COMO NASCE A CRIATIVIDADE HUMANA

Publicado em 09/08/2017


O processo criativo é o grande diferencial do ser humano dentre todas as espécies do planeta Terra. Enquanto os animais são codificados geneticamente para se comportarem ao longo da vida, com cada ciclo específico, da mesma forma, repetindo assim ao longo dos anos os mesmos hábitos; os seres humanos conseguem mudar hábitos pela construção da subjetividade, pela simbolização, pela estrutura cultural que desenvolvem no coletivo onde vivem. Assim, temos a vida humana diversificada conforme fatores geográficos, climáticos e de capacidades de desenvolvimento cognitivo e elaboração cultural (hábitos elaborados no coletivo). Não somos os mesmos no planeta, apresentamos diferentes formas de se expressar, de se projetar e de conviver no coletivo. 

Um dos legados humanos é a criatividade, ou a criação ativa. Somos capazes de inventar, de nos adaptarmos às diferentes realidades conforme a capacidade de criação. A criatividade humana é o fator prioritário que pode levar uma pessoa ou um grupo a fazer a diferença. Um dia alguém, ao observar pássaros voando, desejou voar como um. Depois, em vários processos de tentativas e erros, surgiu o avião. Por necessidade de se transportar mercadorias em maior quantidade do que os animais de carga suportavam, surgiu a roda. Há muitas hipóteses sobre como se chegou à roda, uma brincadeira é que ela era quadrada e, de tanto o quadrado andar empurrado por homens, ela ficou redonda, e o processo de transporte ficou mais rápido e ai se instituiu a roda.

Se a criatividade é o maior diferenciador do ser humano em relação aos outros animais, surge a pergunta: “Como nasceu a criatividade?”, para esta pergunta há milhares de possibilidades conclusivas. Uma delas e a mais óbvia é pela necessidade! Isto é, pelas exigências do cotidiano moldamos hábitos e comportamentos para facilitarem a vida. Mas podemos buscar uma forte argumentação na psicanálise, através da reelaboração teórica do médico pediatra Winnicott, que foi analisado pela Psicanalista inglesa Melanie Klein. Melanie Klein explorou um processo que Freud já observava, a saber, a brincadeira de esconde-esconde de um menino com um carretel, em que o carretel desaparecia debaixo do sofá e ao puxar de volta o carretel reaparecia. Freud associou esta cena com o processo de separação do filho com a mãe. Assim, com a introdução que Winnicott teve à psicanálise infantil, cuja Melanie Klein é protagonista, ele formula sua ótica a partir do vínculo afetivo mãe/filho. Este médico elaborou seu pensamento sobre o vínculo afetivo por ter organizado processos de acompanhamentos de crianças no abandono após a segunda guerra mundial. 
Para Winnicott, a criança estabelece o elemento de vínculo com a mãe através do bico dos seios, quando do processo de amamentação. O bico é o objeto que intermedia a criança e a mãe. A relação que a criança estabelece com a mãe é ludicamente transferida ao bico dos seios, que será um objeto favorável ou desfavorável. A mãe é quem vai estabelecer essas forças, se for “mãe suficientemente boa”, (termo elaborado por Winnicott), a criança terá no objeto seio um vínculo lúdico muito satisfatório, ou, se a mãe não suprir as necessidades afetivas do bebê, este seio poderá ser persecutório ou provocador de ansiedade. Vale ressaltar que toda vez que falamos em “mãe” não nos referimos necessariamente à mãe biológica, ou mesmo à mulher, mas àquela pessoa que cuida da criança nos primeiros meses de vida. 

Com a evolução do bebê para outras etapas do desenvolvimento humano, o bico dos seios perde a importância e a criança transfere para outros objetos a relação de intermediação de afeto. Winnicott vai chamar de “objeto transicional” o elemento que a criança vai apega para, aos poucos, separar-se da mãe. Como é o caso da chupeta, das fraldinhas e depois dos bichos de pelúcia, dos brinquedos. Assim, a criança elabora sua perda com a mãe e se reencontra ludicamente com o mundo, usando para isso a fantasia transferencial em relação a objetos, brinquedos e brincadeiras. 

Deste processo nasce a criatividade humana: da capacidade de se desvincular projetando fantasiosamente em objetos, pelas brincadeiras e, das brincadeiras, aos projetos pessoais. Aqueles em cujo processo educacional foi possível se aventurar pela fantasia, especialmente nos primeiros anos de vida, a criatividade terá terreno fértil para crescer. Devemos entender aqui que a criatividade não está só relacionada com a capacidade de criar algo novo ou inventar, mas sim com a capacidade de se vincular ao mundo de forma prazerosa. 

Podemos observar que o fenômeno da criatividade se dá em pessoas que tiveram perdas, que não tiveram a capacidade de estabelecerem um bom vínculo materno filial. Aqui, quando não houve o vínculo e o seio materno deixou de existir enquanto objeto de transição, o ser humano pode estabelecer a busca por objetos que lhe representariam um processo de simbolização fantasiosa com o mundo, a ponto de se superar na própria criatividade. Esta pode ser a explicação para muitos casos de grandes artistas que tiveram uma vida privada de afeto e ao mesmo tempo conseguiram se reinventar pela criatividade artística. 

No geral, pela superação materna, o ser humano vincula-se ao mundo pelos “objetos transacionais” e consegue sobreviver a vida mesmo que o cotidiano seja árido, graças a transferência e a projeção das fantasias no mundo e na potencialidade para a criatividade. É preciso ser muito criativo para viver a realidade cruel da sociedade. 

Quando a potencialidade transferencial é bloqueada e o sujeito perde a capacidade de simbolizar, fantasiar e criar, a vida torna-se uma expressão de angustia, medo e ansiedade. Tudo torna-se cinza sem tonalidade, é preciso ver as cores nos diferentes tons de cinza, cuja arte do desenho pode muito bem nos ensinar. Pois no desenho podemos ilustrar o tom das cores sem que haja cores. Só podemos ver o que não é possível de ser visto, por causa da fantasia. Só podemos fantasiar por que evoluímos dos seios da mãe para o mundo. Só criamos porque projetamos nossos desejos pela imaginação e pela ação manufaturada. Só podemos fazer tudo isso, porque somos humanos. E se humanos, estamos movidos pela força e energia existencial do afeto.
 


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