MEU FILHO NÃO GOSTA DE LER!

Publicado em 11/10/2017


Uma professora solicitou a minha orientação sobre como conseguir fazer seu filho criar o hábito da leitura. A professora estava decepcionada com o filho, que já estava no ensino médio e nunca tinha lido um livro inteiro ao longo de toda sua vida. Este menino sempre estudou em escola particular e parecia que ele lia apenas os livros que a escola exigia para as provas de livros. Também houve um tempo em que ele ganhou em primeiro lugar na biblioteca da escola por ter sido o aluno que mais retirou livros da naquele ano. 

  A professora estava decepcionada porque acreditou que toda aquela movimentação da escola em torno de livros era real. Mas o menino era muito esperto e rápido ao articular ideias e conhecimentos. Para as provas de livros ele só lia os resumos que sempre encontrava em sites ou perguntava aos amigos que haviam lido o livro. E na biblioteca ele driblava a metodologia que premia quem retira livros, pois só os retirava, mas não os lia, e a biblioteca não tinha mecanismos para saber verificar este fator, a leitura dos livros retirados. 

  O filho da professora angustiada era representava o efeito de processos pedagógicos falidos. Destes projetos educacionais em que no papel se acha lindo, mas que na prática nada acontece. As provas de livros são muito questionáveis e esta disputa de retirar livros também. 

O pior do drama da professora é que ela mesma era professora de língua portuguesa e de redação. Imaginem o que é para uma professora de português ter um filho que não gosta de ler? 

Geralmente quando pessoas angustiadas me acionam em algum meio de comunicação para pedir orientação, estão em busca de uma fórmula mágica. É o caso desta moça que esperava um melhor desempenho de seu filho na leitura por ser ela uma professora de português. O pior ainda, este caso se tornou público, pois é muito difícil que os fatos internos de uma escola fiquem guardados dentro dela. Como a professora era tida como muito criteriosa e temida por sua exigência como professora de português, ela ficou se sentindo desmascarada. Dizia-me: “Nossa, com que cara vou ficar diante dos meus alunos e pais...” 

Como não trabalho com autoajuda, não confio neste emergente Coaching (técnico), que agora é coaching de tudo dando fórmulas de felicidade para qualquer área, fiz o que sempre faço, devolvi a pergunta: “Como consigo fazer meu filho começar a gostar de ler?”. Devolvi a pergunta, pois neste caso a melhor resposta é a pergunta devolvida. Assim, consegui, após a pergunta da professora, coletar todos estes dados que escrevi até aqui. 

Depois, quando a professora esvaziou-se de sua angustia, fiz a minha segunda intermediação: “A senhora está lendo qual livro?” Ela respondeu: “Vários, pois não paro de ler, pois leio os materiais para preparar as aulas, leio livros da minha área, enfim, leio muito”. Perguntei a professora: “Mas a senhora não está lendo livro de outra área que não seja a sua ou de sua profissão?” Ela respondeu que não tinha tempo e que inclusive já fazia muito tempo que não lia nada fora da sua profissão, apenas livros técnicos. 

Pronto, temos aqui o cenário para que pudesse dar uma devolutiva para a professora angustiada. Disse a ela que leituras técnicas não medem o desejo de gostar de ler livros. Que era preciso ela começar ler uma boa literatura. Aquele livro que quando você lê é como se estivesse no cinema, vendo a cena. Livros que pudessem fazê-la se reencontrar com a leitura de forma gostosa e não de forma técnica. Lógico que esta sugestão provavelmente não iria repercutir muita coisa no hábito do filho que já se encontrava no ensino médio. Quem sabe se ela tivesse o hábito de leitura por prazer isso repercutiria, doravante, pelo menos para seus netos no futuro. Com certeza se a professora entender que livro não é obrigação, por isso provas de livros sempre não dão resultados. Pois livro deve ser introduzido como um elemento cultural de prazer, de lazer e por “osmose” cultural . O seu filho não tinha uma percepção na pessoa da mãe de que leitura era algo interessante, ao contrário, a sua mãe professora, sem querer, vendeu a ideia de que leitura é estressante.

Provavelmente a professora estava angustiada porque identificou, sem querer enxergar, dois elementos que levaram seu filho a não gostar de ler: primeiro, pelo seu perfil de professora de português com rigidez técnica. Eu mesmo sempre tive traumas com professores de português, principalmente os mais rígidos. Segundo, seu próprio contexto cultural pessoal, em que ler livros por lazer e por prazer não era um hábito. Ela só lia de modo funcional, técnico. Estes dois elementos somam-se também ao fato de seu esposo não ler nada e mesmo assim ser um profissional bem sucedido financeiramente. 

Nesta conjuntura, vislumbrei uma professora rígida e que transfere essa rigidez profissional para o relacionamento com o filho; uma escola com processo pedagógico “me engana que eu gosto”; uma ambiência familiar de baixa densidade para leitura de livros como lazer e prazer. Só poderia ser este o resultado final: “meu filho não gosta de ler”. A reconstrução deste cenário leva tempo, aliás, se o tempo assim permitir. Porém, se a professora não conseguir inserir no filho o hábito da leitura, pelo menos ela pode reorganizar-se para que a leitura em sua vida seja de fato prazerosa, seja de fato um momento de lazer. Esta mudança poderá ajudá-la a ser menos estressada e rígida como professora de língua portuguesa, e quiçá, mais feliz.
 


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