PAIS NARCISOS

Publicado em 24/07/2017


O Conceito de narcisismo foi elaborado por Freud a partir de um mito. Narciso era um personagem que nunca havia visto seu rosto quando, num determinado dia, ao passar ao lado de um lago, se viu refletido nas águas cristalinas. Ficou tão encantando consigo mesmo que não saiu da beira do lago, chegando a se afogar na própria imagem. 


Freud definiu o narcisismo como um processo pelo qual o sujeito vive para si mesmo sem construir relações ou sem sair do seu próprio eu. Na Psicanálise,  temos o narcisismo estrutura, este que é natural na criança e que ajuda no fortalecimento da identidade. Ao evoluir da infância para a adolescência e desta para vida adulta, a necessidade de sair do próprio mundo e se encontrar com o outro aumenta gradativamente. O nível de maturidade adulta está na capacidade de dar sem necessariamente receber. É a dinâmica do amor, de querer fazer ao outro o melhor sem necessariamente ter que receber este amor de volta. 


Porém, observamos uma forte dificuldade dos pais contemporâneos em sair do próprio eu para atuarem como provedores na educação de seus filhos. Um dos elementos que observo ser de maior dificuldade nos pais é o que tange o brincar e os brinquedos. Os pais brincam muito pouco com seus filhos com a desculpa da falta de tempo. Mas mesmo em momentos de lazer, ou de descanso, principalmente nos finais de semana, os pais continuam brincando muito pouco com seus filhos. Não conseguem sair do mundo próprio do adulto e de tudo que os amarra, para entrarem no mundo da criança. E só se entra no mundo da criança pelo brincar. A linguagem da criança é o brincar. Assim, quando os pais não conseguem sair do próprio mundo para adentrar no mundo dos filhos estão confirmando o narcisismo pessoal. Lógico que o narcisismo estrutural da criança clama pela presença intensa de seus pais. Mas estes, estão absortos no narcisismo pessoal, que na vida adulta é patológico.


No brincar temos os brinquedos, e aqui aponto  outro elemento para constatar ainda mais a dificuldade dos pais em saírem do próprio mundinho. Quando compram os brinquedos para os filhos, não compram aquilo que eles gostam ou aquilo que de fato precisam , compram os brinquedos que satisfazem a eles mesmos, pois escolhem o que não tiveram a oportunidade de ter na infância e despejam essa frustração em seus filhos. Como não tiveram e não brincaram, oferecem algo que só satisfaz sua necessidade pessoal frustrada, e, assim, não conseguem se interagir por que não brincaram com aquilo. Neste sentido vemos mais um golpe narciso dos pais. Super abundam os filhos daquilo que não puderam ter na infância. E isso não se dá apenas na compra de brinquedos, mas também nos excessos de compromissos que atribuem aos filhos como: esporte, música, línguas, escolas integrais, babas... Investem alto na educação para que seus filhos consigam o sucesso que eles mesmos não conseguiram. 


De narciso para narciso, vemos o alongamento dos encontros. O narciso criança que precisa do adulto para espelhar e crescer para um dia deixar o narcisismo estrutural do narciso adulto, que continuou olhando para si mesmo e não consegue dar-se ao próprio filho. Assim, temos o território fértil para o consumismo. Algo que aumenta os olhos dos publicitários e do comércio. 


Quando os pais procuram sair do próprio eu de adulto para entrar na vida dos seus filhos conforme cada etapa, provocam um benefício inestimável que é a plena satisfação do processo de se doar. Um santo remédio contra o stress adulto.



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