CONDOMÍNIO VERTICAL E A CONSTRUÇÃO DA INSANIDADE. COMO PREVENIR?

Publicado em 18/10/2017


A vida em condomínios verticais, muito característico das grandes cidades é uma necessidade criada pelo mercado imobiliário e que de alguma forma representa um forte símbolo do progresso. 

O sujeito que vive em cidade pequena tende a ficar comparando o crescimento da cidade com o número de prédios. É muito comum para as pessoas que saem das grandes cidades com objetivo de visitar parentes no interior, relatarem que a cidade está crescendo pelo fato de começar aparecer prédios de condomínios residenciais ou comerciais. E fica uma visão ou paisagem muito diferenciada mesmo, uma cidade apenas de residências baixas com no máximo alguns prédios com 2 a 3 andares, quando emerge um com mais de 8 andares já dá para percebe-lo no cenário. E isso é sinônimo de crescimento e progresso. Só não posso afirmar que isso signifique evolução humana para uma vida melhor.

Porém, viver em um condomínio vertical pode trazer algumas desvantagens para o desenvolvimento emocional. O sujeito acredita que está inserido em um espaço coletivo, onde reside dezenas de famílias mas geralmente ouvimos comentários de que “são tantos os moradores e ao mesmo tempo parece que não tem ninguém”. É o sentir-se só num ambiente que aparenta ser coletivo. 

Outro fator é a necessidade de adaptação de regras do coletivo, definidas em assembleias de condomínio que geralmente são pouco participativas. As famílias ficam sujeitas às regras que muitas vezes elas discordam mas que não estiveram presentes para questioná-las .
 
Uma casa sem quintal e as pessoas ficam restritas aos metros quadrados que seu bolso conseguiu pagar ou alugar. Alguns possuem áreas coletivas de lazer, um quintal de todos, mas que na maioria das vezes precisa pagar taxas extras para usar. E quando é muito usado pelos condôminos este quintal coletivo tira a privacidade de cada família. 

Lembro que fui a uma reunião de trabalho da Pastoral ligada à Igreja em um condomínio de amigos e o tema da reunião, que aconteceu em uma sala sublocada do coletivo pelo casal que nos recebera, era sobre sexualidade nos parâmetros da moral religiosa. Mas paralelamente estavam acontecendo duas outras festas em espaços com churrasqueiras com som livre e os convidados destas outras festas estavam de roupa de banho e havia muitas mulheres com biquínis bem sensuais o que dispersou muito a atenção dos homens que estavam na reunião e gerou um grande incômodo nas mulheres. Este quintal coletivo é muitas vezes invasivo e dificulta a privacidade. Pior são os condomínios que não possuem área coletiva de lazer ou não tem para onde ir mesmo. Tudo bem que tem a varanda que agora é gourmet, mas tem que ficar assistindo a panorâmica de outras varandas e ainda ter que se deparar com algum voyeur bisbilhotando as janelas alheias. 

Recentemente uma senhora me disse que teve que se mudar do prédio, pois o apartamento que havia comprado dava de frente para o apartamento de outro prédio, quase que varanda com varanda. Ela teve o azar de conviver com os moradores que faziam sexo coletivo toda noite e com tudo aberto. Como a senhora tinha filhos pequenos, ela escolheu sair do prédio e ir para outro lugar. 

São muitos os fatores e situações que vão pré dispondo o indivíduo à sua insanidade emocional. A primeira delas é a perda de referencial de espaço e ao mesmo tempo a restrição limitante da residência, que fica circunscrita no próprio apartamento. Sem falar nos fatores de risco: incêndio, bloqueio de energia elétrica, elevadores, escadas, e mais recentemente a própria insegurança que mesmo em condomínios de alta segurança este item é uma falsa ilusão em tempos de insegurança pública. É muito fácil invadir condomínios verticais, e se um ladrão ou quadrilha entrar em um, o pânico fica generalizado. Vai saber em qual lugar os bandidos se esconderam.

Isolamento, depressão, ansiedade são sintomas que vemos emergir deste modelo de residências verticais. Há uma tendência de se justificar pela capacidade do ser humano em se adaptar, muitos que já vem desta cultura de apartamentos verticais ou que praticamente nasceram dentro de uma residência deste tipo podem não sentir os efeitos emocionais. Mas o impacto é grande para aqueles que residiam em casas planas e passam a residir em condomínios verticais. Porém, os que já estão impregnados nesta cultura, também sofrem emocionalmente se não estiverem atentos. 

