A criança que dorme no quarto dos pais

Publicado em 18/09/2017


Algo que parecia ser um hábito já superado pelas famílias, dado a quantidade de informações disponíveis aos pais, principalmente com o advento da psicologia nos múltiplos programas de debates da TV brasileira, ainda continua uma pedra no sapato de familiares que não sabem como agir diante das manhas dos filhos, sobretudo aquelas da hora de dormir.

Logo ao nascer o filho traz uma sensação de fragilidade, daí a necessidade da superproteção, e uma delas é colocar o bebê ao lado da cama do casal. Mas como ele ainda é um ser muito indefeso, há uma boa justificativa. Alguns pais, acreditando que estão agindo sem protecionismo, já colocam o bebê no quarto dele, porém enchem de aparatos tecnológicos para o monitoramento do filho: câmeras, detector de som, etc. Nem conseguem dormir direito e até o som de um pernilongo já é motivo de atenção vigilante.

Passa o tempo e a criança ainda está no quarto dos pais ou no próprio quarto, mas cheio de equipamentos de vigilância. Vem os refluxos, e a possibilidade da criança se asfixiar com seu próprio refluxo, são as alterações intestinais, o risco de cair, febres, gripes, enfim, uma série de possibilidades que dificulta a retirada do olhar super protetor dos pais.

Depois chega a fase dos terrores noturnos, isso quando a criança entra no mundo da percepção de que seus pais formam um casal amoroso. Daí  vem o desejo da criança de estar muito próximo para interromper esta ligação dos pais, pois sentem que estão perdendo a exclusividade. Uma das fases mais comuns para a mente infantil criar fantasias de terror é a partir e próximo aos três anos de idade. Daí, desesperada, grita, não dorme, levanta a todo o momento em busca dos pais. E olha que este jogo  pode ir pelo menos até aos seis anos de idade. E se neste interino nascer mais um filho, ai o ciclo se repete no segundo e provoca no primeiro a necessidade regressiva de retorno ao quarto dos pais, por ciúmes do novo ser que chegou e fez o primogênito ficar em segundo plano.

Mas é muito comum vermos os filhos se apoderando do quarto dos pais até já na adolescência, e há sempre uma forte justificativa para tal hábito: Ou é o ar condicionado dos pais que gela mais, ou é por que no quarto dos pais tem banheiro, ou por que um dos pais está fora em viagem, ainda esta é uma realidade mais comum entre os homens. Ou mesmo por que a TV do quarto dos pais é gigantesca, e também por que é gostoso estar todos juntos. A última justificativa que encontrei mais bem orquestrada é por que se algum ladrão entrar na casa, todos estariam no mesmo quarto super protegidos.

Há os argumentos que tentam justificar os filhos no quarto que são formas de camuflar um conflito conjugal, principalmente se o casal está com uma incompatibilidade de ideias muito forte ou mesmo se estão em crise no campo sexual, estando os filhos no mesmo quarto vai dificultar uma DR ou mesmo impossibilitar o encontro sexual.

Quais os problemas dos filhos dormirem no quarto do casal? 

Em uma família temos a construção dos papéis de identidade. Pai, Mãe, filho, filha, casal conjugal, irmãos. Quando os pais autorizam os filhos tomarem posse sobre o quarto do casal, estão estabelecendo a quebra de identificação de papéis. Todos estão interligados de uma forma que no decorrer da história familiar vai havendo uma dificuldade na vivência dos limites a partir dos papéis. Daí pode derivar várias situações, como por exemplo, a filha querendo ser a namorada do pai e controlando os atos da mãe, denegrindo a mãe e não aceitando as regras apresentadas pela mãe; ou o pai nesta situação, se apega tanto a filha que se esquece de ser enamorado da própria esposa; também podemos ver a cena de forma inversa, onde o filho é tão apegado com a mãe que o pai é capaz de dormir no quarto do filho para a mãe poder estar protegendo seu rebento na sua própria cama.

Outro fator é a fragilidade de apresentar aos filhos a capacidade de eles superarem os limites que a própria vida vai impondo ao ser humano, como por exemplo, é o caso de se encontrar sozinho com a noite. Dormir no próprio quarto é um movimento de se encontrar com a escuridão da noite, desligar o autocontrole de estar vendo tudo e sabendo de tudo. Na noite entramos em um espaço e tempo indefinidos, na qual não sabemos o que de fato vai acontecer.

Também temos os fatores fisiológicos que são inerentes ao ser humano e que ajudam na construção da identidade de uma pessoa. É o caso da relação do bebê com o cheiro da mãe, à noite, quando o bebê está próximo da mãe, o cheiro da mãe acorda o bebê. É como se o cheiro da mãe o incentivasse continuamente a procurar pela mãe, principalmente pela necessidade alimentar. Outro elemento fisiológico é o sexual, o corpo não consegue identificar quem é pai e quem é mãe. Corpos humanos se atraem. Assim, quando um filho menino está na mesma cama com sua mãe que é uma mulher, e geralmente estão com roupas mais leves, haverá uma atração natural pelos corpos. Assim, quando a criança identifica que seu corpo se atrai com reações estranhas pelo corpo do progenitor, acontecerá uma ansiedade interna na criança, pois está sentindo coisas estranhas por aquele que é apenas o pai ou a mãe. 

Muitos são os elementos negativos que vão surgindo em decorrência dos filhos dormirem no quarto dos pais, aqui quero apresentar pelo menos mais um fator, que é a construção da insegurança na estrutura de personalidade da criança. Um super protecionismo que nas etapas futuras da vida de um filho vai dispô-lo a uma acentuada insegurança e com isso a necessidade sempre de estar protegido. Na minha experiência em Psicologia Clínica, observo nos pacientes adultos que vem em busca de  tratamento para Síndrome de Pânico, cerca de 80% de minha demanda dormiam com os pais até a adolescência. Muitos tinham seus quartos, mas só dormiam neles se tivesse mais alguém junto. Caso de filhos que dormiam com os irmãos num mesmo quarto, mas quando estes saíram de casa, foram para o quarto dos pais. Aqui vemos fortemente que o dormir no quarto dos pais é um território propício para futuras doenças emocionais, como é o caso da Síndrome do Pânico, uma patologia de difícil tratamento.

Mas qual é a melhor forma de agir? 

Não conseguimos agir diante de fatos ou realidades que não entendemos e com isso não percebemos. É preciso primeiro fazer a percepção por parte dos pais de como está a realidade desta temática em casa. Só podemos mudar aquilo que enxergamos.

Depois, é necessário os pais fazerem perguntas. Principalmente no que tange às expectativas que eles mesmos têm para com os filhos. Desejam que os filhos sejam cidadãos autônomos, independentes e bem sucedidos no futuro adulto? Então coloquem os filhos no quarto deles desde a chegada em casa, ainda bebes. Sabendo que haverá momentos de lazer em que o quarto do casal será um belo espaço afetivo coletivo. Quer um filho inseguro, instável e dependente, com pouca autonomia? Então mantenha-nos no quarto do casal, desde os primeiros dias de vida.

Sabemos que em educação de filhos, não há uma padronização do certo ou o errado. O certo e o errado estão diretamente associados com as escolhas que faço, que tipo de filhos desejo ver no futuro, que estrutura familiar acredito.

Que suas escolhas no processo de educação de seus filhos estejam claras e que suas ações como pai e mãe estejam coerentes com as suas escolhas.




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