Sobre o suicídio

Publicado em 22/09/2017


Chegou a primavera, tempo de flores e da alegria. Mas isso é um devir ou a construção de uma fantasia que não diz respeito propriamente à nossa geografia brasileira, quem sabe apenas do Paraná para baixo. Tirando alguns pés de ipê floridos, em algumas poucas áreas de reserva da mata atlântica, passamos o inverno sem muito visual das flores. Como estamos em um país onde as cidades possuem pouca urbanização com canteiros floridos, a não ser a cidade de Curitiba e região de Gramado-RS, entramos na primavera desejando flores.

Mas escolheu-se setembro como o mês de prevenção ao suicídio. Este é um problema que de fato não se pode dizer que é específico, é um problema de saúde pública. Hoje os índices de suicídio no Brasil são alarmantes. O Ministério da Saúde publicou o primeiro boletim epidemiológico sobre o suicídio no Brasil, por ocasião do setembro amarelo, mês da prevenção ao suicídio. Os dados são alarmantes:

Média de 11 mil mortes/ano por suicídio;
É a quarta maior causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos. Entre os homens é  terceiro maior motivo;
As mulheres representam 69% das ocorrências;
A morte afeta mais aos homens, 79% dos casos;
Maior índice é na faixa etária acima dos 70 anos;
Houve aumento de 12% a mais nos últimos quatro anos.

Assim, com estes índices, temos muito motivo para ampliarmos o debate em torno da prevenção. Carregamos muitos mitos por conta do ato suicida. Mitos que vão desde fatores religiosos, onde se tem a ideia que o suicida vai para o inferno ou sua alma fica vagando até atingir o desprendimento pelo ato realizado. Ou o mito de que aqueles que de fato são suicidas não dizem que desejam se matar, pois se alguém verbaliza que deseja a morte é puramente para chamar a atenção ou provocar preocupações nos familiares. Também há o mito de que o suicídio acontece em estágio de mania, onde a pessoa está muito elétrica e com o pensamento acelerado, daí provoca o suicídio.
 
O aumento dos índices de suicídio começa a repercutir no olhar coletivo. Um aumento que pode ser um crescimento real ou pode ser que agora as pessoas dizem e os episódios são revelados, as famílias deixam vir à tona o problema e o sistema de saúde de alguma forma começou recentemente a fazer investigações sobre o tema. Tanto que só agora o Ministério da saúde lança o primeiro relatório epidemiológico do suicídio. A velha pergunta:  morria muitos por suicídio e não se sabia ou de fato aumentou o suicídio? Este novo olhar sobre o problema pelo menos está ajudando a vermos de forma mais estruturada, com referenciais científicos. Hoje podemos quebrar os muitos mitos em torno da questão. Os Mitos religiosos têm sido superados pela interpretação de que Deus é misericordioso, acolhe a todos e conhece o coração das pessoas e suas intenções; no mito comportamental já sabemos que sua quebra acontece quando se detecta que o suicídio acontece no estágio de depressão comportamental, assim, ajuda-nos a ver ou antecipar-se ao problema, conduzindo a pessoa na qual observamos em depressão a um tratamento; Também o mito de quem se suicida não diz, pois hoje já sabemos que o sujeito com desejos suicida da sinal além da depressão, pela fala, com fragmentos que são  relevantes, como: quero mais é sumir, minha vida perdeu o sentido, vocês vão se ver livres de mim, um dia estarão todos me velando, eu vou me matar.

Por isso, é importante não condenar, não julgar e sim acolher a fala de alguém com estes tipos de ameaças, para colaborar com uma escuta acolhedora. Na verdade o sujeito quando pensa em se matar, está em busca de resolver um problema na qual ele acredita que não pode haver solução. Assim, é importante estar acolhendo a dor e problema da pessoa e ter uma postura de esperança para ela, de que aquele problema tem meios para ser resolvido. Como a maioria absoluta dos candidatos ao suicídio encontra-se em estado depressivo e não vêem saída para  a depressão, acolher o sujeito com o estabelecimento de uma parceria para a busca de uma solução que é possível, pode ser um forte elemento de esperança ao sujeito em sofrimento.

O alerta neste mês de prevenção, é exatamente o de se posicionar na escuta e no suporte daqueles que se apresentam em quadro de depressão ou com comportamentos auto agressivos e falas autodestrutivas. Nunca desconsidere, acolha. Um dos dados interessantes do relatório do Ministério da Saúde e que reafirma esta questão da auto-agressão, é que entre 2011 a 2016, foram registradas 176.226 lesões auto provocadas  e dessas, 48.204 foram tentativas suicida. E olha que este dado diz respeito a episódios que chegaram a ter algum registro de atendimento em equipamentos de saúde ou em delegacias. Mas sabemos que muitos episódios de tentativas de suicídio, auto-agressão e inclusive o suicídio propriamente dito, ainda são camuflados pela sociedade. Muitas famílias ainda escondem a realidade. Fazem assim por que carregam ainda o estigma de que o suicídio é uma maldição para a família. 
 
Por todas estas questões, vamos ver o suicídio como uma questão emergente e que precisa de nosso olhar atencioso e de acolhida, aos nossos familiares, aos amigos e inclusive a pessoas que não somos próximos por laços afetivos, mas estão por perto no trabalho e na sociedade como um todo.



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