Na cidade de Vitória/ES são muitos os casos de pessoas que cometem suicídio pela terceira ponte que liga a cidade de Vitória à Vila Velha. Dizem que antes da terceira ponte existir, havia muitos suicídios nos condomínios verticais. A estrutura geográfica desta cidade é estreita e pequena, parte dela foi aterrada porque eram áreas de mangues. Assim, os edifícios ficaram muito próximos um do outro, a privacidade dos apartamentos é muito pequena. Este fator favorece muito na inadequação que a mente vai sentindo e transformando este sentimento em sintomas patológicos. Nesta geografia apertada, o som urbano vira uma orquestra barulhenta e contínua, a mente fica impregnada de um som disforme e sem melodia, o barulho dos carros, buzinas, cirenes, por 24 horas. A mente não consegue ter um tempo de silêncio. Sabemos que o silêncio é fonte de paz. A paz que procuramos está no silêncio que não fazemos.

Para que a desestrutura emocional tenha um mínimo de proteção, é necessário primeiro saber e ter clareza dos motivos no qual está residindo em um apartamento em condomínio vertical. Depois ter clareza de sua realidade social e econômica para não ficar fantasiando o desejo de estar morando em um apartamento maior ou melhor. Principalmente quando vemos as publicidades de condomínios com apartamentos amplos, de duas a três suítes, etc. Saber que o mercado imobiliário conduziu seus clientes à formatação de apartamentos compactos e funcionais, priorizando o espaço nas áreas coletivas, porém na prática estes coletivos não são tão usados. O luxo dos atuais condomínios e a publicidade vibrante e feliz das construtoras, camuflam a realidade.

Procurar se situar no bairro que se localiza seu condomínio e tentar explorar o que a região oferece de espaços públicos para que aconteça a saída do condomínio para áreas publicas, pois assim estará quebrando o isolamento no seu apartamento e também quebrando a tendência de estar apenas perto dos iguais social e economicamente, pois esta é a realidade dos condomínios, são quase que um mecanismo de segregação de classes sociais. Até nas propagandas das construtoras observamos esta tendência. Tem desde a “minha casa minha vida” (povão), até os de luxo e brilhos, mais requintados para a classe alta. Buscar espaços coletivos públicos pode levar a quebra de guetos, preconceitos, ver pessoas diferentes e enxergar que a cidade não é tão cruel como se pinta. 

Estar buscando desenvolver atividades manuais, leituras. Ocupar o tempo ocioso no apartamento onde não se tem muito o que fazer, para potencializar o apartamento como um lugar desejante.  Plantas, mini hortas, artesanatos. Cuidado com os eletrônicos!  TV, Celular, Computador, provocam isolamento e o espaço restrito pode levar a pessoa a fixar-se na dependência eletrônica. É o coletivo virtual dentro do apartamento porém, não é real.

A alimentação passa a ser um problema, pois geralmente as cozinhas são restritas e pequenas nos apartamentos e isso leva a criar o hábito da busca por alimentos prontos, para isso tem até os aplicativos onde se escolhe a comida “X” para desejo “Y” (tudo pronto). O distanciamento do processo de cozinhar, preparar o próprio alimento é um fator que ajuda na desestruturação emocional, pois o ser humano tem um forte vínculo com o manuseio culinário.  A cozinha é o “umbigo” da casa, onde normalmente nos encontramos para falar de tudo, mas as cozinhas da maioria dos apartamentos mal cabem uma pessoa. 

Procurar usar os espaços coletivos do condomínio com frequência. Sentir-se no clube, quando o espaço oferece esta possibilidade. Se não há espaço para esporte e lazer , procure um próximo, no bairro, nas praças, nas avenidas. A ociosidade nos apartamentos tende a aumentar, por isso é preciso se propor ao movimento contínuo. 

Provocar encontros de confraternização entre os condôminos. Fazer daquele local, com dezenas de famílias uma comunidade, uma extensão de sua família. Procurar cultivar a amizade com os moradores do condomínio, abrir-se para esta possibilidade. Afinal de contas, há vizinhos que poderão residir no mesmo condomínio por décadas. 

Participar da organização do condomínio, estar interagido nas melhorias e não delegar tudo ao sindico. Afinal de contas o apartamento não está isolado do prédio. O prédio como um todo é parte do seu patrimônio. Este fator é muito importante, pois a depreciação destes condomínios é muito rápida pelo grande número de pessoas que os utilizam ao longo dos anos. Residir em um condomínio mal cuidado e desqualificado é um bom terreno para instaurar depressão, baixa estima, etc..
 
Já que inventaram os condomínios e com eles inventaram que é uma necessidade humana e símbolo de progresso , é melhor fazer uma adaptação inteligente e ativa do que se colocar nesta realidade passiva ou apenas criticando e mal humorado. A autonomia que se tem dentro de uma casa, não é a mesma em um apartamento de condomínio. Por isso, feliz vida em apartamentos de condomínios verticais. 


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