional pode fazer piorar os sintomas ou melhorar. Estas doenças são favoráveis para uma ajuda psicoterapêutica de suporte, por isso que médicos melhores formados sempre indicam um acompanhamento psicológico a estes pacientes. As diferentes formas de neuropatia também trás muita desesperança aos pacientes, pois geralmente são quadros de perdas irreversíveis, progressivas. Nesta experiência de Francisco de Almeida, pela arte ele conseguiu seu suporte para o enfrentamento da doença. E quem está ganhando com esta postura dele é a arte brasileira. 

Se você procurar por este programa, com certeza deve encontrar o arquivo, ou pela TV Cultura ou pelo youtube.    


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