NÃO CONSIGO DORMIR A NOITE!

Publicado em 04/10/2017


        A pesquisa nacional de saúde do IBGE no final do ano de 2016 apontou para um dado preocupante à saúde publica: 11 milhões de brasileiros, equivalente a 7,6% da população usam medicação para dormir. Só no estado do Espirito Santo, que é pequeno, 300 mil relatam que utilizam medicação por apresentarem insônia.
 
Sabemos que dormir é um fator de prevenção à saúde. Para um adulto a média de 8 horas de sono é fundamental para a saúde psicossomática. Quem dorme bem, vive melhor e vive mais.

Porém, os adultos que hoje não conseguem dormir sem medicação sofrem de um processo cultural que é pouco percebido e discutido dentro da temática da insônia. É a construção ao longo dos anos, desde a infância, da dificuldade de dormir a noite. São vários fatores que vão marcando o mau hábito para o dormir. 

Desde bebê os pais colocam a criança no quarto do casal com o argumento que ele estará mais protegido. Mas sabemos que o ideal é a criança desde os primeiros dias após o nascimento já dormir separado dos pais, principalmente porque o cheiro da mãe acorda o bebê com frequência. O bebê sempre estará buscando pela mãe, principalmente pelo ato de mamar. É uma atração instintiva. Bebês que dormem com os pais no quarto tendem a ter disfunções de sono. Como eles dormem muito, este detalhe não aparece. 

Depois, quando a criança já percebe que está de fato se separando dos pais, começa fantasiar com os terrores noturnos para que os pais sensibilizados possam acolhê-lo no quarto do casal. É a necessidade da proteção do quarto seguro. A noite passa ter uma conotação de vazio, de perigo e desproteção, e por isso querem a proteção dos pais. Crescer, se separar, é um perigo. 

Logo em seguida, a criança quer interromper o encontro amoroso dos pais principalmente quando entra na fase de identificação cruzada, em que se apega afetuosamente ao progenitor do sexo oposto. Daí estar no quarto do casal é uma boa forma de impedir o encontro amoroso. Desta forma os pais focam a atenção nele, filho. Tudo para si mesmo. É uma forma de narcisismo estrutural, que faz parte das etapas do desenvolvimento da criança. Com a fragilidade dos pais e até quem sabe com as crises amorosas do casal a criança entra neste conflito para ganhar o amor absoluto. Também as inseguranças dos pais, que de alguma forma provoca uma repetição dos medos que eles mesmos tiveram quando ainda eram crianças. Repetem a superproteção que receberam muito característico da cultura brasileira. Na nossa cultura brasileira os pais criam os filhos para ficarem ao redor de si mesmos.  

Nesta dificuldade que vai sendo tecida ao longo da vida, principalmente na primeira infância e que se alonga até a adolescência, o adoecer é outro instrumento que passa fazer parte da criança para provocar a presença noturna dos pais. É bom lembrar que temos uma cultura familiar que enaltece as doenças. Quando as crianças estão doentes elas ganham mais atenção, mais carinho e até presentes. Algumas nem precisam ir à escola. E a noite, ganham o centro do quarto dos pais. 

Vemos desta forma que os adultos chegam na vida adulta cheio de hábitos. Muitas vezes até parece um reviver à própria infância e com ela os medos, as ansiedades noturnas. 

Na infância eram os terrores noturnos, os sonhos cabulosos, os sintomas de bruxismo ( ranger os dentes), xixi na cama, sonambulismo, etc.. Depois na vida adulta a dificuldade de se encontrar com o silêncio, os medos de ser assaltado, preocupações profissionais, depressão, ansiedade, síndrome do pânico, hábitos televisivos e eletrônicos que provocam um forte despertar neurológico na hora de dormir. E estes hábitos eletrônicos são cada vez mais incentivados pelos pais. Difícil a casa em que os quartos das crianças não tenha uma TV, ou que as crianças não durmam com o celular ao lado. Na infância a criança fantasia, na vida adulta criamos sintomas reais, que são as doenças emocionais. A fantasia da criança alimentada pelos pais vira a doença no adulto, mas no fundo é uma repetição do passado.

O problema é que mudar hábitos antigos na vida adulta é um caminho que apenas a medicação para dormir não basta. Muitos pacientes que já tratei narravam que o sono por meio da medicação não tinha a mesma qualidade do sono natural. Pensar que só por se medicar o problema do sono está resolvido, é um grande equívoco, pois esta prática consolida outra necessidade, que é da própria medicação, a dependência medicamentosa. Devemos lembrar sempre que os tratamentos emocionais precisam ter começo meio e fim. O fim é quando a pessoa já não precisa mais de medicação pois anda por si só.

Assim, para muitos casos, de fato a medicação precisa entrar, mas a psicoterapia ajudará o paciente com insônia a entender o histórico pessoal da construção de sua insônia e procurar reconstruir novos hábitos. Sabemos que a psicoterapia aliada a medicação devidamente orientada por um especialista médico, pode ajudar na recuperação do sono natural, espontâneo. O tratamento requer a percepção e entendimento do paciente sobre suas disfunções e hábitos destrutivos do sono. Só mudamos naquilo que entendemos. 

Eu tenho exercitado o hábito de não ter TV no quarto e desligo o celular nos sistemas das redes. Meu celular só recebe chamada telefônica e me desperta pela manhã. Também tenho exercitado aerótica fisiológica com frequência, o que ajuda muito na necessidade de repouso do corpo. Disciplinei minha hora de dormir para ter uma frequência semanal de 8 horas de sono por noite e procuro dormir com o quarto bem escuro. Evito refeições próximas ao horário de dormir. Mas conquistei isso na medida em que fui descobrindo o quanto tinha um histórico pessoal de perdas de sono. Na infância por dormir em um quarto com sete irmãos e depois na universidade com o hábito de estudar até de madrugada.

Sabemos que muitos não podem se dar ao luxo de ter um ambiente tranquilo para dormir. Nas cidades grandes este é um luxo raro. Mas nas condições de cada um, é necessário buscar o melhor para que os aspectos negativos da noite sobre o sono seja menos traumático. Quando há muita claridade externa adentrando ao quarto pode ser utilizada uma viseira. Se há muito barulho, um bloqueador de ouvidos, enfim, é preciso se propor a um sono de qualidade.

Se você faz parte dos 11 milhões de brasileiros que precisam de medicação para dormir, busque uma ajuda na perspectiva de recuperar a naturalidade de seu sono. E se caso nunca teve na sua vida esta naturalidade, procure construir um caminho para se encontrar com a magnífica e fascinante aventura de dormir bem! Lembrado que aqueles que dormem bem, vivem melhor!


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